O Uruguai ocupa um lugar particular no mapa geopolítico sul-americano. É um país pequeno, com apenas cerca de 3,4 milhões de habitantes, mas possui instituições democráticas sólidas, uma longa tradição de estabilidade política e uma localização estratégica entre Argentina e Brasil, sobre um corredor fluvial fundamental para o comércio de vários países da região.
Precisamente por essas características, o crescente vínculo com a China adquire uma importância que, segundo Evan Ellis, transcende amplamente o volume de intercâmbio comercial.
De sócio comercial a sócio estratégico
A relação entre o Uruguai e a República Popular da China se aprofundou progressivamente nas últimas décadas. Ambos os países estabeleceram relações diplomáticas em 1988; em 2016 avançaram para uma associação estratégica; em 2018 o Uruguai se incorporou à Iniciativa do Cinturão e Rota; e em 2023 a relação foi elevada a uma associação estratégica integral.
Durante a visita do presidente Yamandú Orsi a Pequim, em fevereiro de 2026, ambos os governos assinaram numerosos acordos destinados a ampliar a cooperação em áreas como comércio, carne, farinha de peixe, ciência e meios de comunicação. Ellis ressalta, no entanto, que vários desses acordos não foram públicos e que alguns estão vinculados a setores considerados sensíveis.
O resultado é uma relação que já não pode ser analisada exclusivamente sob a perspectiva comercial.
Uma dependência comercial crescente
A China se tornou o principal destino de uma parte significativa das exportações uruguaias. 26% das exportações do país têm como destino o mercado chinês, enquanto o Uruguai importa da China uma ampla variedade de bens manufaturados e tecnológicos.
O padrão comercial também é significativo: o Uruguai exporta fundamentalmente produtos primários e agroindustriais — entre eles soja, celulose e carne — enquanto importa manufaturas, tecnologia e serviços.
Em termos de volume, o comércio bilateral aparece relativamente equilibrado: cerca de US$ 3,500 milhões em exportações uruguaias para a China em comparação com US$ 3,300 milhões em importações. No entanto, Ellis adverte que o equilíbrio nominal da balança comercial não elimina uma relação de dependência estrutural derivada da concentração das exportações uruguaias no mercado chinês.
A eventual profundização das negociações entre a China e o Mercosul poderia aumentar ainda mais essa dependência.
A influência não se limita ao comércio
Um dos aspectos centrais da análise de Ellis é que Pequim utiliza diferentes instrumentos simultaneamente: comércio, investimento, diplomacia, vínculos políticos, cooperação educacional, meios de comunicação e relações militares.
No Uruguai existe, por exemplo, um grupo parlamentar de amizade com a China integrado por legisladores de peso nas comissões de Relações Internacionais do Senado e da Câmara dos Deputados. Também foram desenvolvidos intercâmbios entre dirigentes políticos uruguaios e organismos do Partido Comunista Chinês.
A dimensão midiática também faz parte dessa estratégia. A Xinhua e meios audiovisuais estatais uruguaios estabeleceram acordos de intercâmbio de conteúdos, enquanto jornalistas uruguaios participaram de atividades e viagens ligadas à China.
O objetivo, segundo a análise, não deve ser interpretado necessariamente como uma evidência de controle político direto, mas sim como a construção progressiva de redes de influência e relações que podem adquirir valor estratégico.
Infraestrutura, tecnologia e dados
A presença chinesa também se estende a setores estratégicos da economia uruguaia.
Em telecomunicações, empresas chinesas como Huawei e ZTE têm uma participação relevante. A ZTE participou da implementação da rede 5G da Antel, enquanto a Huawei obteve contratos importantes no setor de telecomunicações.
Ellis afirma que essa situação gera preocupações relacionadas à segurança dos dados, particularmente porque a legislação chinesa estabelece obrigações para as empresas nacionais em matéria de cooperação com as autoridades de segurança e inteligência do país.
A questão adquire uma dimensão geopolítica porque as telecomunicações não constituem apenas uma atividade comercial: as redes digitais fazem parte da infraestrutura crítica de qualquer Estado moderno.
Portos, transporte e presença econômica
A influência chinesa também aparece no setor logístico e portuário. Empresas do país apresentaram projetos para desenvolver infraestrutura destinada ao processamento e armazenamento de produtos pesqueiros, enquanto companhias chinesas participam de trabalhos relacionados ao dragagem do porto de Montevidéu.
No transporte, a presença é ainda mais visível. Veículos elétricos e ônibus de empresas chinesas têm uma participação crescente no Uruguai, enquanto companhias como a BYD desenvolvem operações ligadas à mobilidade elétrica.
