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"No Argentina cada vez nascem menos crianças. Aqui estão as razões"

Por Uriel Manzo Diaz

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Em 2014, a Argentina registrava cerca de 777.000 nascimentos anuais. Dez anos depois, em 2024, esse número caiu para 413.000. Não houve um evento disruptivo como uma guerra ou uma catástrofe que explique o fenômeno. O que ocorreu foi algo muito mais silencioso: milhares de decisões individuais que, em conjunto, redefiniram o mapa demográfico. Ter menos filhos, adiar a maternidade ou simplesmente não formar uma família deixou de ser a exceção para se tornar uma tendência. O resultado é a queda mais acentuada da natalidade na história recente do país.

Uma taxa abaixo do nível de reposição

A média de filhos por mulher está atualmente em 1,23, muito distante dos 2,1 necessários para garantir a troca geracional sem depender da imigração. Para dimensionar o dado, basta olhar para países europeus como Itália ou Polônia, tradicionalmente associados ao envelhecimento populacional. A Argentina já se encontra nesse mesmo cenário.

Um fenômeno desigual segundo o território

A queda na natalidade não impacta de maneira homogênea. Províncias como Misiones, Chaco e Formosa ainda mantêm taxas relativamente mais altas de nascimentos. No outro extremo, a Cidade de Buenos Aires e a Terra do Fogo apresentam os níveis mais baixos, com apenas 6,9 nascidos vivos para cada mil habitantes.

O caso portenho é particularmente ilustrativo. Entre 2016 e 2023, os nascimentos na cidade caíram de mais de 76.000 para pouco mais de 43.000 por ano, o que implica uma redução próxima a 43% em apenas sete anos. Uma contração acelerada no distrito mais populoso e com mais recursos do país.

A maternidade atravessada pela desigualdade

Os dados também revelam uma forte correlação entre natalidade e nível socioeconômico. Seis em cada dez lares com menores de idade pertencem aos setores de menores rendimentos. Em contraste, nos estratos mais altos, apenas um em cada cinco lares tem filhos. Na Argentina atual, a decisão de ter filhos parece cada vez mais vinculada a contextos de vulnerabilidade do que a cenários de estabilidade.

Fatores econômicos: o custo de criar

Entre as múltiplas causas, a econômica é a mais evidente. A grande maioria das mulheres que decide adiar a maternidade indica a falta de estabilidade financeira como principal motivo. Não se trata apenas de percepção: segundo estimativas oficiais, o custo mensal de criação de uma criança em idade escolar supera amplamente os rendimentos de muitos lares.

Em um contexto de inflação persistente e altos níveis de informalidade no trabalho, projetar a longo prazo torna-se complexo. Ter filhos, nesse contexto, deixa de ser uma decisão puramente pessoal para se transformar em um cálculo econômico.

Trabalho e maternidade: uma tensão persistente

O mercado de trabalho também não oferece um cenário favorável. As mulheres com vários filhos enfrentam menores níveis de inserção no mercado de trabalho e, em média, rendimentos mais baixos. A maternidade continua funcionando como um fator de penalização econômica, especialmente entre as mais jovens.

Isso introduz um elemento chave: adiar ou renunciar à maternidade não responde mais apenas a mudanças culturais, mas também a estratégias racionais frente a um sistema que não consegue compatibilizar trabalho e cuidado.

Novas formas de pensar a vida

A isso se soma uma transformação mais profunda, menos quantificável, mas igualmente influente. As novas gerações tendem a construir seus projetos de vida a partir da escolha individual mais do que a partir de mandatos tradicionais. A ideia de “formar uma família” como passo obrigatório perde força frente a outras prioridades, como o desenvolvimento pessoal, profissional ou a estabilidade emocional.

Não se trata de um fenômeno necessariamente negativo, mas sim de uma mudança de paradigma com impacto direto na estrutura demográfica.

Um futuro com menos jovens e mais adultos idosos

As consequências já começam a se tornar visíveis. No médio prazo, a população adulta idosa superará a infantil. Algumas maternidades reduziram sua atividade e os sistemas educacionais iniciais começam a registrar menor demanda.

A longo prazo, o desafio será sustentar um sistema previdenciário com menos trabalhadores ativos para cada aposentado. O chamado “bônus demográfico”, essa etapa em que a população economicamente ativa é majoritária, pode se tornar uma oportunidade ou um problema, dependendo das políticas que forem implementadas.

Políticas públicas: um debate incipiente

Nesse contexto, as políticas atuais parecem defasadas. A Argentina conta com uma licença por maternidade de 90 dias e uma licença por paternidade de apenas dois, um esquema que não reflete as dinâmicas familiares contemporâneas nem promove uma distribuição mais equitativa das tarefas de cuidado.

Apesar da magnitude do fenômeno, o debate público apenas começa a tomar forma e o faz sem muita urgência institucional. Enquanto isso, os registros de nascimentos continuam em queda, marcando uma tendência que, se não for revertida, redefinirá o país nas próximas décadas.

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Uriel Manzo Diaz

Uriel Manzo Diaz

Olá! Meu nome é Uriel Manzo Diaz, atualmente estou em processo de aprofundar meus conhecimentos em relações internacionais e ciências políticas, e planejo começar meus estudos nesses campos em 2026. Sou apaixonado por política, educação, cultura, livros e temas internacionais.

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