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"Cinquenta anos do horror: memória, verdade e uma ferida que não cicatriza"

Por Jerónimo Alonso

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A cinquenta anos do Golpe de Estado na Argentina de 1976, o país volta a uma das feridas mais profundas de sua história. Em um contexto atravessado por intensos debates políticos, crises recorrentes e disputas sobre o sentido do passado, a memória daqueles anos irrompe com força: não como uma lembrança distante, mas como uma pergunta incômoda que continua interpelando o presente. Há meio século, as Forças Armadas interromperam a ordem democrática e instauraram o Processo de Reorganização Nacional, dando início a um plano sistemático de repressão que incluiu sequestros, torturas, desaparecimentos, roubo de bebês e um profundo deterioro econômico e social. Como se inscreve essa ruptura em uma história marcada por outros golpes de Estado? Que condições a tornaram possível e por que sua marca continua sendo tão persistente?

Desde a derrubada de Hipólito Yrigoyen em 1930 até as interrupções institucionais de 1955 e 1966, a Argentina construiu uma instabilidade política que encontrou em 1976 sua expressão mais extrema e brutal. Aquela ditadura não apenas buscou disciplinar a sociedade por meio do Terrorismo de Estado, mas também reconfigurar suas bases econômicas e culturais. Foi, para muitos, a página mais sombria da história moderna argentina. Hoje, a meio século de distância, a pergunta não é apenas o que ocorreu, mas o que fazemos com esse passado: trata-se de um capítulo fechado ou de uma memória ativa que exige ser revista, transmitida e defendida diante do esquecimento?

O início da escuridão

A madrugada de 24 de março de 1976 não foi um fato isolado nem improvisado, mas a execução precisa de um plano que vinha se gestando há meses. Em um país atravessado pela crise política, a violência e o desgaste do governo de Isabel Perón, as Forças Armadas avançaram de maneira coordenada para tomar o controle do Estado. A América Latina encontrava-se no “Plano Condor”. Este dispositivo articulou as ditaduras do Cone Sul com o objetivo de perseguir, sequestrar e eliminar opositores políticos além de seus próprios territórios. Sua fortaleza se destacou no apoio logístico e inteligência compartilhada entre países latino-americanos e o respaldo do governo dos Estados Unidos.

Pela manhã, a Junta Militar, composta por Jorge Rafael Videla, Emilio Eduardo Massera e Orlando Ramón Agosti, anunciou a tomada do poder por meio de um comunicado oficial que foi transmitido em cadeia nacional. Nele se informava a destituição do governo, a suspensão da atividade política, a dissolução do Congresso, a intervenção das províncias e a proibição de toda forma de participação sindical. O país amanheceu sob controle militar, com as garantias constitucionais anuladas e a vida pública completamente reorganizada sob a lógica das Forças Armadas. Eficazes militares ocuparam pontos estratégicos em todo o país: emissoras de rádio, canais de televisão, edifícios públicos e acessos às principais cidades.

Desde esse mesmo dia começou a ser desplegado o aparelho repressivo que caracterizaria o autodenominado “Processo de Reorganização Nacional”. Embora a repressão ilegal (destacando a Aliança Anticomunista Argentina) já tivesse antecedentes nos meses anteriores, o 24 de março marcou o início de sua institucionalização em grande escala. Sequestros noturnos, operações sem ordem judicial e a instalação de centros clandestinos de detenção tornaram-se práticas sistemáticas. A sociedade ficou mergulhada em um clima de incerteza e medo, onde o silêncio começou a ser uma forma de sobrevivência. Nesse dia não apenas caiu um governo: inaugurou-se o regime que transformaria profundamente a vida política, social e cultural da Argentina.

Os outros números inegáveis

Paralelamente ao desdobramento repressivo, a ditadura avançou sobre a estrutura econômica com uma profundidade raramente vista. Sob a liderança de José Alfredo Martínez de Hoz, o país experimentou uma virada drástica: entre 1976 e 1981, a dívida externa passou de aproximadamente 7 bilhões de dólares para mais de 40 bilhões, marcando um ciclo de endividamento acelerado. A indústria nacional, que havia sido um dos motores do desenvolvimento em décadas anteriores, começou a encolher frente à abertura indiscriminada de importações. Setores inteiros não puderam competir e fecharam, provocando uma queda sustentada do emprego industrial e um aumento do desemprego e da precarização laboral.

