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CUBA. Última parte. A revolução terrorista (William Acosta)

Por Poder & Dinero

Portada

CUBA E AS REDES DO TERROR INTERNACIONAL: DA OLP AO HEZBOLAH

Se a história de Cuba com o narcotráfico latino-americano pode ser rastreada até 1979, sua história com o terrorismo de alcance global é mais antiga. E mais profunda. Não se trata de simpatias ideológicas abstratas nem de retórica antiimperialista: trata-se de treinamento físico, transferência de tecnologia, inteligência compartilhada e santuário garantido. Desde os campos de treinamento guerrilheiros dos anos sessenta até a base operacional do Hezbollah confirmada em 2011, o regime cubano construiu durante seis décadas uma rede de relações com organizações terroristas que a CIA, o Departamento de Estado e a inteligência israelense documentaram separadamente e em momentos históricos distintos.

O ponto de partida foi a Conferência Tricontinental de 1966 em Havana, onde Fidel Castro reuniu delegados de movimentos de libertação da África, Ásia e América Latina —incluindo representantes da OLP— e anunciou que Cuba seria o centro de apoio global à resistência armada contra o imperialismo. Essa declaração não foi apenas retórica: foi a abertura de um programa permanente de treinamento, financiamento e logística para organizações que as democracias ocidentais classificam como terroristas.

A ALIANÇA COM A OLP: TREINAMENTO, ARMAS E INTELIGÊNCIA

Desde 1968, agentes militares e instrutores de inteligência cubanos estiveram presentes em bases da OLP no norte da África e no Iraque, segundo documentos desclassificados da CIA ("Cuba: Training Third World Guerrillas," CIA Directorate of Intelligence, desclassificado em 2012). Em junho de 1969, soldados cubanos participaram junto a combatentes da OLP em uma incursão armada no Sinai. Em 1972, Castro se reuniu pessoalmente com dirigentes da OLP na Argélia e acordou ampliar as atividades conjuntas.

Entre 1976 e 1982, a CIA estimou que 300 palestinos recebiam treinamento simultaneamente em campos militares cubanos. A OLP, por sua vez, treinou guerrilheiros latino-americanos no Líbano, no Iémen do Sul e na Líbia —uma subcontratação pedagógica acordada com Havana ("Cuban Commitment to Violence, Terrorism and Anti-Americanism," Cuban Studies Institute, 20 de maio de 2020). Em 1974, ao romper relações com Israel e buscar a liderança do Movimento de Países Não Alinhados, Castro convidou Yasser Arafat a Havana. Arafat visitou Cuba oito vezes no total, e durante sua visita de 1979 assinou um acordo formal de cooperação militar e fornecimento de armas.

Nesse mesmo ano, Cuba enviou tropas para apoiar a Síria durante a Guerra do Yom Kippur. Não foi um gesto simbólico: as tropas cubanas operaram na linha de frente com unidades do exército sírio. Israel venceu a guerra; os cubanos se retiraram em 1975. Mas o sinal estratégico ficou claro: Havana estava disposta a projetar força militar a milhares de quilômetros de distância em apoio a causas que seus aliados considerassem prioritárias ("Cuba and Iran Are Still State Sponsors of Terrorism," Heritage Foundation, 4 de janeiro de 2024).

A BASE OPERACIONAL DO HEZBOLAH EM CUBA (2011)

A evidência mais específica sobre os vínculos entre Cuba e o Hezbollah provém de um memorando enviado em 5 de setembro de 2011 ao correio pessoal da então Secretária de Estado Hillary Clinton por seu assessor Sidney Blumenthal, hoje parte do registro público através do arquivo de e-mails do WikiLeaks. O memorando, redigido a partir do que Blumenthal descreveu como "fontes extremamente sensíveis," reportava um aviso formal do Mossad israelense ao governo de Israel: "Hezbollah está estabelecendo uma base operacional em Cuba, projetada para apoiar ataques terroristas em toda a América Latina" ("Intel: Hezbollah & Cuba," WikiLeaks — Hillary Clinton Email Archive, emailid/12568, 5 de setembro de 2011).

