A DZ Mafia deixou de ser uma simples gangue de bairro nos subúrbios do norte de Marselha para se tornar um cartel urbano com ambição nacional e internacional, capaz de controlar territórios, impor o terror, infiltrar-se em instituições e conectar-se com as grandes rotas europeias da cocaína (Le Monde 2024; Wikipédia 2024). Sob a marca “DZ Mafia”, um núcleo de chefes – entre os quais se destacam Amine Oualane, conhecido como “Mamine” ou “Jalisco”, Gabriel Ory, apelidado de “Gaby”, e Madhi Zardoum, alias “la Brute” – construiu uma organização criminosa que misturou códigos das gangues locais com estratégias importadas da Mocro Maffia neerlandesa-marroquina e dos cartéis latino-americanos (Le Monde 2026; Endeweld 2026; Wikipédia 2024). Durante mais de uma década, essa estrutura conseguiu impor sua lei em amplas zonas da cidade até que o Estado francês decidiu contra-atacar com a Operação Octopus, concebida pelo fiscal de Marselha, Nicolas Bessone, como um golpe direto ao coração do grupo (RTL 2026; Gendarmerie Nationale 2026).
Origem e ascensão da DZ Mafia
Nos anos 2010 e 2020, Marselha se consolidou como um dos epicentros da violência ligada ao narcotráfico na Europa, com numerosos acertos de contas, carros incendiados e assassinatos relacionados com o controle do mercado de drogas (France 24 2023; Valeurs Actuelles 2026). Nesse contexto, surgiu a DZ Mafia, um conjunto de organizações criminosas que, segundo a enciclopédia francesa, se estruturou como um único cartel originário dos bairros do norte, acusado de assassinatos a sueldo, tráfico de estupefacientes, sequestros e outros delitos graves (Wikipédia 2024). O relato de Le Monde detalha como Amine Oualane e Gabriel Ory tomaram o controle da cité du Castellas e fundaram ali sua própria gangue, “Castellas Del Jalisco”, estendendo depois seu domínio a outras zonas como a Cité de la Visitation e as Aygalades (Le Monde 2024; Wikipédia 2024).
A organização converteu suas siglas em uma marca criminosa reconhecível, associada a vídeos de execuções, mensagens de reivindicação e símbolos que circulam nas redes sociais, uma estratégia que reforça a reputação de perigosidade e atrativo entre os jovens recrutados (Le Monde 2024; Blast 2025). Esse uso deliberado da imagem e do terror midiático, unido a uma divisão do trabalho que inclui chefes, comandos intermediários, sicários adolescentes, “tesoureiros” e responsáveis logísticos, aproxima muito mais a um cartel urbano do que a uma simples gangue juvenil (Le Monde 2024; Le Diplomate 2025).
A investigação que deu origem a Octopus
Diante da acumulação de homicídios e do peso crescente da DZ Mafia, a justiça francesa decidiu passar de expedientes isolados a uma ofensiva estrutural contra a organização (Gendarmerie Nationale 2026; Le Figaro 2026). No início de 2024, foi aberta uma investigação judicial dedicada especificamente à DZ, inicialmente nas mãos da polícia judicial de Marselha e posteriormente trasladada à Gendarmerie, em particular à Section de recherches, dada a sensibilidade e o alcance do caso (Le Figaro 2026; Le JDD 2026). O expediente recebeu o nome de “Operação Octopus”, em referência ao polvo e à percepção do grupo como um corpo central com múltiplos tentáculos: narcotráfico, homicídios, redes de branqueamento, subgrupos, relações com outras mafias e possíveis vetores de corrupção institucional (Gendarmerie Nationale 2026; TF1 Info 2025).
O fiscal Nicolas Bessone, procurador da República em Marselha, explicou que o objetivo era “tocar o coração da organização”, ou seja, apontar não só para os vendedores de rua, mas para os líderes, os quadros intermediários e o aparato econômico que sustenta a estrutura (RTL 2026; TF1 Info 2026; Le Figaro 2026). A investigação se apoiou em dezoito meses de escuta, vigilância técnica, análise de fluxos econômicos e sonorização de espaços, incluindo celas de detidos considerados chefes, como Madhi Zardoum (“la Brute”), encarcerados por diversos fatos vinculados ao tráfico e a projetos criminosos (Ouest-France 2026; Le Monde 2026). Além disso, foi aplicada uma figura penal criada pela lei de junho de 2025 que permite perseguir a mera participação em uma organização criminosa, mesmo que não tenha sido provada a implicação direta do acusado em um delito concreto, o que amplia o alcance da imputação dentro da galáxia DZ (RTL 2026).
