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"BRICS 2026: o Sul Global busca converter seu peso econômico em poder político (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A XVIII Cúpula do BRICS foi realizada nos dias 12 e 13 de setembro no Bharat Mandapam, o grande centro internacional de convenções de Nova Délhi, sob a presidência da Índia e com um lema que resume a ambição da nova etapa: “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”. O encontro aconteceu em um momento de extraordinária tensão internacional, marcado pela guerra entre os Estados Unidos e Israel e Irã, a guerra da Ucrânia, as disputas comerciais e a crescente fragmentação do sistema multilateral.

Os BRICS nasceram originalmente como uma associação do Brasil, Rússia, Índia e China. A denominação vem do acrônimo criado em 2001 pelo economista do Goldman Sachs Jim O’Neill para identificar as grandes economias emergentes com maior potencial de crescimento. A primeira reunião política teve lugar em 2006 e a primeira cúpula presidencial foi realizada em Ekaterimburgo em 2009. A África do Sul se juntou posteriormente, transformando BRIC em BRICS. A grande transformação ocorreu com a ampliação acordada em Joanesburgo em 2023 e concretizada durante 2024 e 2025.

Atualmente, as fontes oficiais consideram membros o Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. A situação de Riad merece, no entanto, uma precisão: embora apareça incluída nas listas oficiais do bloco, o governo saudita não confirmou publicamente nos mesmos termos que os demais membros sua incorporação formal. A própria documentação do BRICS mantém a Arábia Saudita dentro dos onze.

A eles se somam dez países parceiros: Bielorrússia, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã. Esta categoria foi criada na cúpula de Kazan em 2024 e permite ampliar consideravelmente o raio de influência da organização sem converter automaticamente todos os seus participantes em membros plenos.

A cúpula de Nova Délhi incorporou além disso um importante componente de abertura internacional. Participaram como convidados de divulgação representantes do Bahrein, em representação do Conselho de Cooperação do Golfo; Burundi, em representação da União Africana; Filipinas, pela ASEAN; e Uruguai, pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos. O presidente cazaque Kassym-Jomart Tokayev participou, por sua vez, como dirigente de um país parceiro e representante da União Econômica Euroasiática. Entre as organizações internacionais estavam as Nações Unidas, representadas por António Guterres; a Organização Mundial da Saúde, por Tedros Adhanom Ghebreyesus; a Organização Mundial do Comércio, por Ngozi Okonjo-Iweala; o Novo Banco de Desenvolvimento, presidido por Dilma Rousseff; e o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas.

O significado econômico dessa arquitetura é difícil de exagerar. Os BRICS reúnem aproximadamente 49% da população mundial e cerca de 40% do PIB global. O número é particularmente relevante quando o produto é medido por paridade do poder de compra, indicador que permite comparar o volume efetivo de bens e serviços produzidos levando em conta as diferenças de preços internos. O FMI calcula que as economias emergentes e em desenvolvimento geram cerca de 61% do PIB mundial medido por PPA.

A interseção entre PIB nominal e PPA revela a verdadeira dimensão do fenômeno. A China ocupa a primeira posição mundial por PPA, com cerca de 44,3 trilhões de dólares internacionais; os Estados Unidos são segundos, com aproximadamente 32,4 trilhões; a Índia aparece em terceiro, com cerca de 18,9 trilhões; a Rússia em quarto, com uns 7,5 trilhões; a Indonésia em sétimo, com aproximadamente 5,45 trilhões, e o Brasil em oitavo, com cerca de 5,23 trilhões. Ou seja, cinco integrantes dos BRICS —China, Índia, Rússia, Indonésia e Brasil— concentram por si só uma massa econômica equivalente a mais de 81 trilhões de dólares em termos de PPA.