O alcance dessa base não se limitava a alvos israelenses. As fontes indicavam que os operativos do Hezbollah haviam recebido instruções para reconhecer também instalações associadas aos Estados Unidos e ao Reino Unido na região —missões diplomáticas, bancos importantes e empresas— como "alvos de contingência a serem atacados em caso de intervenção militar americana ou britânica na Síria ou no Irã." A negociação dos termos da base foi conduzida diretamente por Hassan Nasrallah, que prometeu à inteligência cubana (DGI) que o Hezbollah "evitaria qualquer rastro de evidência que pudesse levar de volta a Cuba em caso de um ataque na América Latina," segundo reportou Vice News em 13 de fevereiro de 2016 ("Hillary Clinton Was Warned of Possible Terror Attacks in Latin America," VICE, 13 de fevereiro de 2016).

A existência da base operacional foi confirmada posteriormente pelo Cuban Studies Institute em seu relatório de maio de 2020, que apontou que o Hezbollah, "por ordens de Hassan Nasrallah, estabeleceu uma base operacional em Cuba" e que "Havana, diretamente e através da Venezuela, continua fornecendo inteligência ao Hamas e ao Hezbollah." Em julho de 2021, o chefe de relações internacionais do Hezbollah, Ammar Al-Moussawi, visitou a embaixada cubana em Beirute para expressar solidariedade durante as protestas massivas em Cuba, consolidando publicamente o vínculo entre ambas as organizações ("Cuba and Iran Are Still State Sponsors of Terrorism," Heritage Foundation, 4 de janeiro de 2024). A conexão entre Hezbollah, Cuba e Venezuela —incluindo o nexo com o regime de Maduro e suas fontes de financiamento— também é documentada no Atlantic Council ("The Maduro-Hezbollah Nexus: How Iran-backed Networks Prop up the Venezuelan Regime," Atlantic Council, 7 de outubro de 2020).

 

O EIXO HAVANA, TEERÃ: SEIS DÉCADAS DE ALIANÇA ESTRATÉGICA

Cuba e Irã construíram sua aliança sobre uma base comum: a rejeição à hegemonia americana e a vontade de projetá-la além da retórica. Em maio de 2001, Fidel Castro visitou Teerã e pronunciou uma frase que resume décadas de coordenação estratégica: "Irã e Cuba, em cooperação um com o outro, podem colocar a América de joelhos" (citada em Center for Free Cuba, 18 de junho de 2025). Não foi hipérbole. Foi a enunciação de uma política.

Os intercâmbios concretos entre ambos os regimes alcançaram dimensões que vão do âmbito militar ao biotecnológico. Em 2001, o ex-Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia de Cuba, José de la Fuente, publicou na revista Nature Biotechnology uma denúncia pública na qual afirmava que Cuba havia vendido ao Irã tecnologia de uso dual capaz de ser utilizada na produção de armas biológicas. "Ninguém acredita que o Irã esteja interessado nessas tecnologias com o propósito de proteger as crianças do Oriente Médio da hepatite," escreveu (Nature Biotechnology, outubro de 2001; reproduzido em audiência do Senado, U.S. Senate Foreign Relations Committee, 5 de junho de 2002). Nessa mesma direção, o Secretário de Estado Colin Powell declarou ao Congresso que os Estados Unidos acreditavam que Cuba tinha "pelo menos um esforço limitado de pesquisa e desenvolvimento de guerra biológica ofensiva" e que Cuba "forneceu biotecnologia de uso dual a estados párias" ("Cuba's Pursuit of Biological Weapons," U.S. Senate Foreign Relations Committee, 5 de junho de 2002).

Em 2005, Cuba e Irã assinaram um memorando de cooperação que incluiu acordos em eletricidade, biotecnologia e mineração. Em dezembro de 2023, o Ayatolá Khamenei recebeu o presidente cubano Miguel Díaz-Canel em Teerã e declarou que sua aliança estratégica "pode assumir uma posição comum e efetiva em questões internacionais importantes como a questão palestina." O Irã, o maior patrocinador estatal do terrorismo no mundo, usa Cuba como um nó regional para consolidar sua presença na América Latina e no Caribe —uma presença que o Departamento de Estado americano descreveu como "crescente e sistemática." O eixo trilateral Havana–Teerã–Caracas —documentado em detalhe na seção anterior sobre a Venezuela— encontra aqui seu fundamento ideológico e operativo mais antigo.

