OS TRÊS ATIVOS DO MODELO CUBANO
O regime cubano, desde os anos setenta, desenvolveu o que os analistas de inteligência denominam "facilitação estatal do narcotráfico". Não se trata de um cartel tradicional. Trata-se de algo mais sofisticado: um Estado soberano que coloca à disposição de organizações criminosas seu território, infraestrutura militar, frequências de rádio, espaço aéreo e rede de inteligência, em troca de dinheiro, armas, influência política e a possibilidade de desestabilizar seus adversários, especialmente os Estados Unidos.
O que Cuba tem que nenhum cartel pode comprar facilmente é soberania. Quando um avião carregado de cocaína aterrissa no território cubano, não há invasão possível. Quando um fugitivo acusado de fraude milionária em Miami atravessa o Estreito da Flórida, a extradição se torna virtualmente impossível. Quando dezenas de milhões de dólares lavados terminam em contas de bancos cubanos, nenhum juiz da Flórida tem jurisdição para recuperá-los.
A distinção analítica central é esta: há uma diferença fundamental entre um Estado que tolera o narcotráfico —corrupção passiva— e um Estado que o instrumentaliza como política ativa. As evidências disponíveis colocam Cuba com clareza na segunda categoria.
O modelo repousa sobre três vantagens estruturais que nenhum cartel pode replicar por si só. A primeira é o território soberano: seus cays, costas e espaço aéreo estão fora do alcance da DEA e da Guarda Costeira, e oferecem corredores seguros para a Flórida e Europa. A segunda é a capacidade de inteligência e contrainteligência: a Direção de Inteligência cubana, herdeira do G-2, protege seus parceiros criminosos contra infiltrações, atribui frequências de rádio especiais e garante cobertura operacional ativa. A terceira, e talvez a mais valiosa, é a impunidade jurídica permanente: sem tratado de extradição e sem vontade política de entrega, Cuba oferece um santuário onde a prisão deixa de ser inevitável.
O MARIEL: QUANDO O REGIME EXPORTOU SEU PROBLEMA (1980)
Entre abril e outubro de 1980, o regime cubano organizou o êxodo do Mariel, no qual aproximadamente 125.000 pessoas chegaram aos Estados Unidos. O que muitos ignoram é que o regime não simplesmente abriu uma válvula: controlou ativamente quem subia nos barcos, incluindo prisioneiros comuns, pacientes psiquiátricos e pessoas catalogadas como "antisociais", como uma operação política deliberada.
Diplomatas americanos presentes durante o êxodo, registrados nos arquivos da Associação para o Estudo Diplomático e de Treinamento (ADST), descrevem como as autoridades cubanas classificaram os detentos em categorias e dosaram quantos criminosos e doentes mentais incluiriam em cada remessa ("Uma Inundação de Migrantes Cubanos — O Êxodo do Mariel, Abril-Outubro de 1980", ADST, 25 de abril de 2015). Não foi uma fuga. Foi um envio dirigido. Como documentou um desses diplomatas: "O regime não simplesmente deixou as pessoas irem. Escolheu exatamente quem mandar."
Os números federais posteriores revelam o tamanho real do que Cuba programou: dos 125.000 que chegaram, entre 16.000 e 20.000 tinham antecedentes criminais segundo estimativas do Sun Sentinel de 1985, coletadas na entrada da Wikipedia sobre o êxodo do Mariel. Cerca de 1.869 terminaram detidos na penitenciária federal de Atlanta, segundo o Atlanta History Center. Um acordo bilateral assinado em 14 de dezembro de 1984 identificou 2.746 pessoas para serem retornadas a Cuba, segundo o comunicado da Casa Branca daquele mesmo dia (Biblioteca Presidencial Reagan, "Declaração do Secretário de Imprensa Principal Speakes sobre um Acordo com Cuba Relativo a Questões de Imigração e Refugiados") e confirmado pelo New York Times de 15 de dezembro de 1984.
Para as comunidades que viveram aquele período, o Mariel não foi uma crise migratória: foi a transferência forçada do problema carcerário de um Estado para outro, com custo pago por civis que não tiveram voz nem voto na decisão. Por trás de cada um desses 125.000 chegados há uma história humana que as estatísticas não capturam completamente: famílias de Miami que receberam em suas casas pessoas que nunca pediram para vir, comunidades que absorveram uma crise que não criaram.
Sobre o Autor
William L. Acosta é graduado da PWU e da Universidade de Alliance. É um oficial de polícia aposentado da polícia de Nova York, ex-militar do Exército dos Estados Unidos, assim como fundador e CEO da Equalizer Private Investigations & Security Services Inc., uma agência licenciada em Nova York e na Flórida, com projeção internacional. Desde 1999, tem liderado investigações em casos de narcóticos, homicídios e pessoas desaparecidas, além de participar da defesa penal tanto em nível estadual quanto federal. Especialista em casos internacionais e multijurisdicionais, coordenou operações na América do Norte, Europa e América Latina.

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