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"Brasil: Flávio Bolsonaro supera Lula e transforma o segundo turno em um plebiscito sobre o poder (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A escolha presidencial brasileira entrou em uma fase decisiva. Luiz Inácio Lula da Silva, o líder que retornou ao poder em 2023 com a promessa de reconstruir as políticas sociais e restabelecer a normalidade institucional, enfrenta agora uma ameaça que até poucas semanas parecia menos provável: perder a presidência para Flávio Bolsonaro, um senador de 45 anos, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e representante de uma direita que demonstrou uma capacidade de mobilização superior à que muitos sondagens antecipavam.

No dia 4 de outubro, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, em comparação com 45,16% de Lula. A diferença foi de 2.227.651 votos, suficiente para inverter o clima político da campanha, mas não para resolver a eleição. O Tribunal Superior Eleitoral confirmou que ambos disputariam o segundo turno no dia 25 de outubro, depois que nenhum alcançasse a maioria absoluta requerida.

A magnitude política do resultado supera a diferença numérica. O governo tinha chegado ao dia da eleição com expectativas mais favoráveis, enquanto Flávio, que não figurava no início do ano entre os principais protagonistas da corrida presidencial, conseguiu transformar o sobrenome Bolsonaro em uma candidatura competitiva e, finalmente, na opção mais votada.

O segundo turno será, portanto, algo mais do que uma eleição entre dois projetos econômicos. Testará a capacidade de Lula de renovar sua legitimidade, o enraizamento social do bolsonarismo e a disposição de uma parte considerável dos brasileiros em apoiar uma alternativa conservadora apesar das controvérsias judiciais que cercam o entorno do antigo presidente.

Uma primeira volta que desmentiu as previsões

Os resultados oficiais mostram uma competição mais equilibrada do que sugeriam alguns estudos publicados antes da votação. A surpresa não consistiu apenas em que Flávio terminasse à frente, mas em que o presidente não conseguisse transformar sua condição de favorito em uma vantagem eleitoral efetiva.

O Tribunal Superior Eleitoral registrou 56.104.268 votos para Bolsonaro e 53.876.617 para Lula. Houve, além disso, 2.300.781 votos em branco, equivalentes a 1,84%, e 3.674.149 votos nulos, 2,93%. No total, quase seis milhões de votos não se traduziram em apoio válido a nenhuma candidatura.

A derrota relativa do governo não pode ser explicada por um único fator. A economia brasileira apresenta indicadores que o Governo considera favoráveis, especialmente em emprego e atividade, mas esses resultados agregados não se traduziram necessariamente em uma percepção generalizada de bem-estar. Para muitas famílias, a experiência cotidiana é determinada pelo preço dos alimentos, do combustível, da habitação, do endividamento e da qualidade dos serviços públicos.

O jornalista da CNN Brasil Caio Junqueira destacou precisamente a distância entre o discurso presidencial e as preocupações expressas pelos cidadãos. Segundo sua análise, Lula concentrou parte de suas mensagens em questões como a soberania nacional sobre os minerais estratégicos, enquanto muitos eleitores estavam mais atentos ao custo de vida e às controvérsias institucionais que afetavam a confiança pública.

O sociólogo Alberto Carlos Almeida, por sua vez, atribuiu o resultado à avaliação negativa da gestão presidencial e sustentou que o Governo não tinha agido com suficiente antecedência para melhorá-la. Seu diagnóstico aponta para uma dificuldade característica dos governos: os bons indicadores macroeconômicos perdem eficácia eleitoral quando os cidadãos não percebem uma melhora equivalente em suas rendas e expectativas.

A segurança pública reforçou essa dinâmica. O bolsonarismo converteu o aumento da criminalidade e a sensação de desproteção em elementos centrais de seu discurso, apresentando-se como a força disposta a restaurar a ordem por meio de políticas mais severas. Embora a insegurança brasileira tenha causas estruturais que nenhum Governo pode resolver de forma imediata, a percepção de ameaça constitui um recurso político poderoso, especialmente quando a cidadania considera insuficientes as respostas oficiais.

Além disso, soma-se o desgaste de uma presidência que volta a pedir confiança após ter governado durante boa parte das últimas duas décadas. Lula conserva uma trajetória excepcional e uma base social consolidada, mas sua experiência também o torna o principal responsável, aos olhos dos eleitores descontentes, pelos problemas que persistem.

