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"Brasil chega à sua eleição mais incerta: Lula transforma a reeleição em um plebiscito sobre o futuro da democracia (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A política brasileira volta a girar em torno de um velho antagonismo. Três anos após retornar ao Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva busca um quarto mandato presidencial em um país que continua dividido em dois grandes blocos políticos e culturais. Do outro lado aparece Flávio Bolsonaro, senador e filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, convertido em herdeiro  político do movimento conservador após a condenação e inabilitação de seu pai. Embora a mudança geracional modifique os protagonistas, o eixo da confrontação permanece praticamente inalterado: dois projetos de país que oferecem respostas diametralmente opostas sobre o papel do Estado, a economia, as instituições e a inserção internacional do Brasil.

A campanha adquiriu desde seus primeiros dias uma intensidade pouco habitual até mesmo para os padrões brasileiros. Não apenas porque as diferenças ideológicas entre ambos os espaços são profundas, mas porque as pesquisas mostram que qualquer um dos dois pode chegar ao Palácio do Planalto. A margem entre oficialismo e oposição foi progressivamente reduzida durante os últimos meses até configurar um cenário de empate técnico que mantém aberta a disputa e transforma cada movimento de campanha em um fator potencialmente decisivo.

As medições coincidem em que Lula conserva uma vantagem limitada no primeiro turno, mas também indicam o crescimento constante de Flávio Bolsonaro, cuja candidatura conseguiu se expandir além do núcleo tradicional do bolsonarismo. Nenhum dos demais aspirantes supera porcentagens de intenção de voto suficientes para romper a lógica bipolar que domina a política brasileira há quase uma década. A chamada “terceira via”, alentada durante meses por setores empresariais e moderados, parece ter sido reduzida a um papel testemunhal.

O avanço do senador do Partido Liberal não responde unicamente à fidelidade do eleitorado conservador. Também reflete o deterioro gradual da avaliação do Governo em assuntos que historicamente condicionam o comportamento eleitoral brasileiro: a inflação, o encarecimento dos alimentos, a segurança pública e a percepção de que o crescimento econômico começa a perder dinamismo. Embora a administração de Lula continue exibindo indicadores positivos em matéria de emprego e redução da pobreza, uma parte importante da cidadania considera que as melhorias não são suficientes para compensar o aumento do custo de vida e a persistência de altos índices de juros.

Consciente dessa realidade, o oficialismo decidiu deslocar o eixo da discussão eleitoral. Em vez de se limitar a defender os resultados econômicos da gestão, o Partido dos Trabalhadores procura apresentar a eleição como uma decisão histórica acerca do modelo democrático brasileiro. A campanha foi reorganizada em torno de dirigentes históricos do partido, especialistas em comunicação política e uma ampla estratégia digital destinada a disputar o terreno onde a direita demonstrou uma notável capacidade de mobilização.

A oposição, entretanto, tenta construir uma imagem distinta da que acompanhou Jair Bolsonaro durante sua presidência. Flávio Bolsonaro moderou o tom de suas intervenções públicas, evita as confrontações pessoais mais estridentes e concentra suas críticas em questões econômicas, administrativas e de segurança. Seu objetivo consiste em ampliar o respaldo entre eleitores independentes sem perder o apoio do eleitorado conservador que continua se identificando com o legado político de seu pai. Em matéria econômica, propõe uma agenda de redução de impostos, disciplina fiscal e menor intervenção estatal, enquanto insiste que o Brasil precisa recuperar o dinamismo do investimento privado e reforçar o combate à criminalidade.

Nesse contexto de competição extremamente equilibrada, o ato de proclamação de Lula, realizado em 2 de agosto em São Paulo, adquiriu uma importância que transcendeu o ritual partidário. O presidente não utilizou a cerimônia para apresentar um catálogo de novas promessas de governo. Sua intervenção respondeu a uma lógica distinta: construir o marco político e intelectual a partir do qual pretende que os brasileiros interpretem toda a campanha.

O discurso esteve cuidadosamente organizado em torno de uma ideia dominante. Lula propôs entender a eleição de outubro não como uma competição ordinária entre candidatos, mas como uma decisão sobre a natureza mesma do Estado brasileiro. Nessa perspectiva, o enfrentamento não opõe simplesmente a esquerda e a direita, mas a duas concepções diferentes de democracia, de soberania nacional e do lugar que o Brasil deve ocupar no cenário internacional.