CUBA, HAMAS E O 7 DE OUTUBRO

Após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 contra Israel —o maior ataque terrorista contra judeus desde o Holocausto, com 1.200 mortos e mais de 250 sequestrados— a reação do regime cubano foi reveladora. O Ministério das Relações Exteriores cubano emitiu um comunicado no qual culpou Israel pela "impunidade" que teria gerado a violência, sem condenar o ataque do Hamas em nenhum de seus termos ("Cuba and Iran Are Still State Sponsors of Terrorism," Heritage Foundation, 4 de janeiro de 2024).

Essa omissão não foi acidental. Cuba vem há décadas mantendo reuniões de alto nível com o Hamas e seu principal patrocinador, o Irã. Segundo o Cuban Studies Institute e o Center for Free Cuba, Havana fornece inteligência ao Hamas de maneira regular e coordenou com o Irã e o Hamas uma ofensiva diplomática internacional durante o ano anterior a 7 de outubro —um esforço no qual Cuba foi descrita como um "aliado chave" em uma investigação publicada pelo Jewish Policy Center em 16 de novembro de 2023 ("Jihad: Cuba's Role," Jewish Policy Center, 16 de novembro de 2023).

ETA: QUATRO DÉCADAS DE SANTUÁRIO VASCO EM HAVANA

A relação de Cuba com a ETA, o grupo separatista basco espanhol responsável por mais de 800 mortos entre 1959 e 2010, começou em 1964, quando militantes da organização receberam treinamento em Cuba. O livro História de um desafio: Cinco décadas de luta sem quartel da Guarda Civil contra a ETA (Manuel Sánchez e Manuela Simón, 2017) documenta que "na primavera de 1964, militantes da ETA receberam treinamento em Cuba com lições sobre sequestros, subversão e sabotagem. Assim começou o treinamento ideológico e terrorista que mais tarde seria uma constante na história da banda terrorista."

Nos anos oitenta, após acordos entre o governo espanhol do socialista Felipe González e o regime cubano, cerca de 20 membros da ETA se instalaram em Cuba como parte de um arranjo informal. Alguns chegaram deportados de terceiros países; outros como fugitivos diretos da justiça espanhola. Entre eles, Miguel Ángel Apalategi ("Apala"), um dos fundadores da organização, recebeu nova identidade e proteção na ilha. O terrorista José Ángel Urtiaga Martínez viveu em Cuba desde os anos oitenta, procurado pela justiça espanhola ("Cuba's Continuous Support for Terrorism," Cuban Studies Institute, 29 de agosto de 2019).

Em 2011, dois membros da ETA residentes em Cuba —Elena Bárcena Argüelles ("Tigresa") e Francisco Pérez Lekue ("Luke")— publicaram uma declaração de Havana na qual acusaram o regime cubano de serem "carceleros" ao negarem documentos falsos para abandonarem a ilha, revelando a natureza de sua relação com as autoridades cubanas: dependência total, controle absoluto ("Is Cuba Tired of Its ETA Guests?", El País, 25 de maio de 2011). Cabos desclassificados do WikiLeaks confirmaram que membros da ETA que haviam "assistido às FARC haviam passado um tempo em Cuba."

O MODELO COMPLETO: CUBA COMO NÓ DE CONVERGÊNCIA TERRORISTA

O que emerge deste registro não é uma série de coincidências diplomáticas. É uma arquitetura deliberada. Cuba ofereceu durante décadas a organizações tão diversas como a OLP, ETA, o IRA provisório, o M-19, as FARC, o ELN, Hamas e Hezbollah a mesma combinação de serviços: treinamento em táticas guerrilheiras e contrainteligência, logística de viagem com documentação falsa, santuário frente à extradição e, nos casos do Hezbollah e Irã, transferência de tecnologia sensível e coordenação de inteligência.

O general James Clapper, então Diretor Nacional de Inteligência dos Estados Unidos, testemunhou perante o Congresso em fevereiro de 2016 que o regime cubano continuava sendo "uma ameaça de espionagem ao nível do Irã, atrás apenas da China e da Rússia." Nesse mesmo período, o governo Obama emitiu uma diretiva instruindo a inteligência americana a cooperar com os serviços de inteligência cubanos —uma decisão que legisladores do Congresso, incluindo o representante Mario Díaz-Balart, advertiram que equivalia a compartilhar informações com Irã e Hezbollah, dado o grau de integração entre essas redes ("Congress: Cuba to Share Critical U.S. Intel With Iranian Spies," Washington Free Beacon, 27 de outubro de 2016).