A candidatura de Flávio soube explorar essa contradição. Sua mensagem de mudança permite reunir eleitores ideologicamente conservadores, cidadãos desiludidos com o Partido dos Trabalhadores e eleitores que não necessariamente compartilham todas as posições do bolsonarismo, mas que desejam punir o Governo.

A abstenção e o voto em branco: um aviso para todo o sistema político

Um dos dados mais preocupantes da primeira volta foi a ausência de 33.469.244 eleitores, 21,08% do censo. Trata-se do nível mais alto de abstenção em uma primeira volta presidencial desde 1998, segundo os dados coletados no material eleitoral e as informações publicadas após as eleições. A esse número devem ser acrescentados os quase seis milhões de votos em branco e nulos.

A abstenção não significa automaticamente rejeição a Lula nem adesão potencial a Bolsonaro. Esconde motivações diversas: desinteresse, dificuldades para ir votar, desconfiança nas instituições, desilusão com os partidos e a convicção de que nenhum dos candidatos pode modificar substancialmente as condições de vida. No Brasil, onde o voto é obrigatório para cidadãos alfabetizados entre 18 e 70 anos, a magnitude da ausência adquire uma relevância política adicional.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, reconheceu após a votação que uma abstenção superior a 20% não era desejável e levantou a necessidade de melhorar os mecanismos para reduzi-la. Lula, por sua vez, pediu a sua equipe que investigasse as razões do afastamento eleitoral, em vez de atribuir a derrota exclusivamente a erros de sua campanha.

Os depoimentos coletados pela Associated Press ilustram o problema. Alguns cidadãos rejeitam a associação entre religião e política promovida por setores conservadores; outros desconfiam da esquerda devido aos escândalos de corrupção. Também existem eleitores que consideram que ambos os candidatos representam opções pouco satisfatórias. A cientista política Carolina Almeida de Paula, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, alertou para o risco de interpretar a polarização como se toda a sociedade estivesse comprometida com um dos dois lados.

O voto em branco e nulo tem uma lógica parcialmente distinta. O primeiro pode expressar a decisão de não apoiar nenhuma candidatura; o segundo pode obedecer a uma protesto deliberado ou a um erro ao emitir o sufrágio. Os dados agregados não permitem determinar quantos eleitores agiram por cada motivo. Atribuí-los em bloco a uma suposta terceira força política seria, portanto, incorreto.

A campanha definitiva tem diante de si uma paradoxa: os candidatos precisam mobilizar aqueles que permaneceram à margem, mas uma parte desses cidadãos pode preferir manter sua distância. Além disso, os quase seis milhões de votos em branco e nulos não constituem um depósito eleitoral disponível para nenhum dos dois aspirantes.

O comportamento dos abstenicionistas será especialmente importante se a participação mudar de forma significativa no dia 25 de outubro. Um aumento da mobilização poderia beneficiar Lula se ele recuperar antigos eleitores do Partido dos Trabalhadores; mas também poderia favorecer Bolsonaro se a direita conseguir ativar eleitores que na primeira volta ficaram em casa.

Lula muda o roteiro e busca recuperar a rua

O presidente reagiu à derrota com uma reorganização de sua campanha. A primeira modificação é política: Geraldo Alckmin, vice-presidente e antigo governador de São Paulo, ganhou protagonismo como interlocutor com o empresariado e os eleitores moderados. Sua presença pretende contrabalançar a imagem de um Governo muito concentrado em sua base tradicional e transmitir uma maior disposição ao diálogo com os setores produtivos.

A segunda modificação é comunicacional. Lula, que expressou reiteradamente sua desconfiança em relação aos telefones móveis, começou a gravar vídeos em formato de selfie para Instagram e TikTok. A iniciativa busca humanizar o candidato, aproximá-lo dos eleitores jovens e reduzir a distância que a campanha governamental manteve em relação às plataformas digitais, onde o bolsonarismo construiu uma comunidade especialmente ativa.

O presidente admite que a experiência acumulada e a comunicação tradicional já não bastam para disputar a atenção de uma sociedade conectada permanentemente às redes.

A reorganização também responde a críticas internas. Segundo informações publicadas pela Reuters, a equipe pretende substituir mensagens excessivamente abstratas sobre soberania e minerais estratégicos por uma comunicação mais direta sobre os preços, as rendas familiares e os riscos que uma vitória conservadora poderia acarretar para os programas sociais.