Um golpe preparado durante anos
Antes da grande operação de 2026, o Estado francês já havia atacado o “portfólio” financeiro do grupo. Em setembro de 2025, o Ministério Público de Marselha anunciou o desmantelamento de uma ampla rede internacional de branqueamento que transformava milhões de euros provenientes, entre outras origens, do narcotráfico marselhês em ouro (TF1 Info 2025). Segundo essa investigação, equipes de origem síria e magrebina transferiam dinheiro vivo da França para a Itália em veículos com compartimentos ocultos; lá intermediários kosovares e do Oriente Médio o convertiam em ouro antes de enviá-lo a países como Kosovo e Turquia (TF1 Info 2025). As autoridades precisaram que várias das pessoas implicadas na rede estavam diretamente vinculadas à DZ Mafia, o que pôs de relevo a dimensão transnacional da sua economia criminosa (TF1 Info 2025; Valeurs Actuelles 2026).
Enquanto isso, distintos reportagens foram perfilando a DZ como “o grupo criminal mais estruturado e perigoso” do panorama francês, com presença em outras cidades do eixo do Ródano, como Nîmes, Alès ou Clermont-Ferrand (Endeweld 2026; Le Diplomate 2025). Um informe confidencial do serviço de inteligência criminal SIRASCO, citado por Marc Endeweld, a qualificou mesmo de cartel e advertiu de sua “vontade de debilitar a democracia” mediante pressão sobre as instituições, guerras territoriais e corrupção (Endeweld 2026).
Março de 2026: 42 detenções e 26 imputações
A Operação Octopus entrou em sua fase decisiva no início de março de 2026. Durante dois dias, a Gendarmaria Nacional desployou cerca de 900 agentes em Marselha e outros pontos do território, com apoio do GIGN e meios aéreos, para uma série de registros e arrestos simultâneos (Gendarmerie Nationale 2026; M6 Info 2026). O resultado imediato foi a detenção de 42 pessoas suspeitas de pertencer à DZ Mafia ou de colaborar com seu aparato de narcotráfico, violência e branqueamento (RTL 2026; TF1 Info 2026; Le Figaro 2026). Entre elas figuravam três chefes presumidos ou “chefs” apontados como figuras centrais da organização: Amine Oualane (“Mamine”), Gabriel Ory (“Gaby”) e Madhi Zardoum (“la Brute”), detidos ou já encarcerados por distintos expedientes relacionados com tráfico e violência (Endeweld 2026; Le Monde 2026).
No dia 14 de março de 2026, Nicolas Bessone compareceu publicamente para anunciar que, dessas 42 pessoas, 26 haviam sido colocadas em exame, enquanto 15 foram enviadas a detenção provisória e 11 ficaram sob controle judicial (RTL 2026; TF1 Info 2026; Le Figaro 2026). Os cargos incluem participação em organização criminosa, tráfico de estupefacientes, branqueamento agravado e, em alguns casos, uso da nova figura penal de participação em organizações mafiosas sem necessidade de vincular cada caso a um delito específico (RTL 2026). Bessone sublinhou que a investigação não concluía com essa primeira onda de imputações, mas que continuariam as diligências para remontar os circuitos de lavagem e as conexões da DZ com outras redes (Le Figaro 2026; Gendarmerie Nationale 2026).
Corrupção institucional: o advogado que cruzou a linha
Um dos elementos que mais impacto produziu na opinião pública foi a inculpação e encarceramento de um advogado em exercício, acusado de haver sido corrompido pela DZ Mafia (RTL 2026; TF1 Info 2026; Le Figaro 2026). Segundo a informação revelada pela fiscalia e recolhida por vários meios, esse advogado teria facilitado comunicações clandestinas entre um chefe da organização encarcerado em uma prisão de alta segurança e o exterior, utilizando seu status profissional e o segredo advogado-cliente como cobertura (TF1 Info 2026; Le Figaro 2026). O caso é ainda mais sensível porque seu escritório se encontrava em situação de dificuldade financeira, submetido a procedimento de reestruturação, o que poderia ter aumentado sua vulnerabilidade às ofertas ou pressões do grupo (Endeweld 2026).
No relato do caso, este advogado se torna símbolo da possibilidade real de infiltração do cartel no aparato judicial. A DZ não só domina bairros e pontos de venda, mas trata de explorar as fissuras do sistema – medo, dinheiro, fragilidades econômicas – para manter seu comando mesmo desde o interior de uma prisão (RTL 2026; Le Figaro 2026; Endeweld 2026). A Operação Octopus torna visível essa ameaça, ao mesmo tempo que obriga o Estado a revisar seus mecanismos de controle sobre as comunicações e o uso do segredo profissional em contextos de crime organizado.