A IHH —organização beneficente turca financiada pelo Hamas e membro da "União do Bem," o guarda-chuva financeiro do Hamas— continuou a operar abertamente em Havana. O sistema de identificação migratória venezuelana, "Missão Identidade," administrado por cubanos, facilitou o acesso de agentes cubanos à Venezuela e, através dela, de operativos de organizações terroristas a terceiros países. Cuba duplicou e distribuiu formulários e selos de passaportes venezuelanos para uso de redes de narcotráfico, guerrilhas colombianas e terroristas islâmicos.

O padrão não é o de um Estado que tolera passivamente a presença de atores perigosos em seu território. É o de um Estado que os administra ativamente, os protege da extradição, os conecta com seus aliados regionais e os usa como ferramenta de política externa. No caso do Hezbollah, essa administração incluiu negociações diretas entre Nasrallah e a DGI cubana para estabelecer uma base operacional a 90 milhas das costas dos Estados Unidos. O narcotráfico e o terrorismo, vistos separadamente, parecem histórias distintas. Lidos juntos, são o mesmo livro.

 

A MÁQUINA DE ESPIONAGEM: CÉLULAS, AGENTES E SEGREDOS ROUBADOS

Se o narcotráfico foi o negócio visível do regime cubano no exterior, a espionagem foi sua empresa mais sofisticada e duradoura. Desde a criação da Direção Geral de Inteligência (DGI) em 1961, instruída diretamente pelo KGB soviético, Cuba construiu uma das redes de inteligência mais efetivas do mundo em proporção ao seu tamanho, com operações ativas em território.

norte-americano documentadas durante mais de seis décadas e casos de penetração que chegaram ao próprio coração do governo dos Estados Unidos.

Chris Simmons, analista de contrainteligência da Agência de Inteligência de Defesa (DIA), o explicou com precisão perante o Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes em 3 de junho de 2012: "Cuba pode ser caracterizada com precisão como uma organização criminosa violenta disfarçada de governo. É o único traficante de inteligência do mundo, fornecendo aos adversários dos Estados Unidos um fluxo interminável de segredos americanos coletados por suas instalações de inteligência de sinais, complementados por informantes humanos. A intermediação dessa informação gera supostamente centenas de milhões de dólares anuais, uma das principais fontes de renda que sustentam o regime" ("Cuba's Global Network of Terrorism, Intelligence and Irregular Warfare," Comitê da Câmara dos EUA sobre Relações Exteriores, 112.º Congresso, 3 de junho de 2012).

Ana Belén Montes: dezessete anos no coração do Pentágono

O caso mais devastador já documentado de espionagem cubana em solo americano é o de Ana Belén Montes. Cidadã americana de ascendência porto-riquenha, foi recrutada pela inteligência cubana em 1984 enquanto estudava na Universidade Johns Hopkins, antes mesmo de se juntar ao governo. Em 1985, foi contratada como analista da DIA e ascendeu a se tornar a analista principal do Pentágono sobre Cuba, com acesso aos planos mais sensíveis do exército americano. Desde o primeiro dia de seu emprego, era uma espiã a serviço de Havana.

Durante dezessete anos, Montes entregou a Cuba as identidades de quatro agentes encobertos americanos, os nomes de centenas de analistas que trabalhavam no dossiê Cuba dentro da comunidade de inteligência, informações classificadas sobre um satélite de reconhecimento stealth com o qual os Estados Unidos espionavam a Rússia, a China e Cuba, e os planos operacionais de praticamente todas as operações militares americanas na América Central durante os anos oitenta. De acordo com o analista Simmons, "virtualmente sabotou todas as operações militares dos Estados Unidos na América Central durante cinco anos nos anos oitenta. Nunca saberemos totalmente o dano que causou aos Estados Unidos" (PBS NewsHour, 9 de janeiro de 2023; Boundary Stones / WETA, 2 de junho de 2025).