O PT busca, além disso, reforçar sua presença territorial em regiões onde a diferença foi estreita e entre os cidadãos que se abstiveram. O Nordeste, tradicional bastião eleitoral de Lula, continuará sendo fundamental, mas o partido precisa melhorar seu desempenho nos grandes centros urbanos e no eleitorado jovem. Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, Alckmin pode desempenhar um papel importante para recuperar eleitores moderados.

A estratégia tem uma dificuldade evidente: Lula deve defender sua gestão e, ao mesmo tempo, reconhecer que não respondeu suficientemente a algumas preocupações cidadãs. Se se limitar a denunciar os perigos do bolsonarismo, corre o risco de confirmar a impressão de que o governo não escuta. Se dedicar muito espaço a reconhecer erros, pode enfraquecer a confiança de seus próprios partidários.

O presidente possui, no entanto, ativos que seu adversário ainda não possui: a experiência de governo, uma identidade política consolidada e uma estrutura partidária com capacidade de mobilização. Seu desafio consiste em convertê-los em votos adicionais, não simplesmente reafirmar a fidelidade de quem já o apoiou.

Flávio Bolsonaro consolida a aliança conservadora

O senador enfrenta o segundo turno de uma posição mais favorável. Sua principal vantagem é política: conseguiu transformar o resultado da primeira rodada em uma sequência de adesões que reforça a percepção de que sua candidatura representa a alternativa com maiores possibilidades de vitória.

Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, e Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, apoiaram Bolsonaro depois de concorrer contra ele. O escritor e psiquiatra Augusto Cury, terceiro candidato mais votado, também anunciou seu apoio. Cury obteve 2,89% dos votos válidos, cerca de 3,4 milhões de votos, uma quantidade superior à diferença que separou os dois principais aspirantes.

A adesão de Cury é especialmente interessante porque sua campanha tinha tentado apresentá-lo como uma alternativa à polarização. Seu apoio não implica, no entanto, uma transferência automática de todos os seus eleitores. O próprio escritor esclareceu que seu apoio não constituía um cheque em branco e vinculou sua decisão a compromissos sobre responsabilidade fiscal, proteção das mulheres, transparência e respeito às instituições.

Flávio também angariou o apoio de importantes formações de centro-direita, entre elas Republicanos, Novo, Podemos e a federação integrada por União Brasil e Progressistas. Esses apoios proporcionam estrutura territorial, dirigentes locais e capacidade de mobilização, embora não garantam que todos os eleitores desses partidos sigam as indicações de seus líderes.

Sua campanha articula-se em torno de três ideias: segurança, rejeição ao Partido dos Trabalhadores e mudança política. Bolsonaro tenta apresentar Lula como o representante de um ciclo esgotado e reivindica uma administração mais severa contra a criminalidade. Também busca tranquilizar os eleitores preocupados com as políticas sociais, assegurando que não pretende eliminar programas como o Bolsa Família.

O candidato moderou parte de seu tom para atrair cidadãos que rejeitam os excessos retóricos de seu pai, sem romper com o núcleo ideológico do bolsonarismo. Seu desafio consiste em ampliar sua base sem perder os setores mais militantes que tornaram sua vitória inicial possível.

A relação com Jair Bolsonaro continua sendo decisiva. O ex-presidente conserva uma enorme capacidade de mobilização entre seus seguidores, mas sua condenação pela trama golpista e seu enfrentamento com as instituições judiciais também representam um risco. Flávio precisa herdar o capital político de seu pai sem que a eleição se torne um referendo sobre seu legado mais controvertido.

As pesquisas favorecem Bolsonaro, mas a eleição não está decidida

As primeiras sondagens posteriores à primeira volta confirmam que o senador aproveitou o impulso de sua vitória. A distância entre ambos os candidatos é suficientemente consistente para considerar Flávio favorito, embora ainda não permita descartar uma recuperação do presidente.

A fotografia eleitoral de 9 de outubro

Intenção de voto para o segundo turno: 52,8% para Flávio e 47,2% para Lula. Fontes: UOL, AtlasIntel/Bloomberg e Folha de S.Paulo, Datafolha.

As duas consultorias colocam o senador à frente. Embora, os resultados devam ser interpretados com cautela. Uma pesquisa é uma fotografia das preferências em um momento determinado, não uma previsão infalível do resultado final.

O dado mais importante não é apenas a vantagem de Bolsonaro, mas sua capacidade de manter

A campanha de Lula tenta modificar o clima político. Se a diferença se mantiver nas próximas medições e se reproduzir no comportamento dos eleitores, o presidente enfrentará uma tarefa especialmente difícil.

