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Bolívia em chamas após três semanas de mobilizações e protestos de rua (Adalberto Agozino)

Por Poder & Dinero

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A fumaça dos pneus queimados e os gases lacrimogêneos ainda flutuam sobre a Praça Murillo quando a tarde cai. Milhares de manifestantes, armados com pedras, paus, fogos de artifício e, em alguns casos, dinamite, tentaram por horas romper o cerco policial e militar que protege o Palácio do Governo. A capital boliviana, sitiada por bloqueios em seus acessos, vive um dos dias mais violentos das últimas semanas em um país que parece à beira do colapso institucional. O presidente Rodrigo Paz, o homem que prometeu um “capitalismo para todos” após duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), enfrenta agora o maior teste de seu breve mandato: uma insurreição popular que exige sua renúncia imediata.

A crise que estourou há quase três semanas não é uma explosão isolada. É o resultado previsível de uma acumulação de frustrações econômicas, políticas e sociais que transformaram a Bolívia em uma bomba-relógio. O que começou como protestos setoriais por salários e combustíveis se transformou em um desafio frontal à ordem estabelecida, com ecos das convulsões que derrubaram governos no recente passado da América Latina.

Uma economia à beira do precipício

A Bolívia chega a este ponto após anos de deterioração silenciosa que se acelerou dramaticamente nos últimos meses. Herdeiro de um Estado com reservas internacionais dizimadas —que caíram de mais de 15 bilhões de dólares em 2014 a níveis críticos—, Paz assumiu em novembro de 2025 com um país quebrado pela queda das exportações de gás natural, a escassez crônica de dólares e uma inflação que já superava 20% ao ano em projeções. Seu governo optou por medidas de ajuste: eliminação parcial de subsídios aos combustíveis, que provocou aumentos de até 86% na gasolina e mais de 160% no diesel, cortes orçamentários e uma tímida abertura à iniciativa privada.

Os resultados foram devastadores para a população. Nos mercados de La Paz e El Alto, os preços dos alimentos básicos dispararam. Famílias inteiras reduzem refeições, os transportadores gastam fortunas em reparos de motores danificados por combustível adulterado e os hospitais enfrentam faltas de oxigênio e medicamentos. Os bloqueios —estima-se que há mais de 60 pontos ativos em todo o país, com especial intensidade ao redor de La Paz— agravam o desabastecimento até convertê-lo em crise humanitária. Caminhões parados, bombas de combustível vazias e filas intermináveis completam um panorama de escassez que lembra os piores tempos de racionamento na região.

A isso se soma o descontentamento por promessas não cumpridas. Paz chegou ao poder com o apoio de setores que votaram por uma mudança moderada, cansados do MAS, mas temerosos de radicalismos. No entanto, sua gestão foi percebida como uma guinada neoliberal: eliminação de impostos sobre a riqueza, leis que facilitam a mercantilização de terras comunitárias (embora depois revogadas) e uma aproximação com organismos internacionais como o FMI. “As pessoas não acreditavam que era um Governo de direita. Acreditavam que seria de centro”, resumiu um analista. Essa traição percebida uniu sindicatos, mineradores, camponeses aimaras e organizações indígenas em um frente comum contra o que chamam de “ajuste tipo Milei”.

O papel de Evo Morales: do exílio em Chapare até a vanguarda da protesto

No coração desta tempestade aparece, mais uma vez, a figura onipresente de Evo Morales. Refugiado em seu bastião cocalero de Chapare, com um mandado de prisão pendente por um caso de suposta corrupção de menores que ele denuncia como perseguição política, o ex-presidente dirige à distância “A Marcha pela Vida”. Seus seguidores —cocaleros, mineradores, a Central Operária Boliviana (COB) e os radicais Ponchos Rojos— têm sido fundamentais na escalada.

Morales, que governou a Bolívia entre 2006 e 2019 com um modelo extrativista e redistributivo que tirou milhões da pobreza, mas deixou instituições fracas e dependência do gás, capitalizou o descontentamento. Seus aliados rejeitam a reforma constitucional impulsionada por Paz, exigem o fim dos processos judiciais contra ele e denunciam uma traição às bases populares. O governo, por sua vez, o acusa de orquestrar uma conspiração financiada pelo crime organizado —narcotráfico, mineração ilegal, contrabando— que busca desestabilizar o Executivo. Vídeos de supostos membros dos Ponchos Rojos exibindo armas e chamando para a “guerra civil” alimentaram a narrativa oficial.