Um dos mecanismos mais representativos desse modelo foi a chamada “bicicleta financeira”, habilitada pela reforma do sistema financeiro de 1977. As altas taxas de juros em pesos, combinadas com uma taxa de câmbio relativamente estável, incentivavam a especulação: capitais que entravam no país para obter lucros rápidos sem passar pela produção. Este esquema gerou uma economia artificialmente rentável para o setor financeiro, mas profundamente regressiva para o conjunto da sociedade. A participação dos salários na renda nacional caiu de maneira significativa (estima-se que passou de cerca de 50% para menos de 30%), evidenciando uma transferência de recursos dos trabalhadores para os setores concentrados.

O ponto de inflexão chegou ao final da ditadura, quando a fragilidade do modelo ficou exposta. Em 1982, sob a gestão de Domingo Cavallo à frente do Banco Central, foi implementada a estatização da dívida privada: o Estado assumiu compromissos externos de grandes empresas, transferindo o peso ao conjunto da sociedade. Este processo consolidou uma herança econômica crítica que condicionaria os governos democráticos posteriores. Assim, o projeto econômico do Processo de Reorganização Nacional não apenas transformou o presente de então, mas deixou marcas estruturais que ainda hoje fazem parte do debate econômico argentino.

Nunca mais

A cinquenta anos daqueles acontecimentos, a discussão já não passa apenas por reconstruir o ocorrido, mas por sustentar ativamente sua memória no presente. Em um contexto onde emergem discursos que relativizam ou diretamente negam o terrorismo de Estado (impulsionados por setores do governo), o risco não é apenas simbólico: implica em erosionar consensos democráticos construídos com décadas de luta.

Sobre um discurso amparado na “Teoria dos Dois Demônios” pedindo uma “verdadeira história”, esconde-se uma reivindicação aos militares justificando suas ações, já que “a Argentina se encontrava em uma guerra”, ao dizer que o poder estatal era igual ao que possuíam as forças guerrilheiras. Não se pode exigir uma “história completa” como o negacionismo pede, uma vez que os genocidas (alguns estão em liberdade) estabeleceram um pacto de silêncio para não contar onde estão os corpos dos desaparecidos que foram jogados nos rios durante os Voos da Morte, nem onde estão os filhos das mães que pariram na clandestinidade, entre vários crimes de lesa humanidade cometidos durante a última ditadura militar.

Nesse caminho, o Julgamento das Juntas marcou um marco sem precedentes a nível mundial: pela primeira vez, uma democracia julgava seus próprios ditadores em tribunais civis. Impulsionado durante o governo de Raúl Alfonsín, esse processo não apenas estabeleceu responsabilidades penais, mas também lançou as bases para uma política de direitos humanos que se consolidaria com o tempo. O relatório “Nunca Mais” da CONADEP permitiu documentar o horror e dar um quadro institucional aos testemunhos das vítimas, transformando a dor em prova e em memória coletiva.

Recordar não é um exercício nostálgico nem uma slogan vazia, mas uma prática política e social que busca impedir a repetição. A Memória, a Verdade e a Justiça funcionam como ferramentas de resistência frente ao negacionismo e como uma âncora ética frente às incertezas do presente. Hoje, organismos como Madres de Plaza de Mayo e Abuelas de Plaza de Mayo continuam recordando que a luta não terminou, que a memória não é um arquivo fechado, mas um processo em constante construção. O slogan “Nunca Mais” não apenas remete ao passado, mas interpela ao presente e projeta uma responsabilidade para o futuro. Porque se algo ficou claro na história recente argentina é que o esquecimento não é neutro: é o terreno onde podem voltar a germinar as condições que tornaram possível o horror.

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Jerónimo Alonso

Jerónimo Alonso

Meu nome é Jerônimo e tenho 21 anos. Atualmente estou no terceiro ano do curso de Ciências da Comunicação na Universidade de Buenos Aires. Gosto de escrever sobre diversos temas para informar o público e contar histórias pouco conhecidas ou de outra perspectiva.

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