Há 23 dias - Política e Sociedade

O ressurgimento da direita e as eleições europeias

Por Uriel Manzo Diaz

O ressurgimento da direita e as eleições europeias

Causas do ressurgimento da direita

Insatisfação económica e social

Uma das principais causas da ascensão da direita é o descontentamento económico e social que se intensificou na última década. A crise financeira de 2008, seguida da pandemia de COVID-19, deixou muitas economias a cambalear e grandes segmentos da população desiludidos com as políticas económicas tradicionais. Neste contexto, os líderes de direita capitalizaram o descontentamento prometendo reformas radicais, austeridade fiscal e um afastamento das políticas de globalização que, segundo eles, beneficiaram uma elite em detrimento da classe trabalhadora.

Nacionalismo e soberania

O ressurgimento do nacionalismo também tem sido um fator crucial. A perceção de uma perda de soberania face aos organismos supranacionais e à imigração alimentou os sentimentos nacionalistas. Na Europa, o Brexit é um exemplo claro de como estes sentimentos podem moldar os resultados políticos. Líderes como Marine Le Pen, em França, e Georgia Meloni, em Itália, aproveitaram este fervor, defendendo políticas mais rigorosas de controlo das fronteiras e uma maior autonomia em relação à União Europeia.

Rejeição da correção política e da globalização cultural

Outra caraterística da ascensão da direita tem sido a rejeição do que consideram ser um excesso de correção política e uma globalização cultural que dilui as identidades nacionais. Esta rejeição tem-se manifestado no apoio a políticas que promovem valores tradicionais e na resistência a mudanças sociais rápidas, especialmente em questões de género e direitos LGBT+.

Exemplo de ascensão da direita:

Argentina: Javier Milei

A eleição de Javier Milei como presidente da Argentina representou uma mudança radical na política do país. Milei, um economista libertário conhecido pelas suas posições extremas contra a despesa pública e pela sua defesa do mercado livre, prometeu desmantelar grande parte do aparelho de Estado argentino. A sua ascensão reflecte o cansaço dos argentinos em relação à classe política tradicional, num contexto de crise económica e de inflação elevada.

França: Marine Le Pen

Marine Le Pen levou a Frente Nacional (agora Rally Nacional) a tornar-se uma das principais forças políticas em França. A sua retórica anti-imigração, as suas críticas à União Europeia e a sua defesa do protecionismo económico tiveram eco junto de um eleitorado que se sente ameaçado pela globalização e pela imigração. Embora Le Pen não tenha conseguido ganhar a presidência, o seu apoio crescente obrigou os outros partidos a endurecerem as suas posições em matéria de imigração e segurança.

A recente vitória do Rally Nacional nas eleições europeias, com um resultado histórico de 31,5% dos votos, desencadeou uma crise política em França. Este resultado levou o Presidente Emmanuel Macron a dissolver a Assembleia Nacional e a convocar novas eleições, numa tentativa de clarificar uma situação política incerta e estabilizar o país. Macron advertiu que a ascensão de nacionalistas e demagogos representa um perigo para a França e para a Europa.

Itália: Giorgia Meloni

Em Itália, Giorgia Meloni emergiu como uma importante figura de direita com o seu partido Irmãos de Itália. Meloni, a primeira mulher a ser primeira-ministra em Itália, baseou a sua política num forte nacionalismo, no conservadorismo social e no ceticismo em relação à União Europeia. A sua ascensão reflecte uma rejeição da política tradicional italiana e uma exigência de uma posição mais dura em relação à imigração e à soberania nacional. Meloni prometeu revitalizar a economia italiana e reforçar os valores tradicionais, conquistando assim um amplo apoio num país que assistiu a uma série de crises políticas e económicas na última década.

Europa: um quadro amplo e diversificado

Na Europa, a ascensão da direita é evidente em vários países. Na Alemanha, a social-democracia do chanceler Olaf Scholz foi severamente afetada nas últimas eleições, ficando em terceiro lugar atrás da oposição democrata-cristã e da extrema-direita neonazi Alternativa para a Alemanha (AfD). Este resultado reflecte a crescente insatisfação com o atual governo, especialmente no contexto de uma grave crise económica exacerbada pela guerra na Ucrânia.

Na Áustria, o partido de extrema-direita FPÖ obteve mais de 27% dos votos, enquanto em Espanha o Vox aumentou a sua representação, conquistando sete deputados europeus. O Parlamento Europeu espera que grupos radicais de direita como o ECR (Conservadores e Reformistas Europeus) e o ID (Identidade e Democracia) aumentem a sua presença, embora a coligação de centro-direita, centro-esquerda e centro mantenha a maioria.

Brasil: Jair Bolsonaro

No Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro marcou uma viragem à direita após anos de governo do Partido dos Trabalhadores. Bolsonaro, um antigo militar com um discurso populista, tem sido controverso pelas suas declarações sobre direitos humanos, ambiente e a pandemia de COVID-19. A sua presidência tem sido marcada por um enfraquecimento das instituições democráticas e pela controvérsia sobre as suas políticas.

Consequências


Reformas económicas e sociais

Em termos de políticas económicas e sociais, os governos de direita implementaram reformas destinadas a reduzir a dimensão do Estado e a promover o mercado livre. No entanto, estas políticas têm sido frequentemente criticadas por aumentarem as desigualdades e reduzirem as protecções sociais. Na esfera social, as políticas de direita tendem a ser mais conservadoras, com ênfase na segurança, na soberania nacional e na identidade cultural.


Relações internacionais

Nas relações internacionais, a ascensão da direita conduziu a um aumento do nacionalismo e a uma menor cooperação multilateral. Este facto é evidente no abandono dos acordos internacionais, nas críticas às organizações supranacionais e numa abordagem mais unilateral da política externa. Estas tendências podem enfraquecer a ordem internacional baseada em regras e aumentar as tensões entre países.

Por exemplo, os governos de direita na Europa, como o de Viktor Orbán na Hungria, adoptaram políticas que desafiam os valores democráticos tradicionais e geraram fricção na União Europeia. Da mesma forma, a posição de Bolsonaro no Brasil sobre questões ambientais complicou as relações com outros países preocupados com as alterações climáticas.


A ascensão da direita global é um fenómeno complexo que reflecte uma mistura de descontentamento económico, social e cultural. Embora tenha trazido mudanças importantes na política nacional e internacional, também criou desafios formidáveis à estabilidade democrática e à cooperação global. O futuro deste movimento dependerá da sua capacidade de responder às necessidades e preocupações das pessoas sem exacerbar as divisões sociais e políticas existentes.


Deseja validar este artigo?

Ao validar, você está certificando que a informação publicada está correta, nos ajudando a combater a desinformação.

Validado por 0 usuários
Uriel Manzo Diaz

Uriel Manzo Diaz

Olá! Meu nome é Uriel Manzo Diaz e sou Secretário-Geral na Econopolítico, um think tank especializado em política e economia. Atualmente, estou em processo de aprofundar meus conhecimentos em relações internacionais e ciências políticas, e planejo começar meus estudos nestes campos em 2026. Sou apaixonado por política, educação, cultura, livros e temas internacionais.

Meu compromisso com os valores da democracia, liberdade e igualdade guia meu trabalho e minha abordagem profissional. Na Finguru, busco compartilhar análises e perspectivas que promovam um entendimento mais profundo dos desafios e oportunidades na política contemporânea, bem como na educação, cultura e assuntos internacionais, sempre com o objetivo de fomentar um debate informado e construtivo.
Meu instagram é: uri_manzo_diaz

Visualizações: 18

Comentários