Montes recebia instruções codificadas de Havana através de rádio de onda curta, as decodificava em um laptop especialmente preparado e se comunicava com seus controladores por meio de chamadas a partir de telefones públicos para um pager em Nova York. Foi presa em 21 de setembro de 2001, um dia antes de receber o briefing completo sobre a Operação Liberdade Duradoura, a invasão do Afeganistão. Os investigadores concluíram que, se ela tivesse comparecido, os planos teriam chegado ao Talibã através de Havana. Em outubro de 2002, foi condenada a 25 anos. Foi liberada em 6 de janeiro de 2023 (Reuters, 7 de janeiro de 2023; CNN, 8 de janeiro de 2023).

A Rede Avispa: a maior rede de espionagem cubana já desmantelada nos EUA

Em 12 de setembro de 1998, o FBI prendeu dez membros do que chamou de A Rede Avispa, o maior anel de espionagem cubano descoberto nos Estados Unidos até agora. A rede era composta por pelo menos 27 agentes cubanos que operavam sob identidades falsas no sul da Flórida. Seus objetivos incluíam infiltrar grupos de exilados cubanos, monitorar movimentos na Base Aérea de Homestead, introduzir um agente na Estação Aeronaval de Boca Chica em Key West como trabalhador de manutenção e penetrar o Comando Sul dos EUA e a Base Aérea de MacDill (Comitê da Câmara dos EUA sobre Relações Exteriores, 2012; Center for Free Cuba, 13 de setembro de 2022).

O líder da rede, Gerardo Hernández, operava sob a identidade falsa de Manuel Viramontez. Foi condenado a duas penas de prisão perpétua por conspiração para cometer espionagem e conspiração para cometer assassinato, em relação ao fornecimento de informações a Cuba que permitiram a derrubada de dois aviões da organização Hermanos al Rescate em 24 de fevereiro de 1996, matando quatro pessoas. Antonio Guerrero, Ramón Labañino e Fernando González receberam prisão perpétua ou dezenove anos respectivamente. Os cinco foram liberados em dezembro de 2014, como parte de uma troca de prisioneiros negociada durante a administração Obama (Wikipedia, "Cuban Five").

Cinco dos outros membros da rede aceitaram acordos com os promotores e cooperaram com o governo. Seus testemunhos revelaram que Cuba havia ordenado explicitamente a infiltração de instalações militares americanas e que a rede estava preparada para facilitar o contrabando de armas e explosivos para os Estados Unidos, caso as circunstâncias exigissem.

Outros agentes condenados: o padrão sistemático

Os casos de Montes e da Rede Avispa não foram incidentes isolados. São os mais visíveis de um padrão sistemático que o FBI documentou em múltiplos casos ao longo de décadas. Em maio de 2000, Mariano Faget, alto funcionário do Serviço de Imigração e Naturalização dos Estados Unidos com acesso a casos de possíveis desertores cubanos, foi condenado por revelar informações classificadas a um agente da inteligência cubana (New York Times, compilado em Organizacion Autentica, janeiro de 2003). Em junho de 2009, Kendall Myers, funcionário aposentado do Departamento de Estado que havia acessado centenas de telegramas diplomáticos classificados sobre a América Latina e Europa, foi preso junto com sua esposa após serem descobertos espionando para Cuba por mais de trinta anos ("Cuba's Global Network of Terrorism, Intelligence and Irregular Warfare," Comitê da Câmara dos EUA sobre Relações Exteriores, 3 de junho de 2012). Em dezembro de 2023, Víctor Manuel Rocha, embaixador aposentado dos Estados Unidos e ex-membro do Conselho de Segurança Nacional, foi preso acusado de ter agido como agente cubano durante décadas a partir das mais altas instâncias da política exterior americana (Miami-Dade Tax Collector Statement, 31 de março de 2026, citando alerta do FBI).

A avaliação do FBI e a ameaça vigente

Em sua avaliação de ameaças globais de 2016, o Diretor Nacional de Inteligência James Clapper classificou Cuba como uma ameaça de espionagem ativa ao nível do Irã, superada apenas por China e Rússia. Em março de 2026, no contexto das operações militares conjuntas dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, o FBI instruiu suas equipes de contraterrorismo e inteligência a permanecerem em alerta máximo, advertindo sobre a presença de células dormentes de organizações ligadas ao Irã, entre as quais os analistas incluíram explicitamente redes com conexões cubanas, dada a integração de inteligência entre Havana e Teerã (Fox News, 1 de março de 2026). A informação que resume a dimensão do problema foi formulada no Congresso em 2012: desde 1998, o FBI havia exposto uma rede de pelo menos 16 agentes cubanos acusados ou condenados apenas na Flórida, e a estimativa dos analistas era que esses casos representavam a ponta do iceberg de uma estrutura muito maior que permanece ativa ("Cuba's Global Network of Terrorism, Intelligence and Irregular Warfare," Comitê da Câmara dos EUA sobre Relações Exteriores, 3 de junho de 2012).