Uma eleição que transcende as fronteiras brasileiras

O desfecho terá repercussões além do Brasil. Lula defendeu uma política exterior multilateral, com protagonismo nos BRICS, cooperação com a China e uma relação com os Estados Unidos que preserve a autonomia brasileira. Flávio, por outro lado, expressou uma maior afinidade com Donald Trump e defendeu uma aproximação política a Washington.

A diferença não implica que um eventual governo conservador possa prescindir da China. O gigante asiático é o principal parceiro comercial do Brasil e mantém investimentos relevantes em energia, indústria e infraestrutura. Qualquer presidente deverá conciliar suas afinidades ideológicas com esses interesses econômicos. A Reuters apontou que o acesso aos minerais críticos brasileiros, as relações comerciais e a competição entre Washington e Pequim estão entre as questões estratégicas que poderiam mudar de orientação após a eleição.

A política econômica também será determinante. Os mercados reagiram favoravelmente às expectativas de maior disciplina fiscal associadas a Bolsonaro, mas as promessas de redução de impostos, investimento em infraestrutura e manutenção dos programas sociais terão que enfrentar as restrições orçamentárias e a necessidade de negociar com o Congresso.

O economista Paulo Dutra Constantin, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, advertiu que ambos os candidatos mantêm diferenças ideológicas importantes, mas compartilham uma dependência significativa da investimento pública para impulsionar o desenvolvimento. Sua análise levanta uma questão que a campanha deixou em segundo plano: quem ganhar terá que resolver as tensões entre gasto social, investimento e equilíbrio fiscal.

A eleição também pode afetar o funcionamento das instituições brasileiras. Uma vitória de Flávio fortaleceria as forças conservadoras que buscam revisar o papel do Supremo Tribunal Federal e a situação judicial de Jair Bolsonaro. Uma reeleição de Lula, por sua vez, não eliminaria a influência de uma direita que demonstrou contar com um apoio social e parlamentar considerável.

A previsão para 25 de outubro

Com duas semanas até a votação, Flávio Bolsonaro parte com vantagem. Ele ganhou a primeira volta, reuniu apoios importantes da centro-direita e aparece à frente nas duas principais sondagens publicadas após 4 de outubro. Sua mensagem de mudança conecta com uma parte do eleitorado que não considera suficientes os resultados econômicos do governo e reclama respostas mais contundentes frente à criminalidade.

No entanto, Lula ainda conserva possibilidades reais de recuperação. A eleição ainda depende da participação, da capacidade de atrair os eleitores moderados e da transferência efetiva dos votos obtidos pelos candidatos eliminados. O presidente precisa demonstrar que pode ouvir as preocupações econômicas cotidianas, recuperar a confiança dos jovens eleitores e convencer aqueles que se afastaram das urnas de que uma nova presidência dele pode oferecer resultados diferentes.

Sua principal dificuldade é o tempo. A reorganização da campanha e a incorporação de Alckmin e novos responsáveis pela comunicação podem melhorar sua mensagem, mas não garantem que a avaliação de sua gestão mude. Bolsonaro, por sua vez, deve evitar que a consolidação de sua vantagem resulte em excesso de confiança e demonstrar que pode atrair eleitores que não compartilham todas as posições do bolsonarismo.

A previsão, com as informações disponíveis em 10 de outubro, é uma vitória de Flávio Bolsonaro em 25 de outubro, provavelmente por uma margem moderada. As sondagens situam sua vantagem entre quatro e seis pontos percentuais em votos válidos, uma distância que o torna favorito, mas que ainda pode ser reduzida. Não considero prudente projetar uma vitória avassaladora nem dar como fechado o resultado.

Se as tendências atuais se mantiverem, Bolsonaro pode obter entre 51% e 53% dos votos válidos, em comparação com Lula, que está entre 47% e 49%. Trata-se de uma estimativa analítica, não de um resultado assegurado: uma mobilização superior à prevista dos abstencionistas ou uma recuperação do voto moderado por parte do presidente poderiam estreitar consideravelmente a diferença.

A paradoxodesta eleição é que Lula não se enfrenta apenas a um rival mais jovem, mas sim a uma demanda de mudança que conseguiu se impor até mesmo onde o governo reivindica resultados econômicos e sociais positivos. Flávio Bolsonaro transformou essa insatisfação em uma oportunidade histórica para sua família política. No dia 25 de outubro saberemos se essa oportunidade é suficiente para devolver o poder ao bolsonarismo ou se Lula consegue, mais uma vez, converter uma campanha adversa em uma vitória.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires.

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