Estrutura interna: chefes, subgrupos e “nova geração”
As principais fontes descrevem a DZ Mafia como um conjunto de organizações articuladas em um cartel único, com diferentes níveis de comando e subestruturas (Wikipédia 2024; Le Monde 2024; Le Diplomate 2025). Na cúspide se situam chefes como Amine Oualane (“Mamine” ou “Jalisco”), Gabriel Ory (“Gaby”) e Madhi Zardoum (“la Bru
te”), apresentados por investigadores e jornalistas como figuras centrais da organização pelo menos desde o início dos anos 2020 (Le Monde 2026; Endeweld 2026). Por debaixo operam comandantes intermediários encarregados dos pontos de venda, da disciplina interna, da logística de armas e veículos, e da gestão de grandes quantias de dinheiro; mais abaixo, jovens recrutas se ocupam de tarefas de vigilância, transporte e execuções, em uma divisão do trabalho que lembra o funcionamento de um cartel (Le Monde 2024; Valeurs Actuelles 2026; Blast 2025).
A DZ conseguiu também multiplicar suas “marcas internas”. Após a tomada da cité du Castellas, Oualaney Ory fundaram o gang “Castellas Del Jalisco”, nome que remete diretamente ao Cártel de Jalisco Nova Geração (CJNG) e que evidencia uma apropriação consciente do imaginário dos cartéis mexicanos (Wikipédia 2024; Le Monde 2024; Le Figaro 2026). Mais recentemente, surgiu a “DZ Nouvelle Génération” (DZ‑NG), associada a figuras como Mehdi L. (“Tic”) e Walid B. (“Fondu”), que, segundo Le Monde e Sud Radio, encarna uma nova camada disposta a disputar o legado historístico da DZ (Le Monde 2026; Sud Radio 2026; Valeurs Actuelles 2026). Essa proliferação de siglas permite à organização fragmentar-se, adaptar-se e continuar operando mesmo quando alguns quadros históricos estão encarcerados.
Alianças, rotas e limites probatórios
As fontes disponíveis documentam alianças operativas da DZ Mafia com outras organizações criminosas, principalmente no espaço europeu. Vários análises apontam relações com a Mocro Maffia neerlandesa-marroquina, que controla partes chave do tráfico de cocaína entre a América do Sul e a Europa, e descrevem a DZ como um parceiro no trecho francês de recepção e distribuição (Le Monde 2024; Le Monde 2023). Também foram mencionadas relações eventuais com redes de criminalidade corsa, especialmente sobre acertos de contas e distribuição de territórios, embora sem se configurar como uma estrutura unificada (Valeurs Actuelles 2025). A nível local, a própria trajetória do grupo inclui episódios em que a organização coloca seus sicários à disposição de clãs como o de La Castellane para perseguições ou vinganças concretas, o que constitui um negócio criminal por encomenda (Wikipédia 2024).
Quanto a América Latina, reportagens e documentários sobre narcotráfico na França explicam que a cocaína que alimenta o mercado marselhês provém de países andinos como Colômbia, e que a Venezuela se tornou um hub de trânsito para a Europa (CNN 2019; France 24 2025; TF1 Info 2025). Algumas peças de vídeo e imprensa mencionam explicitamente carregamentos que saem da Colômbia e chegam ao porto de Marselha, onde redes como a DZ dominariam a distribuição local. No entanto, as fontes abertas não chegam identificar acordos contratuais diretos entre a DZ e cartéis específicos colombianos ou venezuelanos, portanto, falar de “negócios” concretos com, por exemplo, o Cartel de Sinaloa ou o CJNG, iria além do que se pode provar publicamente (Le Monde 2024; The Mexpatriate 2025; IRIS 2025).
Conclusão
A Operação Octopus marca um ponto de inflexão na relação entre o Estado francês e a DZ Mafia. Pela primeira vez, a resposta abandona o enfoque puramente reativo e se orienta para desmontar a estrutura completa: líderes como Amine Oualane, Gabriel Ory e Madhi Zardoum; subgrupos como “Castellas Del Jalisco” e “DZ Nouvelle Génération”; quadros intermediários, “tesoureiros” e responsáveis por logística; aliados circunstanciais; redes de lavagem em vários países; e até mesmo um advogado que teria cruzado a linha da sua profissão para se tornar um vetor de corrupção (RTL 2026; Le Figaro 2026; Endeweld 2026). A dimensão espetacular da operação –42 detenções, 26 imputações, 15 detenções preventivas, quase 900 gendarmes mobilizados, milhões de euros e bens de luxo confiscados– envia a mensagem de que o Estado não se enfrenta a uma banda de bairro, sino a um cartel urbano de alto nível (Gendarmerie Nationale 2026; TF1 Info 2026; Le JDD 2026).
