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Espionagem na Argentina. Terceira parte. Os seis objetivos da Rússia e os atores ativos (William Acosta)

Por Poder & Dinero

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Os Seis Objetivos da Rússia e os Atores Ativos

Os documentos internos de "A Companhia" são incomumente explícitos em suas metas para a Argentina: primeiro, desacreditar a política pró-ucraniana de Milei e reorientar a posição argentina em relação à guerra; segundo, fomentar divisões dentro do oficialismo e com seus aliados regionais; terceiro, apoiar candidatos da oposição nas legislativas de 2025 por meio de financiamento indireto de narrativas; quarto, promover legislação que impeça a adesão da Argentina ao Grupo de Contato de Amigos da Ucrânia; quinto, gerar conflitos com países vizinhos —operação "Turistas argentinos"; e sexto, coletar inteligência estratégica sobre o complexo militar-industrial argentino e os recursos petrolíferos na Antártida. Este último objetivo revela que a Argentina é para Moscovo um alvo permanente, independentemente do governo em turno.

No dia 28 de dezembro de 2024, três cidadãos russos —Pavel Bandurin, Igor Lomakin e Vitaly Kharlabo— se apresentaram diante do Congresso com um carrinho de bebê, alegando ter perdido um drone capaz de gravar áudio e imagens, que foi encontrado depois em uma varanda do Palácio Legislativo. O caso foi arquivado sem imputações (Perfil, 30 dez. 2024). Andriashvili e Yakovenko, detidos em junho de 2025 e apresentados publicamente pelo porta-voz Manuel Adorni como responsáveis pela rede de desinformação, permanecem em Buenos Aires sem acusações formais no fechamento desta edição.

Os Cômplizes Locais: Corrupção e Ideologia a Serviço do Inimigo

Nenhuma operação de inteligência estrangeira funciona sem uma rede de apoio local. A eficácia das operações russas e cubanas na Argentina não se explica apenas pela capacidade de seus serviços: explica-se também pela existência de cidadãos argentinos que, por corrupção, por convicção ideológica ou por ambas as razões ao mesmo tempo, facilitaram ativamente seu trabalho. Os expedientes judiciais identificam três categorias de colaboradores: os que falsificaram documentos do Estado, os que canalizaram dinheiro e narrativas sem questionar sua origem, e os que colocaram seu acesso político a serviço de potências estrangeiras.

No primeiro grupo, o caso mais documentado é o de Fabián Horacio Gutiérrez, funcionário do Registro Civil de Viedma, imputado na causa que instrui o juiz Sebastián Ramos por seu suposto papel na rede logística que sustentou os Dultsev durante uma década. Um funcionário público argentino que, segundo a investigação, teria ajudado a gerenciar a infraestrutura documental de dois espiões do SVR operando em solo nacional. Não era um ideólogo. Era uma engrenagem do Estado que alguém comprou. Também figuram na causa Olga Alexandrivska e Ali Kherchi, indicados como parte do esquema que permitiu aos agentes russos operar sem serem detectados (Alconada Mon, La Nación, 13 jul. 2025).

O segundo grupo é mais numeroso e mais difícil de provar judicialmente. Os documentos de A Companhia consignam que seus artigos chegaram aos meios argentinos através de intermediários locais que se apresentavam como consultorias, agências de notícias ou prenseros. Nenhum dos contatados pelo consórcio jornalístico reconheceu vínculo com fontes russas; todos desvincularam a responsabilidade para o próximo elo da cadeia. A pergunta que a investigação ainda não conseguiu responder é quantos atuaram por ignorância genuína —aceitando conteúdo gratuito em um ecossistema midiático precarizado— e quantos sabiam exatamente o que distribuíam e em troca de quê (Alconada Mon, La Nación, 3 abr. 2026).