Para Ellis, esses setores devem ser observados sob uma perspectiva estratégica, pois a infraestrutura logística e tecnológica pode adquirir importância adicional em situações de crise regional ou de competição entre grandes potências.
A dimensão militar
Talvez um dos aspectos menos conhecidos da relação bilateral seja o militar.
A China forneceu ao Uruguai veículos, equipamentos e outros materiais para suas Forças Armadas, além de capacitação e programas de formação para oficiais uruguaios. Em 2018, Pequim realizou uma doação militar avaliada em aproximadamente US$ 5 milhões e em 2024 foi acordada uma nova entrega de equipamentos.
Em janeiro de 2026, além disso, o navio hospital chinês Silk Road Arc fez uma escala de quatro dias em Montevidéu. Foi a primeira visita de um navio militar chinense ao Uruguai e foi acompanhada por diversos contatos entre as forças armadas de ambos os países.
Ellis sustenta que esses vínculos não significam necessariamente que a China esteja construindo uma presença militar permanente no Uruguai. Mas permitem gerar relações institucionais, conhecimento e vínculos pessoais que poderiam adquirir valor estratégico no futuro.
O fator político: quando o comércio se torna influência
Um dos exemplos citados por Ellis ocorreu em março de 2026, quando o governador de Durazno, Felipe Algorta, cancelou uma viagem prevista a Taiwan depois de manter um encontro com o então embaixador chinês Huang Yazhong.
O episódio é apresentado como uma mostra da capacidade de Pequim para utilizar seu peso diplomático e econômico para influir sobre decisões políticas uruguaias relacionadas a Taiwan e à política de “Uma só China”.
Para o pesquisador do CSIS, esse tipo de episódios é particularmente relevante porque demonstra que a influência chinesa não depende exclusivamente da existência de uma relação política formal.
Uruguai como caso de estudo para a América Latina
O caso uruguaio apresenta, segundo Ellis, uma questão de fundo para toda a América Latina.
Se a China pode ampliar consideravelmente sua influência em um país com instituições democráticas consolidadas, uma sociedade aberta e uma tradição de independência política, a região deve se perguntar o que pode ocorrer em países com instituições mais fracas ou com maiores níveis de dependência econômica.
O problema não reside, portanto, em comerciar com a China nem em manter relações diplomáticas com Pequim. A questão central é como administrar essa relação sem permitir que a dependência econômica termine gerando vulnerabilidades políticas, tecnológicas ou estratégicas.
Washington também enfrenta um desafio
Os Estados Unidos observam com especial atenção a evolução dessa relação. O Uruguai possui uma posição geográfica estratégica e se encontra no coração do sistema comercial do Cone Sul.
No entanto, Ellis adverte que Washington enfrenta limitações para oferecer alternativas à influência chinesa, mesmo devido às características econômicas do Uruguai e às restrições existentes para determinados mecanismos de assistência norte-americana.
Por isso, o desafio norte-americano não deveria se resumir a pedir ao Uruguai que limite seus vínculos com a China. Segundo a análise, Washington precisa oferecer alternativas econômicas, tecnológicas, educacionais e de segurança suficientemente atraentes para que os países latino-americanos possam diversificar suas relações sem serem forçados a escolher entre Pequim e Washington.
Um aviso para toda a região
A conclusão de Ellis é particularmente relevante: a China se tornou um sócio comercial e um ator político, militar e social influente no Uruguai, apesar do reduzido tamanho de seu mercado.
O caso uruguaio demonstra que instituições fortes e tradições democráticas não necessariamente são suficientes para administrar os riscos decorrentes de uma crescente dependência de uma potencia externa.
A resposta, então, não passa necessariamente por fechar as portas para a China. Passa por estabelecer limites claros, diversificar mercados, proteger as infraestruturas críticas, preservar a segurança dos dados e garantir que as decisões estratégicas do país continuem respondendo a interesses nacionais e não a pressões externas.
O Uruguai pode se beneficiar enormemente de sua relação com a China. Mas, a partir de uma perspectiva geopolítica, a pergunta fundamental é outra:
O Uruguai pode aprofundar seus vínculos econômicos com Pequim sem que essa dependência termine se transformando em influência política e estratégica?
A resposta a essa pergunta não só definirá o futuro da relação entre o Uruguai e a China. Também pode se tornar um caso testemunho para o resto da América Latina.
Artigo completo acessando em https://www.csis.org/analysis/whats-behind-chinas-problematic-advance-uruguay
Evan Ellis é um associado sênior (não residente) no Programa das Américas do CSIS - Center for Strategic and International Studies em Washington, D.C.

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