A polarização étnica e regional agrava o quadro. Enquanto Santa Cruz, bastião opositor histórico, permanece relativamente calma, o altiplano andino —com forte presença indígena e aimara— arde. A Constituição de 2009, que enfatizou a plurinacionalidade, deixou um legado de fragmentação que agora explode.

Escalada de violência e primeiras vítimas fatais

O que começou com bloqueios pacíficos derivou em choques brutais. Nesta segunda-feira, 18 de maio, milhares de manifestantes protegidos com escudos improvisados enfrentaram a polícia antidistúrbios no centro de La Paz. Gases lacrimogêneos, pedras, fogos de artifício e explosões de dinamite transformaram as ruas em um campo de batalha. Manifestantes saquearam o Tribunal Departamental de Justiça, estações de teleférico e escritórios públicos. Um manifestante ficou ferido por bala ou por objetos contundentes, segundo relato; policiais agredidos e jornalistas atacados completam o saldo.

As autoridades contabilizam pelo menos quatro mortes indiretas desde o início das protestas: pacientes que não conseguiram chegar a hospitais devido aos cortes de estrada. A Promotoria emitiu ordens de prisão contra líderes como Mario Argollo, da COB, e reporta dezenas de presos. O vice-presidente Edmand Lara, em uma carta aberta, criticou o uso da justiça como ferramenta de pressão e pediu um diálogo “sério e sem condições”. O governo, enquanto isso, reforça a Praça Murillo com militares e rejeita qualquer renúncia.

Efeitos regionais: contágio e instabilidade

A crise boliviana não é um assunto interno. Em uma Sudamérica marcada por instabilidades —com a Argentina aplicando ajustes drásticos, tensões no Peru e um Brasil vigilante—, o colapso de La Paz gera ondas de choque. A CONMEBOL já transferiu partidas da Copa Libertadores e Sul-Americana para o Paraguai devido aos bloqueios e à insegurança. Vizinhos como Argentina e Brasil observam com preocupação o possível fluxo de migrantes ou o impacto no comércio fronteiriço. Os Estados Unidos expressaram apoio ao governo democraticamente eleito e condenaram tentativas de desestabilização, enquanto figuras como Gustavo Petro na Colômbia falaram de “insurreição popular”.

O risco de que o conflito se internacionalize por meio de redes de crime organizado —narcotráfico a partir de Chapare— ou que inspire movimentos semelhantes em países com economias vulneráveis é real. A região, ainda se recuperando da pandemia e choques externos, não precisa de outro foco de instabilidade.

Para onde vai a Bolívia?

O futuro imediato é incerto. O governo de Paz insiste que não renunciará, promete diálogo com aqueles que depuserem a violência e busca respaldo internacional com visitas da OEA. No entanto, sem uma maioria parlamentar clara e com um gabinete percebido como elitista, sua margem de manobra é estreita. Se não conseguir aliviar rapidamente a escassez e oferecer concessões salariais crédulas, a pressão das ruas pode se tornar insustentável.

Do lado opositor, Morales e seus aliados apostam em desgastar o Executivo até forçar uma saída antecipada ou uma convocação eleitoral. Mas uma eventual queda de Paz poderia abrir um vácuo de poder perigoso em um país com história de golpes e interrupções democráticas.

A Bolívia se encontra em uma encruzilhada histórica. Atrás das pedras e da fumaça, não há apenas demandas salariais ou de combustível: há uma questionamento profundo ao modelo econômico herdado, à representação política dos setores populares e à capacidade do Estado para gerir uma crise estrutural. A resolução deste conflito definirá não apenas o destino do presidente Paz, mas o rumo de uma nação que, mais uma vez, joga sua estabilidade nas ruas de La Paz. O tempo é curto: a calma atual no centro da cidade é apenas uma trégua frágil antes da próxima jornada de mobilizações.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política. Professor do Instituto Universitário da Gendarmaria Nacional e da Faculdade de Defesa Nacional da Argentina. Diretor do Instituto Argentino de Estudos Geoestratégicos. Editor da Alternative Press Agency. Especialista em temas do Magreb

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