A comparação com o G7 é especialmente reveladora. Enquanto os BRICS representam cerca de 40% do PIB mundial em PPA, o G7 se situa em torno de 30%. Em termos de crescimento, além disso, os BRICS adquiriram um peso crescente na expansão da economia mundial. Vladímir Putin afirmou no Fórum Empresarial de Nova Délhi que os BRICS geraram mais de 40% do PIB mundial nos últimos cinco anos e que contribuíram com cerca da metade do crescimento global durante esse período, em comparação com 18% do G7. Esses números são utilizados politicamente por Moscou e devem ser interpretados com cautela segundo a metodologia estatística empregada, mas ilustram o argumento central do bloco: o centro de gravidade econômico mundial está se deslocando em direção à Ásia e outras regiões emergentes.

A comparação com a União Europeia oferece outra perspectiva. A UE possui uma economia integrada, uma moeda comum na maior parte de seus membros, instituições supranacionais e um mercado único, características que os BRICS não possuem. Tampouco constituem uma aliança militar comparável à OTAN. Sua estrutura é deliberadamente mais flexível: as decisões são tomadas por consenso e os Estados mantêm plena autonomia em política externa, defesa e economia. Essa fraqueza institucional é, paradoxalmente, uma de suas fortalezas: permite sentar na mesma mesa democracias como Índia e Brasil, monarquias como Arábia Saudita e Emirados, regimes autoritários e potências em conflito entre si.

O peso energético constitui outra dimensão essencial. Segundo as estimativas reunidas no material utilizado para esta análise, os membros do BRICS concentram aproximadamente 41% das reservas provadas mundiais de petróleo se incluirmos a Arábia Saudita, e mais da metade das reservas provadas de gás natural. A Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e Rússia concentram enormes reservas petrolíferas, enquanto a Rússia e o Irã ocupam posições centrais no gás. A China e a Índia adicionam a essa equação a condição de grandes consumidores, enquanto o Brasil oferece uma crescente dimensão energética atlântica através de seus campos do pré-sal.

Não se trata, naturalmente, de que os BRICS possuam essas reservas como uma entidade supranacional. Cada Estado mantém o controle soberano sobre seus recursos e seus interesses energéticos nem sempre coincidem. Mas a concentração geográfica tem consequências geopolíticas: dentro de um mesmo espaço de cooperação coexistem alguns dos principais exportadores mundiais de hidrocarbonetos com a China e a Índia, dois dos maiores consumidores. Essa combinação torna o grupo um ator particularmente relevante para a segurança energética mundial. O Energy Institute confirma, além disso, a extraordinária importância da Rússia, Irã e China na produção global de gás.

A dimensão estratégica se completa com o fator nuclear. Três membros do BRICS —Rússia, China e Índia— são potências nucleares reconhecidas de fato e possuem arsenais nucleares. A Rússia e a China são, além disso, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Índia dispõe de um arsenal nuclear independente e reivindica há anos uma maior representação no Conselho. O Irã não possui armas nucleares declaradas e não pertence ao grupo de Estados armados nuclearmente, embora seu programa nuclear constitua um dos principais fatores de tensão internacional. Essa composição confere ao BRICS uma densidade estratégica que nenhuma organização econômica convencional pode ignorar.

A Índia procurou que a cúpula não se transformasse em uma plataforma abertamente antiocidental. O professor de Yale Sushant Singh alertava antes da reunião que Nova Délhi não se sentiria confortável com uma postura explicitamente hostil ao Ocidente devido às suas relações de defesa com os Estados Unidos e seus vínculos comerciais com a Europa e a América do Norte. Mihaela Papa, diretora do BRICS Lab do MIT, observava, por outro lado, que a posição particular da Índia poderia torná-la um mediador entre potências rivais.

Essa tensão ficou refletida na declaração final. Os onze membros aprovaram por unanimidade a Declaração de Nova Délhi, um extenso documento de 140 pontos que procura conciliar posições nacionais muito diferentes. O texto reivindica uma ordem internacional “mais representativa e justa”, a reforma do multilateralismo e uma maior presença da Ásia, África e América Latina nas instituições globais. A China e a Rússia expressaram novamente seu apoio às aspirações do Brasil e da Índia de desempenhar um papel mais importante nas Nações Unidas e em seu Conselho de Segurança.

