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"Abelardo de la Espriella chega à presidência: o desafio de governar uma Colômbia dividida entre a ordem e a mudança (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A escolha de Abelardo de la Espriella como presidente da Colômbia constitui um dos acontecimentos políticos mais significativos da história recente do país. Sua chegada à Casa de Nariño representa muito mais do que a alternância entre governos de esquerda e de centro-direita. Simboliza o esgotamento de uma parte importante do eleitorado com a experiência política inaugurada por Gustavo Petro em 2022 e a busca por respostas distintas frente a problemas que continuam condicionando a vida nacional: a insegurança, o estancamento econômico, a expansão de grupos armados ilegais e a crescente desconfiança em relação às instituições.

A trajetória do novo mandatário resulta tão singular quanto controversa. Abelardo Gabriel de la Espriella Otero nasceu em Bogotá em 31 de julho de 1978, embora tenha desenvolvido grande parte de sua vida em Montería, no departamento de Córdoba. Filho do jurista Abelardo de la Espriella Juris e de María Eugenia Otero Aldana, cresceu em um ambiente vinculado ao direito e à vida pública. Estudou Direito na Universidade Sergio Arboleda e posteriormente realizou especializações em Direito Penal e Criminologia na Universidade Externado de Colômbia e em Direito Administrativo na Universidade del Rosario.

Antes de irromper na política, De la Espriella já era uma figura amplamente conhecida na Colômbia. Seu escritório jurídico, fundado no início da década de 2000, o transformou em um dos advogados penalistas mais midiáticos do país. Por anos, participou de alguns dos processos judiciais de maior repercussão nacional e construiu uma imagem pública associada tanto ao sucesso profissional quanto a uma marcada exposição midiática. Ao contrário de muitos dirigentes colombianos, seu prestígio não surgiu da militância partidária nem da gestão pública, mas dos tribunais, dos negócios e dos meios de comunicação.

Essa notoriedade, no entanto, sempre esteve acompanhada de polêmicas. Entre seus clientes figuraram personagens que ocuparam manchetes durante anos, entre eles o empresário venezuelano Alex Saab, acusado pela justiça norte-americana por presuntas operações de corrupção vinculadas ao regime de Nicolás Maduro. Também representou pessoas relacionadas a processos derivados do fenômeno da parapolítica e a indivíduos vinculados a estruturas paramilitares. Seus críticos sustentam que essas relações profissionais refletem proximidades incómodas com setores obscuros do poder colombiano. Seus defensores respondem que o exercício da advocacia implica precisamente garantir o direito à defesa de qualquer cidadão e lembram que nunca foi condenado por atividades ilícitas relacionadas a tais clientes.

As controvérsias se estenderam além dos questionamentos surgidos em torno da Fundação Iniciativas pela Paz (FIPAZ), criada por ele em 2005. Diversas investigações jornalísticas examinaram os contatos que essa organização manteve com integrantes das antigas Autodefesas Unidas da Colômbia. Embora as atuações judiciais tenham terminado arquivadas e nunca tenham sido estabelecidas responsabilidades penais contra De la Espriella, o episódio continua fazendo parte do debate público e reaparece periodicamente na discussão política nacional.

A isso somam-se as críticas provenientes de organizações defensoras da liberdade de expressão, que questionaram seu uso frequente de ações judiciais contra jornalistas e comunicadores. Para seus detratores, essa prática reflete uma tendência a confrontar agressivamente a imprensa crítica. Para seus seguidores, constitui simplesmente uma defesa legítima do direito à honra frente a informações consideradas falsas ou difamatórias.

Apesar desses antecedentes, ou talvez precisamente graças à notoriedade acumulada durante anos, De la Espriella conseguiu construir uma candidatura extraordinariamente eficaz. Em poucos meses, transformou sua imagem de advogado midiático na de líder político disposto a combater o que definia como o fracasso do modelo promovido por Gustavo Petro. Seu movimento, Defensores da Pátria, rapidamente se tornou o veículo eleitoral de um amplo setor de cidadãos desencantados tanto com a esquerda quanto com os partidos tradicionais de centro-direita.

Boa parte da imprensa internacional tentou enquadrá-lo dentro da categoria de ultradireita. No entanto, essa caracterização é discutível a partir de uma perspectiva politológica rigorosa. Embora De la Espriella mantenha posições conservadoras em questões culturais e proponha uma forte agenda de segurança pública, seu programa econômico se inscreve principalmente dentro da tradição liberal clássica. Além disso, defende o pluralismo eleitoral, a economia de mercado e as instituições republicanas. O uso indiscriminado do termo ultradireita para descrever qualquer proposta conservadora corre o risco de esvaziar de conteúdo uma categoria que historicamente tem estado associada a movimentos autoritários, fascistas ou antidemocráticos. Em termos comparativos, a localização ideológica de De la Espriella parece corresponder com maior precisão ao espaço do liberalismo conservador e da centro-direita liberal.

