16/12/2022 - Política e Sociedade

China: Sociedade de controle ou sociedade descontrolada?

Por Anna Kaplun

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A informação é o recurso geopolítico mais importante e mais disputado de todo o mundo

O mandatário chinês, Xi Jinping, tem muito claro. Como Ross Andersen expressa no artigo "The Panopticon is Already Here" para The Atlantic, o presidente da República Popular da China quer que seu país consiga a supremacia da Inteligência Artificial (IA) até 2030. Seu objetivo é usar os incríveis atributos analíticos desta tecnologia para colocar a China na vanguarda da vigilância, construindo um sistema digital de controle social que tudo o veja.A desculpa da pandemia serviu de tela a este regime para implementar uma série ousada de medidas de controle. Por exemplo: o sistema de pontos de risco em que um algoritmo atribuiva a cada cidadão uma cor -vermelho, amarelo ou verde - para determinar suas possibilidades de circulação na via pública. A empresa que desenvolveu esta aplicação, enviava dados dos usuários à polícia em tempo real. O uso desta informação era discrecional segundo as necessidades políticas das autoridades. Ferramentas que se apresentaram para o cuidado da saúde, mas que facilmente podem ser utilizadas para garantir a saúde do regime.Encontrar-me com esta informação, que foi publicada em setembro de 2020, não só me produziu um grande impacto, mas também me gerou uma grande pergunta:

Quantas possibilidades de protesto ficam para os cidadãos chineses quando estão sendo completa e absolutamente vigiados?

Quando o Estado gere um monopólio dos dados, a organização política em grande escala poderia ser impossível. E, no entanto, recentemente, os chineses demonstraram com astúcia e criatividade que nenhum sistema consegue ser tão absoluto.O desencadeante deste fenômeno foi o incêndio de um edifício residencial em Urumqi em que 10 residentes morreram. As restrições por COVID foram a desculpa que se deu para explicar por que não foi possível resgatar civis. Os moradores desta cidade, que vinham tolerando mais de 100 dias de quarentena estrita, saíram ao espaço público e baixaram sua raiva. E a raiva se espalhou.Inicialmente, os manifestantes pareciam contentar-se com a eliminação das restrições pandémicas. No entanto, os mais jovens somaram-se para expressar sua frustração com as autoridades. Alguns exigiram maiores liberdades políticas, outros condenaram a ditadura e o governo eterno, mas o planoteo mais ousado nasceu em Xangai, a cidade e o maior centro financeiro da China, onde as multidões pediram abertamente a Xi que “dimitia”.À medida que a legitimidade de um regime se sustenta cada vez mais na censura, é evidente que controlar a informação é elementar para o seu sistema. Sua hegemonia precisa isolar os seus cidadãos da realidade política do resto do mundo. É por isso que os sinais de dissidência organizada têm pouco lugar e probabilidades no espaço digital.No entanto, nos últimos dias, enquanto os chineses frustrados pelas políticas anti- Covid saíram às ruas, os vídeos das marchas proliferaram nos sites chineses. Alguns especialistas dizem que o grande volume de conteúdo dever ter superado a capacidade de censura do software automatizado. Os protestos também demonstraram que um número crescente de chineses está usando algum tipo de software que lhes permite acessar sites como Twitter e Instagram, normalmente bloqueados na China.E como estes sites estão fora do alcance das autoridades chinesas, atuam como repositório, garantindo-lhes a sobrevivência da evidência digital. Outra estratégia dos jovens é aumentar os vídeos editados de forma superposta e expressamente confusa, ou com símbolos que o algoritmo não lê, evitando a identificação e censura. Estes atalhos que vão encontrando ao sistema apresentam um novo desafio para as autoridades, que descobrem que seus recursos tecnológicos são obsoletos face ao fator humano.No curto prazo, o governo teve que ceder às pretensões do povo. Foi possível observar algum relaxamento nas políticas anti-COVID. Algumas cidades eliminaram o requisito de teste negativo para a livre circulação pública, e mesmo se permitiu que os cidadãos tornem a quarentena nas suas casas em vez de os transportarem para centros de quarentena. Mas ainda há muitas restrições.Finalmente, meu planoteu inicial estava mal formulado. A questão não deveria ter sido o quanto iam poder, mas como iriam fazê-lo.

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anna kaplun

Anna Kaplun

Olá! Sou Anna, Lic. em Ciências Sociais da Universidade Torcuato Di Tella. Trabalho em T4 Education como Executiva de Dados e Tecnologia. Apasionada por observar e tentar compreender os fenômenos sociais e humanos. Com entusiasmo por criar soluções novas para problemas que se sentem muito velhos. E especialmente interessada no desenvolvimento e impacto das novas tecnologias, tanto no social como no político.

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