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"Adorni sob a lupa: o porta-voz da "casta zero" com departamento não declarado e contas que não fecham"

Por Mila Zurbriggen Schaller

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Houve um tempo, não muito distante, em que Manuel Adorni saía todas as manhãs diante das câmeras do mundo para explicar com tom seguro e sorriso cúmplice por que o governo de Javier Milei era diferente de todos os anteriores. A transparência, a honestidade e o fim dos privilégios da "casta" eram o leitmotiv de cada coletiva de imprensa. Hoje, esse mesmo homem está sendo investigado pela Justiça federal por suposto enriquecimento ilícito, com um apartamento em Caballito e propriedades de luxo que, segundo a causa, não aparecem em nenhuma de suas declarações de imposto.

A ironia seria cômica se não fosse tão grave.


O que a Justiça encontrou

A causa que impulsiona o promotor Gerardo Pollicita perante o juiz Ariel Lijo não é o produto de uma denúncia anônima nem de uma filtragem oposicionista de procedência duvidosa. É o resultado de uma investigação que detectou inconsistências concretas e documentadas entre o patrimônio declarado por Adorni e os ativos que —segundo fontes judiciais— ele efetivamente possui.

O processo inclui transferências bancárias que não condizem com a renda do funcionário, um apartamento no bairro portenho de Caballito que não figura em suas declarações de imposto e supostas propriedades de luxo cuja titularidade ainda está sendo rastreada. São irregularidades que, em qualquer Estado de direito sério, merecem uma investigação minuciosa. Na Argentina de Milei, por outro lado, merecem um abraço presidencial e uma foto com Karina.

As mesmas fontes judiciais apontaram que é provável que Adorni seja convocado para depor em maio, uma vez que terminem as declarações dos demais convocados na causa. Ou seja, o principal porta-voz do Governo, a cara visível do Executivo perante a imprensa nacional e internacional, poderia estar sentado frente a um juiz em poucas semanas para dar explicações sobre como construiu seu patrimônio enquanto recebia um salário do Estado.


O argumento da "operação política": o coringa de sempre

Diante da gravidade dos fatos, a resposta do Governo foi previsível até o cansaço: "é uma operação política". A mesma frase que usaram quando investigaram Cristina Fernández de Kirchner. A mesma que usaram quando investigaram funcionários kirchneristas, menemistas e radicais. Na Argentina, todo escândalo de gestão termina se transformando, por obra e graça do acusado, em uma conspiração do inimigo.

O problema com esse argumento é que não explica nada. Não explica por que o apartamento de Caballito não figura nas declarações de imposto. Não explica de onde vêm as transferências bancárias sob análise. Não explica por que um funcionário público que ganhou seu salário do Estado aparece vinculado a propriedades que excedem o que esse salário permite acumular. Dizer "me perseguem" não é uma refutação dos fatos; é uma desculpa política disfarçada de argumento jurídico.

Mais ainda: se o Governo realmente acreditasse que se trata de uma operação judicial orquestrada, a resposta lógica seria exigir que Adorni apresentasse publicamente toda a sua documentação patrimonial para esclarecer qualquer dúvida. Isso não ocorreu. Em vez disso, optaram pelo blindagem política, os atos conjuntos e o abraço presidencial. Uma decisão que, longe de gerar tranquilidade, alimenta as suspeitas.


Karina e Javier: a política do abraço

A reação dos irmãos Milei diante do escândalo merece uma análise separada. Karina Milei, a figura mais influente do círculo presidencial e quem controla com mão de ferro os tempos e as lealdades do espaço libertário, optou por aparecer publicamente ao lado de Adorni em dois atos de alto perfil: um no Hospital Malbrán e outro em Vaca Muerta. A mensagem foi clara e deliberada: o funcionário tem o respaldo do núcleo duro do poder.

O presidente, por sua vez, o abraçou diante das câmeras em um gesto que o próprio governo definiu como "carregado de simbolismo político". E foi realmente. Na semana em que a Justiça avançava sobre seu chefe de gabinete, Milei escolheu a demonstração de afeto em vez de qualquer outra consideração institucional. Não houve pedido de transparência, não houve convite para que Adorni apresentasse seus bens diante da opinião pública, não houve sequer uma declaração que distinguisse o respaldo pessoal do apoio político a um funcionário sob suspeita judicial.

Essa atitude não é inocente. É um sinal para dentro do espaço libertário: aqui não se abandona os próprios, independentemente do que diga a Justiça. É também um sinal para fora: o Governo não tem intenção de fazer concessões à pressão midiática ou judicial, ao menos enquanto a causa não avançar até um ponto de não retorno.


O porta-voz da transparência

Vale a pena lembrar quem é Manuel Adorni e qual era sua função dentro do esquema comunicacional do governo libertário. Foi ele quem, com precisão cirúrgica e um sorriso que muitos descreveriam como condescendente, saia dia após dia para explicar as bondades do ajuste, a necessidade do sacrifício coletivo e a superioridade moral de um governo que —ao contrário de seus predecessores— não roubava, não mentia e não escondia nada.

Foi Adorni quem defendeu cada polêmica do Executivo, quem minimizou cada crítica e quem construiu o relato de um governo transparente e diferente. Foi o rosto da ruptura com a "casta". E agora é esse mesmo homem quem precisa explicar à Justiça por que seu patrimônio não coincide com suas rendas declaradas.

O contraste não poderia ser mais brutal. Nem mais revelador.


Um governo que não pode se permitir mais desgaste

O escândalo Adorni chega no pior momento possível para La Libertad Avanza. Com a imagem presidencial caindo a 35% —o registro mais baixo desde que Milei assumiu—, com a inflação de março acima das expectativas e com um Congresso cada vez mais difícil de manejar, o governo não está em condições de absorver uma nova frente de tempestade sem custo político.

As pesquisas já mostram o impacto: 58,9% dos consultados considera que o caso Adorni é grave e afeta a credibilidade do chefe de gabinete. 11,8% dos eleitores do espaço disseram que o escândalo gera dúvidas sobre continuar apoiando La Libertad Avanza. São números que, em um ano eleitoral, nenhum estrategista político pode ignorar.

E ainda assim, o Governo decidiu não sacrificar Adorni. A aposta é esperar que a causa judicial avance —ou estagne— e confiar que o blindagem política é suficiente para sustentar o funcionário até as eleições de outubro. É uma estratégia que pode funcionar se a Justiça não acelerar e se a oposição não encontrar a maneira de transformar o caso no eixo da campanha eleitoral.

Mas é também uma aposta arriscada. Porque cada vez que Adorni aparecer na tela —cada vez que sair à sala de conferências para falar de transparência, de austeridade e das diferenças entre este governo e os anteriores— o contraste entre o discurso e a realidade se tornará mais insuportável.

O porta-voz da mudança tem um apartamento não declarado. E isso, goste-se ou não, é exatamente o que este governo prometeu acabar.

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