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CUBA. Quinta parte. Processos nos Estados Unidos por narcotráfico e lavagem de dinheiro. A fraude cubana do Medicare (William Acosta)

Por Poder & Dinero

Portada

EXPEDIENTES JUDICIAIS COM NÚMEROS DE PROCESSO

Os seguintes casos são acusações formais ou processos documentados perante tribunais federais dos Estados Unidos e perante a própria justiça cubana. Estão consignados com o número de causa correspondente para permitir sua verificação independente.

Nº 82-643-Cr-JE — Estados Unidos v. Santamaría Cuadrado et al. (novembro de 1982)

Catorze pessoas foram acusadas perante o Tribunal do Distrito Sul da Flórida, incluindo o Vice-Almirante Aldo Santamaría Cuadrado, Comandante da Marinha cubana. As acusações cobriam a importação de cinco milhões de comprimidos de metacualona e maconha para a Flórida entre 1979 e 1981. Nenhum acusado foi detido ou compareceu. Cuba os manteve protegidos indefinidamente. O próprio Santamaría presidiu, sete anos depois, o conselho de guerra que executou o General Ochoa em 1989, acusado de crimes quase idênticos. Essa paradoxo ficou sem explicação judicial. Fonte: New York Times, 6 de novembro de 1982, "U.S. Drug Charges Cite 4 Cuban Aides."

Grande Júri Federal, SDFL — Rascunho RICO 1993 (Estados Unidos v. Raúl Castro Ruz et al.)

Rascunho de 17 páginas elaborado sob a Lei RICO (18 U.S.C. §§ 1961-68), nunca emitido formalmente. Os acusados principais são Raúl Castro, Manuel Piñeiro "Barba Roja" e 13 altos oficiais. As alegações compreendem uma conspiração de 10 anos, 7,5 toneladas de cocaína e a alocação de frequências de rádio especiais a organizações narcotraficantes. A razão pela qual não foi emitido foi uma combinação de dificuldades probatórias e obstáculos políticos do Departamento de Estado. Raúl Castro governou Cuba sem ser julgado até sua aposentadoria em 2018. Fonte: Seattle Times, 8 de abril de 1993, "The U.S. Drug Case Against Cuba — Smuggling Probe Names Raul Castro, Other Officials."

Conselho de Guerra Cubano — Cuba v. General Arnaldo Ochoa Sánchez et al. (1989)

Ochoa, De la Guardia, Martínez e Padrón foram executados em 13 de julho de 1989. A paradoxo jurídica foi apontada desde o primeiro momento: Cuba não tinha pena de morte para narcotráfico, de modo que o regime utilizou a acusação de "traição" para executá-los. O Vice-Almirante Santamaría, acusado em Miami em 1982 por crimes semelhantes, presidiu o tribunal sem ter sido julgado ele mesmo. O volume documentado no processo cubano foi de aproximadamente seis toneladas de cocaína; o rascunho federal de Miami consignou nove toneladas ou mais. Fontes: Los Angeles Times, 13 de julho de 1989, "Firing Squad Executes Cuban Hero: Ex-General, 3 Others Shot for Roles in Drug Trafficking"; Cunningham, "Trafficking for a Cause: A Historical Analysis of Cuban State-Sponsored Drug Trafficking," Air University Journal of Indo-Pacific Affairs (JOTA), 2024.

Case No. 16-cr-20267 — Estados Unidos v. Ariel Nuñez-Finalet et al.

Ariel Nuñez-Finalet acumulou mais de $16 milhões em fraudes do Medicare entre 2011 e 2014. Ao ser acusado em 2016, fugiu para Cuba e viveu lá durante anos. Foi capturado somente na Espanha em 2023, após deixar a ilha. Foi extraditado em 21 de novembro de 2023 e condenado em 29 de março de 2024 a 36 meses de prisão mais $1.910.222 em restituição. Seus co-conspiradores Pedro Torres e Antonio Hevia continuam fugitivos em Cuba. Fonte: U.S. Department of Justice / SDFL, 29 de março de 2024, "Fugitive Cuban national extradited from Spain and sentenced to 36 months' imprisonment for health care fraud conspiracy."