O terceiro grupo é o mais grave em termos institucionais. Os documentos internos de A Companhia descrevem sessões de análise política que incluíram entrevistas com políticos peronistas, cientistas políticos da oposição e economistas, com o objetivo de identificar fissuras no governo de Milei e financiar indiretamente narrativas que as explorassem. Não se trata de cidadãos que expressaram uma opinião pública: trata-se de atores com acesso ao sistema político que, conscientes ou não, alimentaram com informações estratégicas uma rede de inteligência estrangeira (Torres Cabreros, El País, 3 abr. 2026).

A dimensão ideológica dessa colaboração tem raízes mais longas. O G2 cubano construiu durante décadas, por meio do ICAP —Instituto Cubano de Amizade com os Povos—, uma infraestrutura de associações culturais, redes de solidariedade e espaços acadêmicos afins ao regime que operam na Argentina como base social para suas operações. Não são agentes no sentido técnico do termo. São simpatizantes que abrem portas, difundem mensagens e organizam presença em protestos sem precisar de uma ordem explícita. Segundo o oficial desertor do G2 Enrique García Díaz, o modelo se sustenta em cidadãos integrados que o aparato pode ativar quando precisa de seu acesso, e que raramente sabem que estão sendo utilizados (El Español, nov. 2025).

"Os meios responderam quase sem exceção que não conheciam seus autores e que tinham sido oferecidos gratuitamente por um terceiro, que descreveram como consultoria, agência, prensero ou intermediário." — Consórcio O'Donnell / openDemocracy / Filtraleaks, abril de 2026

O que o conjunto desses casos revela é uma arquitetura de cumplicidade que vai desde a corrupção burocrática de baixo nível —um funcionário do Registro Civil que adulterou documentos— até a influência sobre decisões de Estado: um diplomata que durante quarenta anos orientou a política externa da potência mais importante do hemisfério em benefício de Cuba. Entre os dois extremos há jornalistas que publicaram sem perguntar, intermediários que cobraram sem investigar e políticos que falaram com quem não deviam. Nenhum figura nas manchetes como espião. Todos foram, em distinta medida, parte do sistema que torna possível a espionagem estrangeira na Argentina.

A Contrainteligência Argentina: Entre a Reforma e a Paralisia

Enquanto a Rússia e Cuba operavam com metodologia, orçamento e paciência estratégica, a contrainteligência argentina atravessava dois anos de reorganização institucional intensa —e, segundo seus próprios críticos, politicamente ambígua. A pergunta que percorre os expedientes abertos não é só quem são os espiões: é por que demorou tanto o Estado em percebê-los, e que capacidade real tem hoje de desmantelá-los.

O diagnóstico oficial é contundente. Quando o governo de Milei chegou ao poder em dezembro de 2023, o sistema de inteligência argentino acumulava funções sobrepostas, estruturas superdimensionadas, incapacidade de integrar informações dispersas em diferentes órgãos e zonas de incerteza normativa que datavam de décadas. A resposta foi uma reforma em dois tempos: o Decreto 614/2024, que reorganizou a estrutura básica, e o Decreto 941/2025, assinado em 31 de dezembro desse ano, que redefiniu radicalmente a arquitetura do sistema (Infobae, 2 jan. 2026).

A mudança mais relevante para o caso que documenta este artigo foi a transformação da Agência de Segurança Nacional na Agência Nacional de Contrainteligência (ANC), com mandato exclusivo de identificar e analisar ameaças à segurança estratégica nacional: espionagem, sabotagem, ingerência e influência por parte de atores externos, estatais ou não estatais. Pela primeira vez em sua história democrática, a Argentina tem um organismo formalmente dedicado à contrainteligência. O Decreto 864/2025, aprovado em dezembro, estabeleceu ainda a primeira Política de Inteligência Nacional formal em mais de vinte anos, que classifica explicitamente Vaca Muerta, o lítio, a plataforma marítima e a Antártida como recursos que o sistema de inteligência deve proteger de atores que buscam acessá-los por meios não convencionais (DEF Online, 12 dez. 2025).

