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A Argentina está negociando receber deportados dos Estados Unidos e tensiona sua própria política migratória.

Por Uriel Manzo Diaz

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A Argentina caminha para uma decisão que, se concretizada, marcaria uma profunda mudança em sua política migratória e em seu posicionamento internacional. O governo de Javier Milei está negociando com os Estados Unidos para assinar um acordo que permitiria a Washington deportar migrantes de terceiros países para o território argentino, como parte da ofensiva migratória impulsionada pela administração de Donald Trump.

As conversas avançam discretamente, mas seu conteúdo é politicamente explosivo. O esquema em discussão permitiria que pessoas detidas logo após entrarem de forma irregular nos Estados Unidos fossem transferidas para a Argentina, de onde seriam oferecidos voos de volta para seus países de origem. Na prática, Buenos Aires passaria a cumprir o papel de país receptor temporário de uma política migratória desenhada em Washington.

O contexto não é neutro. Trump reativou uma estratégia agressiva de deportações em massa, com desplugues do aparato migratório em cidades americanas e uma crescente pressão sobre países aliados para colaborarem como destinos alternativos. A Argentina agora aparece nesse radar, não apenas por afinidade ideológica, mas pela vontade explícita do governo de Milei de se alinhar sem nuances à Casa Branca.

Esse alinhamento, no entanto, tem custos internos evidentes. Enquanto negocia a recepção de deportados de outros países, o governo argentino endurece sua própria política migratória. O discurso oficial adotou uma retórica de segurança, com operações policiais, controles reforçados e um crescente ênfase nas expulsões. Funcionários e aliados do governo começaram a falar da migração como uma “invasão” e a questionar o acesso dos estrangeiros a serviços básicos como saúde e educação.

A contradição é difícil de disfarçar. Por um lado, promove-se uma narrativa de fechamento, ordem e expulsão. Por outro, avalia-se aceitar migrantes deportados por uma potência estrangeira, em um país que atravessa um severo ajuste fiscal e carece de infraestrutura adequada para abrigar, transferir e assistir a essas pessoas. Mesmo dentro do próprio governo existem reservas sobre o impacto econômico, social e político do acordo.

Não é um detalhe menor que a Argentina tenha historicamente construído sua identidade nacional sobre a imigração. Durante décadas, a chegada de estrangeiros foi concebida como um ativo, não como uma ameaça. Essa tradição, que evitou que a questão migratória se tornasse um clivagem político central, hoje começa a se desintegrar sob uma lógica importada, mais próxima dos debates culturais e de segurança da direita global.

O possível acordo também levanta interrogantes de soberania. Aceitar deportados de terceiros países não é um gesto humanitário nem uma política migratória autônoma. É uma peça dentro de uma estratégia desenhada pelos Estados Unidos para contornar obstáculos diplomáticos e legais em seus processos de expulsão. A Argentina não definiria quem recebe nem em quais condições iniciais, mas se adaptaria às necessidades operacionais de outro Estado.

A ajuda financeira concedida por Washington nos últimos meses adiciona uma camada adicional de complexidade. O apoio econômico foi fundamental para sustentar o governo argentino em um momento de fragilidade interna. Nesse contexto, a negociação migratória aparece menos como uma decisão soberana e mais como parte de um pacote de concessões implícitas, onde o alinhamento político se traduz em compromissos concretos.

As experiências regionais não convidam ao otimismo. Outros países que assinaram acordos semelhantes enfrentaram questionamentos judiciais, protestos sociais e custos institucionais difíceis de reverter. Tornar-se um elo em uma cadeia de deportações não costuma fortalecer os Estados receptores, mas expô-los a tensões que não controlam.

Se o acordo se concretizar, a Argentina não apenas modificará sua política migratória. Também ressignificará seu lugar no mapa político regional e global, passando de país historicamente receptor a território funcional às prioridades migratórias dos Estados Unidos. A pergunta já não é apenas técnica nem diplomática. É profundamente política e ética.

Em tempos de redefinições aceleradas, o risco é que, em nome do alinhamento internacional e do discurso de ordem, a Argentina termine importando conflitos alheios e erosionando princípios próprios. A migração, tratada durante décadas como parte constitutiva da identidade nacional, ameaça se tornar moeda de troca geopolítica. E esse é um preço que dificilmente passará despercebido.

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Uriel Manzo Diaz

Uriel Manzo Diaz

Olá! Meu nome é Uriel Manzo Diaz, atualmente estou em processo de aprofundar meus conhecimentos em relações internacionais e ciências políticas, e planejo começar meus estudos nesses campos em 2026. Sou apaixonado por política, educação, cultura, livros e temas internacionais.

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