O primeiro grande argumento foi a reivindicação da democracia como patrimônio coletivo. Lula lembrou da crise institucional que se seguiu às eleições de 2022 e sustentou que o país conseguiu preservar a ordem constitucional graças à força de suas instituições. Essa evocação do passado recente não teve unicamente um propósito histórico. Constituiu, sobretudo, um aviso político dirigido a um eleitorado ao qual o presidente convidou a associar a continuidade de seu Governo com a estabilidade institucional alcançada durante os últimos anos.

O segundo eixo do discurso foi dedicado ao balanço da gestão. Lula defendeu a recuperação do emprego, a expansão das  políticas sociais e o retorno do Brasil como ator relevante da diplomacia internacional. A exposição evitou um tom triunfalista e se concentrou em apresentar esses avanços como a prova de que o país havia retomado uma senda de desenvolvimento interrompida durante o período anterior. Mais do que reivindicar estatísticas, o presidente buscou reforçar a ideia de continuidade: a promessa implícita foi que um novo mandato permitiria consolidar um processo já iniciado.

A dimensão social ocupou igualmente um lugar central. Lula insistiu que o crescimento econômico só adquire legitimidade quando efetivamente melhora a vida cotidiana da população. Sob essa premissa, reafirmou seu compromisso com a ampliação dos programas sociais, o investimento em educação pública, o fortalecimento do sistema de saúde e uma estrutura tributária mais progressiva. Não se tratou simplesmente de uma enumeração programática, mas da reafirmação de uma identidade política construída desde suas primeiras campanhas presidenciais.

Talvez o aspecto mais inovador da intervenção tenha sido o protagonismo concedido ao conceito de soberania nacional. Lula vinculou a defesa do território, dos recursos estratégicos e da política externa independente com a necessidade de fortalecer as capacidades de defesa do Estado brasileiro.

Em um contexto internacional marcado por crescentes rivalidades geopolíticas e disputas por minerais críticos e recursos naturais, o presidente apresentou a autonomia estratégica como uma condição indispensável para preservar a capacidade de decisão do país. A proposta de incrementar os investimentos em defesa deve ser entendida precisamente dentro dessa lógica: não como uma expressão de militarização, mas como um instrumento para garantir a independência nacional.

Essa reivindicação da soberania foi acompanhada por uma crítica às manifestações de apoio provenientes do exterior em relação ao seu principal adversário. Sem recorrer permanentemente a nomes próprios, Lula questionou qualquer tentativa de influenciar sobre a decisão do eleitorado brasileiro e reafirmou a tradição diplomática de autonomia que historicamente tem caracterizado a política externa do país. Ao mesmo tempo, defendeu a continuidade de uma estratégia internacional baseada no fortalecimento do Mercosul, na profundização dos vínculos com a China e no papel do Brasil como uma das principais vozes do chamado Sul Global.

Do ponto de vista  político, o discurso revela uma conclusão significativa: o oficialismo considera que a eleição não se definirá exclusivamente em torno de variáveis econômicas. A campanha de Lula aposta em mobilizar uma coalizão eleitoral ampla, integrada por eleitores de esquerda, setores moderados e cidadãos preocupados com a estabilidade institucional. O presidente tenta converter sua experiência política e sua trajetória pessoal em um ativo eleitoral frente a um adversário que representa renovação geracional, mas também continuidade com o legado do bolsonarismo.

A menos de três meses da votação, o resultado continua incerto. A elevada polarização, o alto índice de rejeição que suscitam ambos os candidatos e a existência de um importante segmento de eleitores ainda dispostos a rever sua decisão permitem antecipar uma campanha intensa até o último dia. O Brasil volta a enfrentar uma eleição que excede a troca de um governo. O que está em discussão é o modelo de desenvolvimento, o equilíbrio entre Estado e mercado, a qualidade de suas instituições democráticas e o papel que a maior economia latino-americana aspira a desempenhar em um sistema internacional cada vez mais competitivo e fragmentado.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires.

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