SDFL, 2012 — Rede de 70 empresas, lavagem de até $63 milhões para bancos cubanos

O que torna singular este caso não é o montante: é o destino. Rastrear dinheiro até um país onde o Estado controla absolutamente cada transação bancária tem uma única leitura possível: se o dinheiro chegou, foi porque alguém o deixou passar. Este caso constituiu a primeira vez em que investigadores federais traçaram diretamente o dinheiro proveniente de fraudes do Medicare até o sistema bancário cubano. O valor rastreado foi de até $63 milhões através de uma rede de aproximadamente 70 empresas-fantasma na Flórida. Os promotores esclareceram não ter prova direta de participação do Estado, mas os especialistas apontaram que essa magnitude não pode entrar nos bancos cubanos sem o conhecimento do governo, dado que o sistema bancário está completamente controlado pelo Estado. Fontes: Weaver, Whitefield, Charles, "Miami Money-Laundering Case Spotlights Link Between Medicare Fraud And Cuba's National Bank," Miami Herald, 30 de junho de 2012; The Senior Citizens League, "Millions Stolen From Medicare Traced To Cuban Banks," 12 de setembro de 2012.

MEDICARE: O CÍRCULO DA FRAUDE E O REFÚGIO

O FBI Miami começou a notar o padrão em meados dos anos noventa: clínicas de HIV, fornecedores de equipamentos médicos e serviços de saúde domiciliares em Miami-Dade e Broward apresentavam números de faturamento que não correspondiam a nenhuma realidade médica verificável. O que eles estavam vendo era um ecossistema criminoso completo: empresas-fantasma, recrutadores de pacientes por dinheiro, médicos que assinavam prescrições sem ver doentes, e um sistema de fuga aperfeiçoado. O padrão não era espontâneo nem improvisado. Era uma indústria.

A concentração de pessoas de origem cubana nesse ecossistema não foi aleatória nem pode ser explicada apenas por proximidade geográfica. Segundo a investigação de um ano do Sun Sentinel de Fort Lauderdale publicada em 8 de janeiro de 2015 sob o título "Plundering America: The Cuban Criminal Pipeline", pessoas nascidas em Cuba representavam menos de 1% da população total dos Estados Unidos, mas concentravam 41% das prisões a nível nacional por fraude em programas de saúde. Em Miami-Dade, onde 24% da população havia nascido em Cuba, esse grupo representava 73% das prisões por fraude ao sistema de saúde, 72% dos casos de roubo de carga, 59% dos processos por tráfico de maconha e mais da metade das prisões por fraude com cartões de crédito e seguros. Quando uma concentração estatística dessa magnitude aparece em múltiplas categorias de crime organizado, deixa de ser uma coincidência e se torna evidência de uma rede estruturada.

 

TRES DECADAS DE CRONOLOGIA DOCUMENTADA

A história documentada da fraude cubana ao Medicare se desdobra em ondas que os investigadores federais aprenderam a identificar somente depois de terem perdido bilhões de dólares. Em meados dos anos noventa, o modelo operacional já estava traçado: abrir uma clínica-fantasma, conseguir um médico disposto a assinar, recrutar pacientes como cúmplices passivos e cobrar do Medicare por serviços que nunca foram prestados. O limiar de entrada era mínimo. O limiar de punição, ainda mais.

Os cálculos conservadores do Sun Sentinel, baseados exclusivamente em ordens de restituição emitidas em casos federais encerrados, mostraram mais de 2 bilhões de dólares roubados entre 1994 e 2015 ("Plundering America: The Cuban Criminal Pipeline," Sun Sentinel, 8 de janeiro de 2015). Alex Acosta, então procurador federal do Distrito Sul da Flórida, foi preciso em sua declaração pública: somente no sul da Flórida, os ladrões do Medicare roubavam mais de 2 bilhões de dólares por ano. Não no total. Por ano. Ano após ano.

Em 2007, um informante testemunhou perante um tribunal federal de Miami que o organizador de uma rede de $56 milhões no sul da Flórida era Mario Aleman, oficial da inteligência cubana G-2. Aleman havia retornado a Cuba. Nunca foi processado. Nesse mesmo ano, o Departamento de Justiça criou a Medicare Fraud Strike Force, uma unidade federal permanente projetada para perseguir fraudes dessa magnitude, reconhecendo que o problema exigia uma resposta institucional permanente ("Strike Force Formed to Target Fraudulent Billing of Medicare," U.S. Department of Justice, 9 de maio de 2007).