QUANDO UM ESTADO DEIXA DE SER SOBERANO

Há um momento em que a distinção entre um governo e uma organização criminosa deixa de ser filosófica e se torna uma questão jurídica com consequências práticas. Para chegar a esse momento, é necessário entender o que faz um Estado ser legítimo: não o reconhecimento diplomático, não o assento nas Nações Unidas, não a bandeira ou o hino. A legitimidade de um Estado repousa em uma função: proteger sua população, administrar o território com critérios de interesse coletivo e atuar na ordem internacional de acordo com compromissos verificáveis.

O cientista político Charles Tilly observou em seu influente ensaio de 1985, "War Making and State Making as Organized Crime," que o Estado moderno emergiu historicamente dos mesmos processos que o crime organizado: monopólio da violência, extração de recursos, eliminação de rivais. A diferença entre o Estado e a máfia, argumentou Tilly, é que o Estado conseguiu institucionalizar esse monopólio e obter reconhecimento externo. Quando um Estado reverte esse processo, quando começa a usar o monopólio da violência para encorajar uma facção interna em detrimento do resto da população, quando vende sua soberania ao melhor criminoso e quando exporta repressão em vez de proteção, não se torna um Estado falido. Torna-se algo mais perigoso: um Estado capturado com plena capacidade operacional.

Cuba se encaixa nessa categoria com uma precisão que poucas nações no hemisfério igualam. Não é um Estado que colapsou e deixou entrar o crime. É um Estado que nunca deixou entrar ninguém mais. O regime não foi corrompido pelo narcotráfico: o instrumentalizou. Não foi infiltrado pela espionagem estrangeira: o vendeu. Não foi enfraquecido pelo terrorismo: o financiou, treinou e ofereceu santuário. Em cada uma dessas dimensões, a ação foi deliberada, sistemática e documentada perante os tribunais de justiça da maior democracia do mundo.

 

O que a comunidade internacional pode fazer?

O direito internacional e as políticas nacionais possuem ferramentas específicas para responder quando um Estado atravessa essa linha. O problema não é a ausência de instrumentos jurídicos. O problema é a vontade política de aplicá-los.

A primeira e mais direta ferramenta é a designação como Estado Patrocinador do Terrorismo, prevista na Seção 6(j) da Lei de Controle de Exportações de Armas dos Estados Unidos. Cuba foi designada em 1982, retirada da lista em 2015 sob a administração Obama por razões políticas, e redesignada em janeiro de 2021. Essa designação ativa sanções automáticas, restringe o financiamento multilateral e limita a cooperação governamental. Seu efeito prático, no entanto, tem sido limitado porque Cuba diversificou suas receitas precisamente através dos canais que este relatório documenta: o turismo controlado pela GAESA, as exportações de serviços médicos para o exterior e as remessas do exílio.

A segunda ferramenta é o regime de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos através da Oficina de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC). As sanções direcionadas a funcionários específicos do regime, contra entidades da GAESA e contra as rotas financeiras da fraude do Medicare são mais cirúrgicas do que o embargo geral e demonstraram maior capacidade de pressão. O problema é a evasão sistemática: Cuba utiliza intermediários em terceiros países, bancos em jurisdições com pouca regulamentação e criptomoedas para mover fundos.

A terceira ferramenta é o sistema interamericano de direitos humanos. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos documentou décadas de abusos e emitiu medidas cautelares repetidamente ignoradas pelo regime. A Corte Interamericana de Direitos Humanos poderia, em teoria, processar indivíduos em posição de funcionário, mas Cuba se retirou da jurisdição contenciosa da Corte e o regime não reconhece decisões que não lhe sejam convenientes.

A quarta ferramenta, e talvez a mais subutilizada, é o princípio da jurisdição universal. Vários crimes documentados neste relatório, incluindo crimes de lesa humanidade na Venezuela executados sob orientação cubana, tortura sistemática de prisioneiros políticos e participação em estruturas de narcotráfico transnacional, poderiam fundamentar processos perante tribunais nacionais na Espanha, Argentina ou outros países que reconhecem a jurisdição universal. O obstáculo é político: nenhum governo se dispôs a assumir o custo diplomático de iniciar esse processo.