Ao mesmo tempo, o caso deixa claro que o problema não se resolve com um único golpe. Enquanto avanços nos processos judiciais, a imprensa francesa descreve uma recomposição interna do panorama criminal marselhês, com a “DZ Nouvelle Génération” ganhando peso e outros atores tentando ocupar os espaços deixados pelos membros encarcerados (Le Monde 2026; Sud Radio 2026; Valeurs Actuelles 2026). Os “acertos de contas” tiveram uma redução em comparação com os piores anos, mas não desapareceram, o que indica que o ecossistema que permitiu a emergência da DZ continua vivo (Valeurs Actuelles 2026; France 24 2023). O desfecho dos juízos, a capacidade do Estado de continuar atacando os circuitos de lavagem e a sua eficácia para proteger as instituições contra a corrupção determinarão se Octopus será lembrada como o início do fim da DZ Mafia ou apenas como uma página-chave na longa guerra entre um cartel urbano europeu e um Estado que busca acompanhar a sua altura
Referências
Gendarmerie Nationale. « Opération “Octopus” : novo golpe de operação contra a “DZ mafia” ». GendInfo, 13 março 2026. Disponível em: https://www.gendarmerie.interieur.gouv.fr/gendinfo/criminalite-organisee-et-enquetes/2026/operation-octopus-nouveau-coup-de-filet-contre-la-dz-mafia
Le Figaro. « Coup de operação contra a DZ Mafia : 26 pessoas sujeitas a exame, um advogado suspeito de complicidade preso ». 13 março 2026. Disponível em: https://www.lefigaro.fr/marseille/operation-visant-a-decapiter-la-dz-mafia-26-personnes-mises-en-examen-20260314
Le Journal du Dimanche. « Opération “Octopus” : o grande golpe contra a DZ Mafia em Marselha ». 15 março 2026. Disponível em: https://www.lejdd.fr/Societe/operation-octopus-le-grand-coup-de-filet-contre-la-dz-mafia-a-marseille-168864
Valeurs Actuelles. « DZ Mafia : entre processos e divisões, qual futuro para o grupo criminal ». 2 abril 2026. Disponível em: https://www.valeursactuelles.com/clubvaleurs/regions/provence-alpes-cote-dazur/bouches-du-rhone/aix-en-provence/faits-divers/dz-mafia-entre-proces-et-scissions-quel-futur-pour-le-groupe-criminel
Sud Radio. « A DZ-NG, a nova ameaça do narcotráfico em Marselha ». 29 março 2026. Disponível em: https://www.sudradio.fr/societe/narcotrafic-la-dz-mafia-nouvelle-generation-veut-prendre-le-pouvoir-a-marseille
Wikipédia. « DZ Mafia ». Última atualização: 3 fevereiro 2024. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/DZ_Mafia
Endeweld, Marc. « Vasto golpe de operação policial contra uma DZ Mafia em plena recomposição ». The Big Picture (Substack), 13 março 2026. Disponível em: https://marcendeweld.substack.com/p/vaste-coup-de-filet-policier-dans
Endeweld, Marc. « A DZ Mafia se expande na França e mostra “uma vontade de enfraquecer a democracia” ». The Big Picture (Substack), 12 janeiro 2026. Disponível em: https://marcendeweld.substack.com/p/la-dz-mafia-setend-en-france-et-montre
Blast. « Narcotráfico, uma história da DZ Mafia – Episódio 3: A nova era do narcocapitalismo ». 17 dezembro 2025. Disponível em: https://www.blast-info.fr/articles/2025/narcotrafic-une-histoire-de-la-dz-mafia-episode-3-la-nouvelle-ere-du-narcocapitalisme-dPp3tH3cQYqK
Le Diplomate. « DZ Mafia Marseille : As novas dinâmicas criminais ». 25 novembro 2025. Disponível em: https://lediplomate.media/analyse-dz-mafia-anatomie-cartel-urbain-ramifications-geopolitiques-narcotrafic-europeen/
Sobre o Autor
William L. Acosta é graduado da PWU e da Universidade de Alliance. Ele é um oficial de poliţcia aposentado da poliţcia de Nova York, ex-militante do Exército dos Estados Unidos, além de ser o fundador e CEO da Equalizer Private Investigations & Security Services Inc., uma agência licenciada em Nova York e na Florida, com projeção internacional. Desde 1999, ele tem liderado investigações em casos de narcóticos, homicídios e pessoas desaparecidas, além de participar na defesa penal tanto a nível estadual quanto federal. Especialista em casos internacionais e multi jurisdicionais, ele tem coordenado operações na América do Norte, Europa e América Latina.

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