Houve um tempo em que esta casa estava cheia.
O Domingo de Páscoa significava algo aqui. Era o ponto de encontro. As portas permaneciam abertas, a cozinha não descansava e as mesas se enchiam de mais comida do que qualquer um poderia precisar. Não faltava vinho, cerveja ou risadas. Tudo fluía naturalmente.
As crianças… viviam para esse dia.
Correndo por estes corredores com uma alegria que só as crianças conhecem, procurando ovos coloridos escondidos por todo o jardim. Mas era o ovo dourado que todos queriam—o mais difícil de encontrar, com uma nota de vinte dólares dobrada dentro. Esse era o prêmio. Esse era o tesouro.
As risadas delas preenchiam cada canto da casa. Fortes. Transbordantes. Às vezes quase insuportáveis.
Mas no final do dia, aquele barulho… era tudo.
Porque elas eram felizes.
E esse era meu dever.
Garantir que fossem felizes em dias como a Páscoa.
E antes de tudo isso… estava ela.
Ainda penso em minha avó na cozinha, preparando cuidadosamente sua receita especial de ovos recheados—daqueles que apenas ela sabia fazer. Era seu ritual. Sua maneira de se entregar ao dia. A Páscoa era uma de suas festividades favoritas.
Ela adorava os lírios de Páscoa.
Posso ainda vê-los… brilhantes, delicados, cheios de vida, descansando na casa enquanto todo o resto se movia ao seu redor. Igual a ela.
Sinto sua falta.
E nestas datas de Páscoa, penso nela mais do que nunca.
Hoje foi diferente.
A casa estava em silêncio.
Não havia passos correndo pelo corredor. Não havia vozes chamando do pátio. Não havia risadas batendo nas paredes. Apenas silêncio… aquele que se instala suavemente, mas fica.
E ainda assim, há paz nisso.
Porque aquelas mesmas crianças—que um dia correram por esta casa procurando um ovo dourado—hoje têm seus próprios filhos. Agora são elas que escondem os ovos, que criam as risadas, que constroem as memórias.
O ciclo continua.
Então, esta noite estou aqui, com uma taça de vinho, rodeado não de barulho, mas de lembranças. E me pego sorrindo… não apenas pelo que foi, mas pelo que continua sendo.
Porque em algum lugar, não muito longe daqui, outra casa está cheia.
Outra cozinha está viva.
Outro grupo de crianças está rindo.
E talvez, em algum canto, haja uma avó preparando algo especial… e um vaso com lírios recebendo a luz.
E um dia, elas também olharão para trás e lembrarão de um lugar como este…
uma casa cheia de amor, de barulho e da simples alegria de estar juntos.
Leo Silva é ex-agente especial encarregado da DEA (Escritório de Monterrey) e autor de Reign of Terror e El Reinado de Terror. Com décadas de experiência na linha de frente da luta contra os cartéis transnacionais, Silva oferece aos leitores um olhar íntimo sobre algumas das operações mais perigosas dirigidas contra líderes e organizações de alto nível.
Desde a publicação de suas memórias, Silva se tornou uma voz reconhecida na mídia e no circuito de palestras. Sua história e suas análises foram apresentadas em entrevistas com o jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer Jorge Ramos na Univision (Assim vejo as coisas), o jornalista três vezes vencedor do Emmy Paco Cobos (A Entrevista), e Ana Paulina (Vozes com Ana Paulina), onde sua participação gerou milhões de visualizações. Também foi convidado em plataformas destacadas como o podcast Cops and Writers com Patrick J. O’Donnell, Game of Crimes com Steve Murphy e Chamados a Servir com Roberto Hernández.
Através de seus livros, palestras e aparições na mídia, Silva continua iluminando as realidades do crime organizado, o trabalho das forças de ordem e o custo humano da guerra contra as drogas, ao mesmo tempo em que compartilha lições de resiliência, liderança e veracidade.

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