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"O sagrado e o profano: o diálogo com Deus e o existencialismo em Os Sopranos"

Por Octavio Sánchez Piedrabuena

Portada

A importância de Os Sopranos (1999-2007) para a história da televisão não reside somente no fato de ter sido uma das primeiras séries a colocar um antihéroe como protagonista, mas sim no fato de que carece de arcos narrativos convencionais. Os Sopranos é o estudo de seus personagens sobre várias temáticas que vão se desenvolvendo. Não trata do ascenso e da queda de um capo mafia (ao estilo de Goodfellas, Scarface ou O Poderoso Chefão), mas investiga as ruínas circulares em que seus protagonistas estão presos, expondo suas próprias miserias, angústias e contradições. Os Sopranos pretende se erguer como um tratado sobre a condição humana.

A série é um enganos magistral para os espectadores. Em sua superfície aparenta ser um drama criminal, mas esse cenário no qual o programa é montado não é mais do que uma desculpa para explorar temas muito mais profundos e universais.

Claro que cada canto desse iceberg merece seu próprio artigo, mas me interessa ir direto ao fundo. É lá embaixo que a série se torna realmente selvagem e as leituras se tornam muito mais densas e transcendentes. Para isso, vamos revisar algumas cenas-chave, mas sem spoilers. Porque o relevante não é o quem matou quem, mas aprofundar-se naquela fronteira onde, a meu ver, a série estabelece um diálogo com Deus.


Talvez pareça uma obviedade apontar isso, mas é muito importante se livrar de um preconceito: a série não se titula Tony Soprano, é Os Sopranos. E essa diferença, sutil mas fundamental, não é um detalhe menor. Embora Tony seja o eixo sobre o qual a trama orbita, a série não é um one-man show; é uma crônica onde todos são protagonistas. A série nos apresenta um círculo de pecadores, onde cada um deve lidar com suas próprias misérias. A carga moral não recai apenas sobre os ombros de Tony: o elenco inteiro está completamente atravessado pelos sete pecados capitais.



Mas se há um momento em que Os Sopranos rompe com sua própria máscara de drama criminal para tocar o místico, é sem dúvida na cena da Revelação da Virgem Maria a Paulie Gualtieri.

São apenas alguns segundos, mas é um dos trechos mais transcendentais e perturbadores de toda a série. Vejamos o cenário: um prostíbulo (santuário da carne e do pecado profano), uma música punk estridente que corta o ar, e no meio desse caos, a figura de o sagrado aparecendo diante de um gângster violento e supersticioso. Não há luz angelical, não há harpas, não há coros celestiais. A discordância é absoluta.

É uma revelação subversiva que não busca consolar, mas alertar com severidade. É o além filtrando-se pelas fendas do bordel para nos lembrar que a corrupção moral será punida. O que a série nos diz é que não há hierarquias diante do divino: as strippers mais humildes, a quem eles maltratam, exploram, batem (inclusive, assassinam), também são filhas de Deus. Ao desprezar suas vidas, estão desprezando o sagrado.

A escolha da música também não é casual: o punk é um gênero diretamente ligado à rebeldia e ao anti-sistema. E não existiu na história humana ideia mais rebelde e anti-sistema do que a convicção de que todos somos iguais diante dos olhos de Deus: desde os imperadores romanos até as meretrizes e os marginalizados.


Assim, a redenção não se nos apresenta como um milagre reconfortante, mas como algo espetacular: é uma revelação aterrorizante que nos tira da comodidade de pensar que Deus é indiferente. A série nos sugere, com uma veemência quase arrepiante, que não estamos sozinhos. Que, embora vivam mergulhados na miséria e no crime , existe uma força espiritual suprema e inexplicável que tudo observa, e cuja justiça é infalível. Esse diálogo com o divino não é uma paz interior, mas uma confrontação com sua própria escuridão.


A aparição da Virgem Maria não é a única sinal de que em Os Sopranos as regras do plano terreno podem ser quebradas. Na série não abundam, mas há pequenos flares sobrenaturais e presságios que rodeiam os personagens como fantasmas ao seu redor.

Por exemplo, o ritual em que Christopher Moltisanti jura lealdade à família. Enquanto lhe cortam o dedo e queimam a imagem de um santo em sua mão, um corvo o observa fixamente pela janela, sendo este um augúrio de morte e destruição. Chriss está amaldiçoado, assim como todos os que o cercam nesse círculo vicioso de sangue, traição e podridão.