Seu programa de governo se articula em torno de dois pilares fundamentais: a segurança e a economia. Em matéria de ordem pública, propõe abandonar a estratégia de negociação simultânea com múltiplas organizações armadas impulsionada por Petro e substituí-la por uma política de confrontação direta contra grupos guerrilheiros, bandas narcotraficantes e estruturas criminosas. Inspirado parcialmente pela experiência salvadorenha de Nayib Bukele, tem defendido a construção de novos complexos penitenciários de alta segurança, o endurecimento das penas e uma maior presença das forças estatais em territórios onde o Estado perdeu controle efetivo durante os últimos anos.

A dimensão econômica constitui o segundo grande eixo de seu projeto. De la Espriella sustenta que a Colômbia precisa recuperar a confiança dos investidores nacionais e internacionais por meio de uma redução substancial do tamanho do Estado, uma simplificação regulatória e uma diminuição da pressão fiscal sobre o setor produtivo. Entre seus objetivos figura a redução do gasto público, a reorganização administrativa, a eliminação de estruturas burocráticas consideradas redundantes e a promoção do investimento privado como motor principal do crescimento.

Seu equipe econômico propõe uma estratégia baseada no fortalecimento da agroindústria, do turismo, dos serviços tecnológicos e da exploração dos recursos energéticos do país. O novo presidente considera que a intervenção estatal excessiva tem limitado durante anos a competitividade colombiana e sustenta que uma economia mais aberta e menos regulada permitirá acelerar a criação de empregos e aumentar a produtividade.

Mas o verdadeiro desafio começará agora. De la Espriella herda uma Colômbia profundamente complexa. O governo de Gustavo Petro deixa avanços sociais valorizados por amplos setores da população, mas também importantes problemas estruturais sem resolver. A expansão territorial de organizações armadas ilegais, a persistência do narcotráfico, o deterioro fiscal, as dificuldades do sistema de saúde e os numerosos confrontos políticos acumulados durante os últimos anos configuram um cenário particularmente exigente para qualquer administração.

A isso se soma um problema político fundamental: a legitimidade de origem obtida mediante uma vitória extremamente apertada. Embora tenha ganho as eleições, o fez em um país praticamente dividido ao meio. Milhões de colombianos votaram por uma opção distinta e uma parte considerável da cidadania observa com preocupação algumas de suas propostas mais ambiciosas. Essa realidade limitará inevitavelmente a margem de manobra do novo governo.

A governabilidade também não aparece garantida. Seu movimento político carece de uma estrutura territorial comparável à dos partidos tradicionais e deverá construir maiorias parlamentares por meio de acordos com setores diversos do espectro político. A esquerda, fortalecida pelo elevado caudal eleitoral obtido pelo oficialismo, se perfila como uma oposição ativa e combativa. Sindicatos, organizações sociais, movimentos estudantis e coletivos vinculados ao petrismo já anteciparam resistência frente a eventuais reformas que considerem regressivas em matéria de direitos sociais ou trabalhistas.

A experiência latino-americana demonstra ainda que os governos que chegam ao poder com discursos de transformação profunda costumam enfrentar rapidamente as restrições impostas pela realidade institucional. As promessas de mudanças rápidas frequentemente colidem com a complexidade burocrática, as limitações orçamentárias, a fragmentação política e as exigências de uma sociedade plural. De la Espriella deverá demonstrar que possui capacidades de gestão equivalentes à eficácia comunicacional que exibiu durante a campanha.

A magnitude da expectativa criada constitui ao mesmo tempo uma fortaleza e um risco. Para milhões de eleitores, representa a possibilidade de recuperar a segurança, impulsionar o crescimento econômico e restaurar a confiança nas instituições. Para seus adversários, encarna o perigo de uma excessiva concentração de poder e de uma agenda conservadora que poderia tensionar alguns consensos alcançados durante as últimas décadas.

Em qualquer caso, sua vitória marca o início de uma nova etapa política para a Colômbia. O país que há apenas quatro anos elegeu o primeiro presidente de esquerda de sua história moderna opta agora por um dirigente que promete percorrer o caminho inverso. O sucesso ou o fracasso dessa aposta não dependerá unicamente da vontade do novo mandatário, mas também de sua capacidade de governar uma nação diversa, polarizada e atravessada por desafios históricos que nenhum governo conseguiu resolver plenamente.

A presidência de Abelardo de la Espriella começa sob o signo de uma paradoxa. Chega ao poder como símbolo de ruptura, mas deverá governar por meio de acordos. Promete autoridade, embora necessite de consensos. Oferece transformações profundas, mas enfrentará instituições projetadas precisamente para moderar as mudanças abruptas. De como gerencie essas tensões dependerá não só o futuro de sua administração, mas também o rumo político da Colômbia durante a próxima década.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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