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"Depois do grito"

Por Jazmín Abdala

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A Agostina Vega foi encontrada pelos cães.

A frase dói porque parece saída de outro tempo. Porque custa acreditar que uma adolescente de quatorze anos possa desaparecer durante dias em um país atravessado por câmeras, celulares, sistemas de rastreamento e uma conversa pública que há mais de uma década fala sobre violência de gênero. No entanto, aconteceu. E quando o corpo apareceu, chegaram as coletivas de imprensa, as declarações oficiais, as promessas de justiça e as análises de sempre.

Primeiro apareceu a morte.

A notícia percorreu a Argentina apenas alguns dias antes de um novo aniversário de Ni Una Menos. A coincidência foi impossível de ignorar. Onze anos antes, outra adolescente de quatorze anos chamada Chiara Páez havia sido assassinada na província de Santa Fé. Seu feminicídio desencadeou uma das mobilizações mais importantes da história recente da América Latina.

Entre Chiara e Agostina há onze anos.

Onze anos de marchas multitudinárias, debates parlamentares, reformas legislativas, campanhas educativas, investigações acadêmicas, observatórios, protocolos judiciais e discussões culturais que atravessaram lares, escolas, universidades, meios de comunicação e espaços de trabalho.

Mas também há mais de três mil vítimas fatais por violência de gênero.

Esse número resume uma das contradições mais profundas da Argentina contemporânea. O país que conseguiu tornar a violência machista um assunto central da agenda pública é, ao mesmo tempo, um país onde as mulheres continuam sendo assassinadas pelo fato de serem mulheres.

Ni Una Menos transformou algo que parecia imutável: a linguagem.

Durante décadas, os assassinatos de mulheres foram narrados como crimes passionais, tragédias familiares ou episódios isolados. As vítimas eram examinadas com mais rigor do que seus agressores. Analisava-se como vestiam, aonde iam, com quem saíam e que decisões haviam tomado. A violência aparecia disfarçada de fatalidade.

O movimento alterou essa lógica.

Nomear os feminicídios foi uma forma de romper com uma tradição de silêncios. Compreender que por trás de cada caso existiam padrões repetidos permitiu observar algo maior do que os fatos individuais: uma estrutura de desigualdade capaz de atravessar gerações, classes sociais, territórios e idades.

A revolução foi cultural antes de institucional.

Miles de mulheres começaram a identificar situações que durante anos haviam sido naturalizadas. O que antes parecia uma discussão restrita a pequenos círculos militantes se converteu em uma conversa coletiva. O feminismo deixou de ocupar as margens e passou a disputar o centro da cena pública.

No entanto, a morte continuou encontrando caminhos.

As estatísticas revelam uma persistência difícil de ignorar. A maioria dos agressores pertencia ao entorno íntimo das vítimas. Parceiros, ex-parceiros, familiares ou conhecidos. Os números desmontam uma das ficções mais difundidas: o principal perigo não costuma esperar em uma rua escura, mas dentro dos espaços onde deveria existir proteção.

As casas continuam sendo um dos cenários mais frequentes do horror.

Por trás de cada expediente há quartos vazios, mesas com uma cadeira a menos, aniversários que já não são celebrados e crianças que crescem aprendendo muito cedo o significado da ausência. Milhares de filhas e filhos ficaram órfãos desde aquela primeira mobilização de 2015. São a consequência menos visível de uma violência que não termina quando as câmeras se apagam.

Enquanto isso, o contexto político mudou de maneira drástica.

As organizações feministas denunciam o desmantelamento de programas estatais destinados à prevenção, assistência e acompanhamento de pessoas em situação de violência. Também alertam sobre o crescimento de discursos que relativizam, minimizam ou diretamente negam a dimensão estrutural do problema.

A disputa já não gira somente em torno das soluções.

Agora também se discute se o problema existe nos termos em que foi definido durante a última década.

A paradoxal é inquietante.

Nunca houve tantos estudos, estatísticas, investigações e ferramentas conceituais para compreender a violência de gênero. Nunca se produziu semelhante quantidade de conhecimento sobre seus mecanismos, suas consequências e suas formas de reprodução social. Nunca existiu uma consciência pública tão estendida sobre o tema.

E, no entanto, as mortes continuam.

Talvez porque nenhuma transformação cultural é linear. Talvez porque as estruturas mais antigas costumam resistir a desaparecer. Talvez porque os avanços coexistem com reações que buscam restaurar velhos ordens. Ou talvez porque reconhecer uma tragédia não equivale necessariamente a impedi-la.

O certo é que onze anos depois daquele primeiro 3 de junho, a sociedade argentina enfrenta uma pergunta incômoda: como se mede o sucesso de um movimento que mudou para sempre a conversa pública, mas não conseguiu tornar desnecessária sua própria existência?

A resposta possivelmente não se encontre nas estatísticas, mas na memória.

Antes de Ni Una Menos, muitos desses assassinatos desapareciam entre breves noticiários policiais. Hoje geram comoção social, mobilizações massivas e uma exigência pública de respostas. Não é o suficiente. Jamais será. Mas significa que já não existe a comodidade da indiferença.

Chiara Páez tinha quatorze anos.

Agostina Vega também.

Entre elas transcorreu mais de uma década de história, de lutas, de conquistas e retrocessos. Entre elas escreveu-se boa parte da conversa contemporânea sobre a violência contra as mulheres na América Latina.

E mesmo assim, continuamos pronunciando nomes.

Talvez essa seja a conclusão mais dolorosa de todas. O feminismo conseguiu que uma sociedade aprendesse a escutar. Conseguiu romper silêncios centenários, modificar leis e transformar o senso comum de milhões de pessoas. O que ainda não conseguiu o mundo é deixar de produzir as condições que tornam aquelas meninas em vítimas.

Onze anos depois do primeiro Ni Una Menos, o problema já não é que ninguém escute o grito.

O problema é que continuamos tendo motivos para pronunciá-lo.

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Jazmín Abdala

Jazmín Abdala

Jornalismo em estado de pergunta. Política e literatura como territórios de disputa. Entre livros e conjunturas, escrevo o que incomoda para ler a realidade. Desde Buenos Aires, Argentina, o berço das contradições.

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