O documento também condena o terrorismo em todas as suas formas, apoia a solução pacífica das controvérsias por meio do diálogo e da diplomacia e rejeita o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que, segundo o bloco, distorcem o comércio e contradizem as normas da OMC. Em matéria financeira, reafirma o objetivo de desenvolver sistemas de pagamentos transfronteiriços mais rápidos, baratos e seguros e ampliar as liquidações em moedas nacionais. Não se trata ainda de uma moeda comum nem de uma substituição imediata do dólar, mas de uma arquitetura destinada a reduzir a dependência dos mecanismos financeiros dominados pelos Estados Unidos.

A questão mais delicada foi o Oriente Médio. A declaração expressa “profunda preocupação” com a escalada e reclama “máxima contenção”, além da proteção de civis e infraestruturas, incluindo as instalações nucleares. O consenso foi significativo porque o Irã faz parte do BRICS enquanto os Emirados Árabes Unidos mantêm posições diferentes e os Estados Unidos são aliados de vários países do Golfo. A Reuters destacou que o acordo entre Teerã e Abu Dabi para apoiar o apelo conjunto representou um avanço diplomático dentro de uma organização atravessada por profundas divergências.

O documento dedicou também uma atenção substancial à Palestina, Gaza e Líbano, enquanto evitou mencionar expressamente a guerra da Ucrânia, uma omissão significativa se comparada à declaração da cúpula do Rio de Janeiro de 2025. Essa decisão parece responder à necessidade de preservar o consenso interno e evitar que o conflito europeu se torne um fator de ruptura entre a Rússia, China, Índia, Brasil e os demais membros.

Na economia, tecnologia e energia, Nova Délhi quis projetar um BRICS menos retórico e mais operacional. A declaração apoia a cooperação em inteligência artificial, economia digital, cadeias de suprimento, inovação, agricultura, segurança alimentar e transição energética. O texto reconhece simultaneamente a necessidade de reduzir as emissões e o papel ainda decisivo dos combustíveis fósseis, defendendo uma transição energética “justa, ordenada, equitativa e inclusiva” e a neutralidade tecnológica.

Xi Jinping propôs avançar em direção a um “Gradual BRICS” através de uma maior integração industrial e tecnológica, estabilidade das cadeias de suprimento, um mercado mais conectado e uma zona aberta de cooperação em inteligência artificial. Putin, por sua vez, apresentou o grupo como um dos motores do deslocamento em direção a uma ordem multipolar e destacou a necessidade de desenvolver infraestrutura própria de pagamentos, investimento e comércio.

A paradoxa dos BRICS aparece precisamente ali onde reside sua maior força. Nenhum outro fórum reúne simultaneamente semelhante população, volume econômico, reservas energéticas, capacidade industrial e potências nucleares. Mas também não é fácil encontrar outro agrupamento onde coexistam tantos interesses contrapostos: China e Índia competem pela influência asiática; Irã e alguns Estados do Golfo mantêm profundas diferenças; Rússia enfrenta o Ocidente; Índia mantém estreitos vínculos estratégicos com os Estados Unidos; Brasil procura manter uma política externa autônoma e a Arábia Saudita equilibra suas relações entre Washington, Pequim e Moscou.

Por isso, a XVIII Cúpula de Nova Délhi não transformou os BRICS em uma nova superpotência institucional. Fez algo mais importante: consolidou a existência de um espaço internacional que já não pode ser considerado periférico. Sua verdadeira importância não reside apenas nas declarações contra o unilateralismo nem na aspiração de reduzir o peso do dólar. Está na acumulação de população, produção, energia, tecnologia, território e capacidade militar que começa a modificar a distribuição mundial do poder.

A pergunta que fica em aberto é se essa massa crítica poderá se transformar em uma estratégia comum. Por enquanto, a resposta continua incerta. Mas a reunião de Nova Délhi demonstra que o mundo que emerge já não pode ser explicado exclusivamente a partir de Washington, Bruxelas ou Tóquio. Os BRICS pretendem que o século XXI tenha mais de um centro de gravidade. E seus números indicam que essa pretensão deixou de ser uma hipótese para se tornar uma realidade geopolítica.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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