Essa presença de forças sombrias alimenta até as teorias mais obscuras e loucas do fandom, como aquela que sustenta que Ralph Cifaretto é a própria encarnação do diabo. Sua psicopatia e sua crueldade sádica escapam dos parâmetros de violência 'aceitos' por seus próprios companheiros mafiosos. Os sinais são subliminares: em uma cena cumprimenta alguém com um sutil 'Please allow me to introduce myself', o icônico verso inicial de Sympathy for the Devil dos Rolling Stones. E, por se não bastasse, em uma confissão íntima com o pai Intintola, este lhe solta uma frase que parece tirada diretamente da mesma letra da canção sobre estar presente quando Jesus teve seu momento de dúvida e dor, ao que Ralph fica em um silencio sepulcral.


Outro toque também enigmático é uma nota anônima que recebe Tony, com uma frase tão profunda quanto estranha: 'Às vezes ando com pena de mim mesmo, e enquanto isso, um grande vento me leva pelo céu'. É um fragmento real da cultura indígena Ojibwe. Mas Tony, em vez de interpretá-lo como um convite à humildade ou a contemplar a imensidão das forças superiores diante de seus dramas, o reduz e entende como uma ferramenta de manipulação para invalidar os problemas dos outros.

Em Os Sopranos, o sobrenatural flui como um rio de água cristalina e subterrânea, que em raras ocasiões brota à superfície e das formas mais sutis e subliminares. Abaixo de todo esse mundo subjaz uma força sobrenatural que está acima de tudo. E é precisamente essa presença invisível que sentencia a verdadeira e mais cruel condenação de toda a série: o castigo divino se manifesta na maldição de ficar preso em um eterno retorno.

Todos eles estão condenados a repetir as mesmas ações, os mesmos erros, as mesmas traições, uma e outra vez, de forma infinita. Cada personagem parece encarnar seu próprio Mito de Sísifo: carregam com suas culpas empurrando a pedra ladeira acima todos os dias, só para vê-la cair novamente pelo mesmo abismo de vazio e contradição. No caso de Tony, o crime não é seu destino, mas seu ciclo vital.


Similar às Ruínas Circulares de Borges, Tony sueña un hombre nuevo, uma versão melhor de si mesmo, despojado de suas cargas emocionais, um pai exemplar, um cidadão honrado, e anseia fazer isso acontecer . Sonha com uma família normal, em deixar o crime, em viver em paz. Mas no final, apenas vai descobrindo o irremediavelmente escuro e perverso que é sua alma.

A tragédia da série é a ausência de redenção. Não há heróis que alcancem a salvação, pois para eles o livre-arbítrio e as portas do céu estão fechadas. Os personagens sofrem as consequências de seus atos e sentem culpa, mas no final do dia nenhum deles está verdadeiramente disposto a mudar suas vidas. Cada um deles escolhe, uma e outra vez, continuar naufragando em seus próprios pecados: o dinheiro, as mulheres, os luxos, o poder e os vícios. Sentem culpa, mas não arrependimento. Seu castigo é a própria vida: estar condenados a viver presos em um loop infinito onde não há um desfecho heroico nem resolução possível, apenas a continuidade eterna de sua existência em um mundo venéreo e corrompido. Em Os Sopranos, os personagens estão amaldiçoados por sua própria incapacidade de se redimir.



Os Sopranos deixou uma marca indelével. Não estamos falando apenas da pioneira que abriu o jogo e colocou o antihéroe no centro da cena, mas de nada menos que a mãe da era de ouro da televisão moderna. Sem ela não existiriam fenômenos como Breaking Bad, Mad Men, The Wire, Game of Thrones, Better Call Saul, Fargo, Sons of Anarchy, House of Cards ou Prison Break. Todas beberam dessa mesma fonte e herdaram o valor de investigar as zonas cinzentas da moralidade.

No entanto, é preciso advertir: Os Sopranos não é uma série para qualquer um. Ao prescindir de arcos narrativos convencionais, leva seu próprio pulso, é deliberadamente anticlimática, esquiva os golpes efetistas e jamais deixa as coisas servidas em bandeja para o espectador. Não há qualquer tipo de fan service ou cliffhangers. Mas uma vez que te prende em seu ritmo, não há volta.

O grande mérito de Os Sopranos é que não subestima seu público. Longe de explicar tudo, a série confia plenamente na inteligência de quem está do outro lado, abrindo um abanico infinito de interpretações possíveis. Por isso costuma-se dizer que ninguém vê duas vezes a mesma série: para cada espectador, e em cada fase da vida, Os Sopranos é uma história distinta que dialoga com medos e perguntas diferentes. Repleta de camadas, contradições e abismos, se ergue como aquele grande iceberg que resiste a ser contido pela superfície. Porque as grandes obras não nos oferecem respostas cómodas, mas nos deixam suspensos à beira de nossas próprias interpretações, e conseguem nos interpelar até o fundo de nossa consciência.

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Octavio Sánchez Piedrabuena

Octavio Sánchez Piedrabuena

Licenciado em Ciências Políticas (UCA)

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