Ancara não foi uma cúpula a mais da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Embora tenha sido concebida formalmente como uma reunião destinada a avaliar o cumprimento dos compromissos assumidos em encontros anteriores, o resultado político acabou sendo muito mais transcendental do que o conteúdo do escueto comunicado final. Longe de produzir grandes declarações doutrinárias, a reunião realizada nos dias 7 e 8 de julho de 2026 confirmou um profundo processo de transformação da Aliança Atlântica cujo alcance mal começa a ser percebido. A OTAN, que surgiu da Guerra Fria, iniciou uma mutação estrutural que altera o equilíbrio de responsabilidades entre os Estados Unidos e a Europa, redefine o papel estratégico da Turquia e obriga as capitais europeias a assumirem uma realidade que durante anos procuraram evitar: Washington não está mais disposto a garantir indefinidamente, nem nas mesmas condições, a segurança do continente europeu.
Durante décadas, o funcionamento da Aliança descansou sobre um princípio tácito. Os Estados Unidos aportavam a maior parte dos recursos militares, tecnológicos, industriais e nucleares, enquanto os aliados europeus contribuíam com forças convencionais relativamente limitadas, sob a certeza de que a garantia estadunidense constituía o verdadeiro núcleo da dissuasão ocidental. Esse modelo, consolidado após 1949 e reforçado depois do desaparecimento da União Soviética, começou a se erosar lentamente durante a presidência de Barack Obama, acelerou-se durante o primeiro mandato de Donald Trump, experimentou uma pausa sob Joe Biden e agora entrou, com o retorno de Trump à Casa Branca, em uma fase de transformação irreversível.
A reunião de Ancara não modificou formalmente os princípios fundacionais do Tratado do Atlântico Norte. O compromisso contido no artigo 5 foi reafirmado e a declaração final insistiu na vigência da defesa coletiva como fundamento essencial da organização. No entanto, por trás dessa continuidade jurídica se desenvolveu uma revolução política de dimensões extraordinárias. A questão já não consiste em determinar se os Estados Unidos continuarão sendo membros da OTAN, mas em estabelecer até onde chegará seu progressivo recuo operativo e quais capacidades deverão assumir os europeus para preencher o vazio estratégico que inevitavelmente deixará Washington.
A cúpula constituiu, nesse sentido, uma extraordinária demonstração de realismo político. Nenhum líder europeu questionou publicamente as exigências estadunidenses. Também não houve uma confrontação aberta sobre a nova distribuição de encargos dentro da Aliança. O que predominou foi uma cuidadosa encenação diplomática destinada a evitar uma ruptura com o presidente estadunidense e, ao mesmo tempo, convencê-lo de que a Europa estava finalmente disposta a responder às demandas que Washington vem fazendo há mais de uma década.
Esse esforço coletivo foi dirigido com notável habilidade pelo secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, que compreendeu que o verdadeiro objetivo político da reunião não consistia apenas em aprovar novos programas de gasto militar, mas em impedir que Donald Trump deixasse Ancara anunciando uma redução massiva do compromisso militar estadunidense na Europa. A documentação preparatória da cúpula mostra até que ponto essa possibilidade era considerada real por numerosos governos europeus. Mesmo dentro da própria administração estadunidense havia sido estudada a eventual retirada de até um terço das forças permanentemente desdobradas no território europeu, uma medida que teria modificado profundamente a arquitetura de segurança do continente.
A tensão era compreensível. Durante os meses anteriores, Trump havia multiplicado suas críticas aos aliados europeus. Acusou-os de se aproveitarem do esforço militar estadunidense, questionou reiteradamente o baixo nível de investimento em defesa de vários membros da organização, censurou a escassa solidariedade europeia durante as operações militares contra o Irã e voltou a levantar suas reivindicações sobre a Groenlândia, um território pertencente ao Reino da Dinamarca cuja importância geoestratégica para o controle do Ártico adquiriu uma relevância crescente devido à competição com a Rússia e a China.
A questão da Groenlândia terminou simbolizando muito mais do que uma disputa territorial. Refletiu o surgimento de um conflito de interesses entre os Estados Unidos e alguns de seus próprios aliados. Pela primeira vez desde o final da Segunda Guerra Mundial, a principal potência da OTAN formulava publicamente aspirações estratégicas que afetavam diretamente a soberania territorial de outro Estado membro da Aliança. Embora ninguém em Ancara tenha considerado seriamente uma confrontação militar entre os dois países, o episódio deixou claro que a coesão política da organização já não pode ser dada como garantida. A solidariedade atlântica continua existindo, mas convive com divergências estratégicas cada vez mais profundas.
Nesse contexto extraordinariamente delicado apareceu a figura que provavelmente terminou sendo a grande vencedora política da reunião: o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan.
Poucas vezes um líder conseguiu transformar o papel de anfitrião em um instrumento tão eficaz de construção de poder internacional. Erdogan compreendeu que a sobrevivência política da cúpula dependia tanto dos acordos militares quanto da psicologia do presidente estadunidense. Durante meses, preparou cuidadosamente uma encenação diplomática destinada a criar um ambiente favorável para Trump, combinando cerimônias de Estado, demonstrações de hospitalidade, exibições do crescente poder industrial turco e uma organização rigorosamente planejada para evitar incidentes políticos que pudessem provocar uma reação imprevisível do mandatário estadunidense.
A estratégia produziu resultados visíveis. Trump chegou a Ancara profundamente irritado pela evolução do conflito com o Irã, pela negativa de alguns aliados europeus em apoiar plenamente suas decisões e pelas discussões relativas ao gasto militar. No entanto, abandonou a Turquia qualificando a reunião como um sucesso e expressando publicamente um compromisso renovado com a Aliança, embora sem renunciar às suas exigências de uma redistribuição muito mais ampla das responsabilidades estratégicas.
Essa mudança de clima político não foi casual. Constituiu o produto de uma complexa operação diplomática dirigida simultaneamente por Erdogan e Rutte, que compreenderam que a prioridade consistia em evitar um deterioro irreversível das relações transatlânticas. Ambos os líderes conseguiram convencer o presidente estadunidense de que a Europa havia começado finalmente a percorrer o caminho que ele reclamava há anos: assumir o custo econômico de sua própria defesa.
Paradoxalmente, essa aparente vitória diplomática europeia escondia uma realidade muito mais incômoda. Não foram os europeus quem mudaram a posição estadunidense. Foi os Estados Unidos quem conseguiu que a Europa aceitasse uma mudança histórica no funcionamento da OTAN.
Ancara não representou o triunfo do consenso atlântico tradicional. Representou, pelo contrário, a aceitação europeia de uma nova correlação de forças na qual Washington conserva a liderança política e nuclear da Aliança, mas exige que o continente europeu financie, organize e sustente uma parte cada vez maior de sua própria segurança. Essa transição, apenas insinuada durante as cúpulas precedentes, ficou definitivamente institucionalizada em Ancara.
A importância histórica da reunião reside precisamente nessa transformação silenciosa. Enquanto a atenção midiática se concentrava nos gestos de Trump, nas discussões sobre o gasto militar ou nas controvérsias relacionadas ao Irã e à Groenlândia, começou a se consolidar uma nova concepção de segurança ocidental que provavelmente definirá a evolução da OTAN durante a próxima década. Os europeus continuam precisando dos Estados Unidos, mas os Estados Unidos já não estão dispostos a desempenhar o mesmo papel que desempenharam durante os últimos setenta e cinco anos. Essa constatação constitui o verdadeiro legado político da Cúpula de Ancara e o ponto de partida para compreender todas as decisões adotadas durante aqueles dois dias decisivos.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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