Em 2010, uma rede cubana no Texas foi desmantelada após fraudar $9 milhões do Medicare. Seu mecanismo era sofisticado: enviavam nacionais cubanos para diferentes cidades dos Estados Unidos para abrir clínicas falsas de câncer e HIV, cobrar do programa federal e desaparecer antes que os alarmes fossem ativados. Em 2011, foi desmantelada a rede de Elizabet Lombera, que operava de Güines, Cuba, e havia acumulado mais de $12 milhões em fraudes em menos de dois anos. Cada caso revelava a mesma infraestrutura: contatos em Cuba para recrutar operadores, redes de confiança étnica para manter o segredo e um destino garantido uma vez que a operação deveria ser abandonada ("Plundering America: The Cuban Criminal Pipeline," Sun Sentinel, 8 de janeiro de 2015).

Em 2012 ocorreu um momento definidor: pela primeira vez, os promotores federais conseguiram rastrear dinheiro de fraude ao Medicare diretamente até o sistema bancário cubano. O valor foi de até $63 milhões, canalizados através de uma rede de 70 empresas com base na Flórida para contas em bancos cubanos. A investigação confirmou o que os investigadores suspeitavam há anos: o dinheiro não ficava em Miami. Tinha um destino institucional em Havana.

Em 2015, a Strike Force do Distrito Sul da Flórida processou 73 pessoas por esquemas que somavam $263 milhões. Em junho de 2016, a operação mais abrangente até então prendeu mais de 300 pessoas em todo o país. O valor total foi de $900 milhões. Em julho do mesmo ano, três pessoas foram formalmente acusadas em Miami por um esquema de $1 bilhão, o maior até aquela data na história do programa.

O REFÚGIO COMO SERVIÇO DE ESTADO

Randall Culp, chefe da área de fraude de saúde do FBI Miami, resumiu sem ambiguidade em uma entrevista ao Tampa Bay Times em 2009: "Ninguém achou que eles eram um risco de fuga." Os acusados haviam chegado como refugiados políticos. Os juízes concediam fiança. Pagavam a fiança e cruzavam o Estreito da Flórida. Essa mecânica não foi uma falha do sistema judicial: foi uma exploração deliberada de suas regras.

O FBI estimou que entre 30 e 50 fugitivos de fraude de saúde fugiram para Cuba no período mais ativo das investigações. Uma investigação paralela do Sun Sentinel identificou ao menos 50 mais que não constavam nos cálculos do FBI. No total, mais de 150 suspeitos retornaram a Cuba ou outras partes da América Latina enquanto seus casos estavam abertos. No momento das investigações mais completas disponíveis, mais de 500 pessoas nascidas em Cuba tinham ordens de prisão federais pendentes, e outras 500 enfrentavam ordens estaduais na Flórida por fraude e narcotráfico ("Plundering America: The Cuban Criminal Pipeline," Sun Sentinel, 8 de janeiro de 2015).

O senador Charles Grassley o viu com clareza suficiente em 2011 para escrever diretamente ao Procurador-Geral Eric Holder e à Secretária de Estado Hillary Clinton. Sua pergunta era direta: o governo cubano estava facilitando ou direcionando ativamente a fraude ao Medicare? A resposta que recebeu foi uma não-resposta. Grassley registrou: "É já preocupante que o crime organizado tenha penetrado a fraude de saúde. É ainda mais perturbador se funcionários de um governo estrangeiro também estão facilitando ou dirigindo essa fraude" ("Plundering America: The Cuban Criminal Pipeline, Part III," Sun Sentinel, 8 de janeiro de 2015). O Departamento de Estado não respondeu com ações. O padrão continuou.

Sobre o Autor

William L. Acosta é graduado da PWU e da Universidade de Alliance. É um policial aposentado da polícia de Nova York, ex-militar do Exército dos Estados Unidos, bem como fundador e CEO da Equalizer Private Investigations & Security Services Inc., uma agência com licença em Nova York e Flórida, com projeção internacional. Desde 1999, tem liderado investigações em casos de drogas, homicídios e pessoas desaparecidas, além de participar da defesa penal tanto a nível estadual quanto federal. Especialista em casos internacionais e multi-jurisdicionais, coordenou operações na América do Norte, Europa e América Latina.

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Sergio Berensztein, Fabián Calle, Pedro von Eyken, José Daniel Salinardi, William Acosta, junto a um destacado grupo de jornalistas e analistas da América Latina, Estados Unidos e Europa.

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