No dia 3 de abril de 2026, os jornais La Nación e El País publicaram simultaneamente documentos internos de uma rede chamada "La Compañía", sucessora do Grupo Wagner sob controle do SVR russo, que financiou mais de 250 artigos em meios argentinos durante 2024 com o objetivo de desestabilizar o presidente Javier Milei e reorientar a política externa argentina em direção a Moscou. O orçamento total da operação ascende a US$626.100. Este relatório sintetiza as operações documentadas de inteligência russa e cubana na Argentina, os processos judiciais ativos, os atores identificados e o contexto estratégico que transforma o país em um teatro de operações permanente.
Os "Ilegais" do SVR: Identidades Argentinas a Serviço de Moscou
Entre 2012 e 2022, o casal Artem e Anna Dultsev operou em Buenos Aires sob os nomes falsos de Ludwig Gisch e María Rosa Mayer Muños, com documentos argentinos obtidos por meio de um certificado de óbito austríaco adulterado. Seus dois filhos nasceram no Hospital Italiano e votaram em eleições argentinas. Seus objetivos eram concretos: vigilância sobre o setor energético de Vaca Muerta — quartas reservas mundiais de gás não convencional —, estabelecimento de contatos na Triple Frontera e construção de uma rede de apoio logístico local (Alconada Mon, La Nación, 13 jul. 2025).
Em dezembro de 2022, serviços de inteligência eslovenos detectaram canais de comunicação cifrados e dinheiro em espécie sem justificativa no apartamento que os Dultsev ocupavam em Liubliana. Condenados em julho de 2024 a um ano e sete meses —tempo já cumprido—, foram deportados com proibição de reingresso por cinco anos. No dia 1 de agosto de 2024, em Ancara, fizeram parte da maior troca de prisioneiros desde a Guerra Fria: 26 pessoas de 7 países. Putin os recebeu pessoalmente em Moscou e os cumprimentou em espanhol: "Buenas noches." Seus filhos, com passaportes argentinos válidos, descobriram quem eram seus pais somente durante o voo (Buenos Aires Herald, 2 ago. 2024).
Processo judicial — Caso Dultsev / Rede SVR.
O caso é instruído pelo Juizado Criminal e Correccional Federal N° 9 da Capital Federal, sob a responsabilidade do juiz Sebastián Ramos, com o promotor federal Eduardo Taiano e o promotor Santiago Marquevich da UFECO. O marco legal aplicável é a Lei 13.985 sobre atos de espionagem, sabotagem e traição (Argentina, 1950). Entre os acusados na rede logística local figuram Fabián Horacio Gutiérrez —empregado do Registro Civil de Viedma—, Olga Alexandrivska e Ali Kherchi. Com vínculos ao GRU, foram identificados também Alexander Verner, Olga Koloba, Denis Sergeev, Vladimir Ochatov, Irina Bain e Andrei Zuev. No fechamento desta edição, o processo permanece ativo, sem acusados formais, com uma solicitação de levantamento de sigilo bancário em andamento. Fonte: La Nación, 13 jul. 2025.
"La Compañía": US$626.100 para Comprar o Relato Jornalístico
Os 76 documentos filtrados descrevem uma estrutura denominada internamente "La Compañía", ativada para a Argentina em dezembro de 2023 —o dia exato em que Milei convidou Zelensky para sua posse—, com uma cadeia de comando identificada: coordenador regional Alexey Evgenievich Shilov, excontratante do Grupo Wagner, e operadores em Buenos Aires Lev Konstantinovich Andriashvili e Irina Yakovenko (Torres Cabreros, El País, 3 abr. 2026).
As planilhas internas consignam mais de 250 artigos publicados entre junho e outubro de 2024 em pelo menos 23 meios argentinos, a tarifas de US$350 a US$3.100 por peça. O orçamento destinado a meios foi de US$283.100; os gastos de inteligência e operações de campo somaram US$343.000, totalizando US$626.100. O autor fantasma mais ativo —responsável por 20 artigos— assinava como "Gabriel di Taranto", com foto de perfil gerada por inteligência artificial da Nvidia (Alconada Mon, La Nación, 3 abr. 2026). Entre todas as peças fabricadas, a mais ilustrativa foi "Turistas argentinos": uma história falsa que acusava cidadãos argentinos de sabotar um gasoduto chileno, concebida para contaminar o ciclo informativo e deixar instalada a dúvida, não para sustentar uma mentira permanente (LatAm Journalism Review, 7 abr. 2026).
"A Argentina foi o maior destino de gasto da La Compañía na América Latina durante agosto de 2024, superando inclusive o Brasil e o México." — Universidade de Navarra, Global Affairs, novembro de 2025
Sobre o Autor
William L. Acosta é graduado da PWU e da Universidade de Alliance. Ele é um oficial de polícia aposentado da polícia de Nova York, ex militar do Exército dos Estados Unidos, além de fundador e CEO da Equalizer Private Investigations & Security Services Inc., uma agência com licença em Nova York e Flórida, com projeção internacional. Desde 1999, tem liderado investigações em casos de narcóticos, homicídios e pessoas desaparecidas, além de participar na defesa penal tanto em nível estatal como federal. Especialista em casos internacionais e multi jurisdicionais, ele tem coordenado operações na América do Norte, Europa e América Latina.

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