O anúncio foi solene, medido e cuidadosamente encenado. Desde a sede do Tribunal Supremo de Justiça e sem a presença da imprensa, a presidente encarregada da Venezuela, Delcy Rodríguez, comunicou duas decisões de alto impacto político: o fechamento do El Helicoide e o impulso de uma lei de anistia para presos políticos. Em um país acostumado a anúncios grandiloquentes, a mensagem buscou transmitir ordem, controle e vontade de normalização.
O fechamento do El Helicoide toca uma fibra profunda da história recente venezuelana. Durante anos, aquele edifício condensou o lado mais sombrio do poder estatal: detenções arbitrárias, denúncias de tortura, isolamento e medo. Sua mera existência funcionou como um aviso. Por isso, seu fechamento não pode ser lido como um fato administrativo nem como uma simples mudança de destino edilício. Fechar o El Helicoide implica, ao menos no plano simbólico, admitir que ali foram cometidos abusos graves e sistemáticos.
No entanto, o problema não reside no anúncio, mas em seu alcance. Um centro de tortura pode ser fechado por decreto, mas as práticas que o tornaram possível não desaparecem automaticamente. Enquanto não houver garantias institucionais, responsabilidades políticas claras e mecanismos de não repetição, o risco é que o fechamento funcione como uma operação de limpeza narrativa mais do que como um ponto de inflexão real.
A lei de anistia anunciada se move nessa mesma zona de ambiguidade. O discurso oficial invoca a convivência, o respeito e a necessidade de deixar para trás a confrontação. Mas a convivência genuína não é decretada, é construída, e começa por um princípio básico: ninguém deveria estar preso por pensar diferente. Qualquer anistia que não conduza à libertação plena e sem condicionamentos de todas as pessoas detidas por razões políticas nasce incompleta.
As experiências anteriores alimentam o ceticismo. Muitas excarcelamentos na Venezuela foram acompanhados por medidas restritivas que prolongam a punição fora da prisão. Proibições de declarar, limitações para circular, controles judiciais permanentes. Liberdades frágeis, vigiadas, reversíveis. Sob esse esquema, a anistia corre o risco de se tornar uma ferramenta de administração do conflito e não uma solução de fundo.
O contexto internacional explica parte da urgência. Os Estados Unidos condicionaram explicitamente qualquer avanço na relação bilateral a sinais concretos em matéria de direitos humanos e libertação de detidos. A pressão econômica e diplomática é real e crescente. Nesse quadro, o fechamento do El Helicoide e a anistia funcionam também como mensagens para fora, destinadas a mostrar disposição para a mudança sem alterar os equilíbrios internos do poder.
Os números voltam a desnudar o problema. Os números oficiais sobre liberações não coincidem entre si e se afastam dos levantamentos das organizações de direitos humanos. Essa lacuna não é técnica nem casual. É política. Reflete uma lógica de opacidade que choca frontalmente com qualquer pretensão de reconciliação autêntica.
O caso dos cidadãos estrangeiros detidos na Venezuela, entre eles argentinos, reforça essa percepção. Os pedidos de mediação internacional evidenciam que a confiança nos canais institucionais internos é limitada. E quando a justiça não gera confiança, a anistia perde credibilidade.
Desde 2014, mais de 18.000 pessoas foram detidas por motivos políticos na Venezuela. Milhares recuperaram a liberdade, mas muitas continuam submetidas a restrições que condicionam seu dia a dia. Esse dado deveria ser suficiente para fixar um piso ético inegociável. Não basta liberar alguns nem fechar um edifício emblemático. A única saída legítima é a liberdade plena para todos os detidos injustamente e o fim da perseguição política como método de governo.
Fechar o El Helicoide pode ser um passo necessário. Impulsionar uma anistia também. Mas nenhum dos dois gestos será suficiente se não vier acompanhado por uma decisão mais profunda e mais incômoda para o poder. A de aceitar que não há convivência possível enquanto existir um só preso político. A história recente da Venezuela, e a experiência daqueles que ainda esperam justiça, deixa isso claro.

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