Os resultados concretos dessa nova arquitetura são, até agora, parciais. A SIDE detectou a rede de Andriashvili e Yakovenko em outubro de 2025 e os apresentou publicamente em junho desse ano. Os identificou. Os nomeou. Não os processou. No caso Dultsev, a investigação judicial está ativa desde 2022 com três imputados na rede logística local e seis suspeitos vinculados ao GRU —sem que nenhum tenha sido formalmente imputado na Argentina ao fechamento desta edição. O drone sobre o Congresso foi encontrado, os três cidadãos russos envolvidos foram identificados, e o caso foi arquivado semanas depois sem consequências. A SIDE reportou a operação de A Companhia ao Ministério Público em outubro de 2025; a denúncia judicial chegou em abril de 2026 (Infobae, 18 jun. 2025).

"Em dois anos não houve uma única coordenação real. A Secretaria deveria produzir inteligência estratégica para a tomada de decisões, não administrar todo o fluxo informativo do Estado." — Fonte com longa experiência em inteligência, citada por elDiarioAR, março de 2026

A brecha entre a detecção e a ação judicial tem uma explicação estrutural que não é nova. Historicamente, o sistema de inteligência argentino careceu de formação técnica adequada, foi utilizado para espionagem doméstica e operações políticas, e nunca desenvolveu uma cultura de inteligência estratégica voltada para ameaças externas. A reforma atual visa corrigir isso, mas os analistas alertam que mudar normas é mais rápido do que mudar capacidades. "O sistema está sendo utilizado para manter a governabilidade em defesa da própria administração, sem uma perspectiva estratégica sobre a proteção da cidadania frente a riscos externos", ressaltou à Deutsche Welle a pesquisadora Natalia Litvachky do CELS (Deutsche Welle, 14 ago. 2025).

A essa crítica se soma uma tensão mais profunda que o próprio Plano de Inteligência Nacional deixou exposta. O documento secreto —de 170 páginas, vazado para a La Nación em maio de 2025— define como focos de interesse da SIDE a atores que "erosionem a confiança nos funcionários", "manipulem a opinião pública" ou propaguem "desinformação", sem precisar se essas categorias se referem a agentes estrangeiros ou a jornalistas e analistas locais que discordam do governo. A ambiguidade não é acidental: na prática, a mesma ferramenta que deveria perseguir as redes de A Companhia poderia ser usada para vigiar aqueles que as denunciam (Alconada Mon, La Nación, mai. 2025).

O Governo criou ainda o Departamento Federal de Investigações (DFI) em junho de 2025, modelado sobre o FBI, com 25.000 postulantes para sua primeira convocação de investigadores profissionais. Seu mandato inclui a desarticulação de redes vinculadas ao terrorismo e ao crime organizado transnacional. É, no papel, exatamente a ferramenta que faz falta para casos como os que documenta este artigo. No papel. No fechamento desta edição, nenhum operador russo nem cubano identificado publicamente foi processado por suas atividades na Argentina. A contrainteligência argentina detecta, nomeia e arquiva. Desmantelar é ainda uma promessa pendente.

 Sobre o Autor

William L. Acosta é graduado pela PWU e pela Universidade de Alliance. É um oficial de polícia aposentado da polícia de Nova York, ex-militar do Exército dos Estados Unidos, além de fundador e CEO da Equalizer Private Investigations & Security Services Inc., uma agência com licença em Nova York e na Flórida, com projeção internacional. Desde 1999, tem liderado pesquisas em casos de narcóticos, homicídios e pessoas desaparecidas, além de participar na defesa penal tanto em nível estadual como federal. Especialista em casos internacionais e multi jurisdicionais, tem coordenado operações na América do Norte, Europa e América Latina.

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Sergio Berensztein, Fabián Calle, Pedro von Eyken, José Daniel Salinardi, William Acosta, junto a um destacado grupo de jornalistas e analistas da América Latina, Estados Unidos e Europa.

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