O que fica claro, após quatro décadas de evidências documentadas, é que o regime cubano não mudou de natureza com a morte de Fidel Castro nem com as reformas cosméticas dos últimos anos. Mudou de geração, não de modelo. A cúpula que hoje controla a GAESA, a DGI e as Forças Armadas Revolucionárias é a mesma que treinou os paramilitares venezuelanos, que assinou os acordos de inteligência com o Hezbollah e que protegeu os fugitivos do Medicare enquanto o povo cubano enfrentava filas para conseguir pão. Essa continuidade não é acidental. É a consequência lógica de um sistema projetado para se perpetuar, não para servir.

A questão do que pode ser feito não tem uma resposta simples. Mas tem um ponto de partida inadiável: chamar as coisas pelos seus nomes. Um Estado que vende segredos militares aos adversários de seus vizinhos, que oferece santuário a terroristas e fugitivos, que exporta repressão e que utiliza sua soberania para blindar o crime organizado não é um governo com o qual se negocia a impunidade em troca de estabilidade. É uma organização criminosa com bandeira. E tratá-lo como tal é o primeiro passo em direção a qualquer solução real.

CONCLUSÃO: QUANDO A IMPUNIDADE SE INSTITUCIONALIZA

Quarenta anos de evidências documentais levam a uma conclusão que este relatório não pode suavizar: Cuba não é um caso de cumplicidade casual ou tolerância conveniente diante do crime organizado. É um caso de Estado que transformou a criminalidade em instrumento de política externa, que a financiou com soberania e a exportou com doutrina.

A linha que vai desde as reuniões de Carlos Lehder em Havana em 1979 até os $14.600 milhões em fraude ao Medicare registrados na operação de junho de 2025 não é uma coincidência estatística. É uma arquitetura. Cada elemento do sistema cumpre uma função: o território soberano oferece o corredor; a inteligência oferece a cobertura; a impunidade jurídica oferece o destino. E quando o dinheiro chega aos bancos controlados pela GAESA, já não há jurisdição que alcance para recuperá-lo.

O que faz este caso diferente de qualquer cartel convencional não é a escala dodaño —embora esta escala seja extraordinária— mas a natureza do ator. Quando um cartel mata, há uma estrutura que pode ser desarticulada. Quando um Estado mata, há um sistema que precisa ser nomeado. Este relatório o nomeia.

A evidência aqui documentada esteve disponível para os tomadores de decisão em Washington por décadas. Havia acusações formais com número de processo desde 1982. Havia um rascunho de indictment RICO com o nome de Raúl Castro desde 1993. Havia $63 milhões rastreados até bancos cubanos desde 2012. Havia uma carta do senador Grassley que nunca recebeu resposta. Havia fugitivos do Medicare vivendo em Havana enquanto os programas de saúde de milhões de americanos eram esvaziados sistematicamente.

A pergunta que permanece em aberto não é se a evidência existiu. A pergunta é qual foi o custo político de decidir, uma e outra vez, não agir sobre ela. Essa pergunta não é respondida por este relatório. Ela é levantada. E essa é, talvez, a função mais importante que o jornalismo investigativo pode cumprir: colocar na mesa o que os arquivos já sabem, para que ninguém possa dizer que não sabia.

Sobre o Autor

William L. Acosta é graduado da PWU e da Universidade de Alliance. É um oficial de polícia aposentado da polícia de Nova York, ex-militar do Exército dos Estados Unidos, assim como fundador e CEO da Equalizer Private Investigations & Security Services Inc., uma agência licenciada em Nova York e Flórida, com projeção internacional. Desde 1999, tem liderado investigações em casos de narcóticos, homicídios e pessoas desaparecidas, além de participar da defesa penal tanto a nível estatal quanto federal. Especialista em casos internacionais e multijurisdicionais, coordenou operações na América do Norte, Europa e América Latina.

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Sergio Berensztein, Fabián Calle, Pedro von Eyken, José Daniel Salinardi, William Acosta, junto a um destacado grupo de jornalistas e analistas da América Latina, Estados Unidos e Europa.

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