A calma aparente que seguiu a última trégua na confrontação indireta —e cada vez menos encoberta— entre os Estados Unidos, Israel e Irã está longe de ser interpretada como um passo em direção à distensão. Pelo contrário, múltiplos indícios sugerem que os atores envolvidos estão utilizando este compasso de espera para reforçar suas capacidades militares e redefinir seus objetivos estratégicos. A região, longe de se estabilizar, pode estar entrando em uma fase preparatória de maior intensidade bélica, em um contexto marcado pela fragilidade do cessar-fogo informal que pôs fim à guerra dos doze dias de junho de 2025 e pelo temor a uma retomada das hostilidades em grande escala.
Os sinais mais inquietantes vêm do próprio terreno. Segundo informações coletadas pela Defence Review, pelo menos seis aeronaves de carga procedentes da China teriam aterrissado em território iraniano nos últimos dias com os transponders desativados, o que sugere operações de transferência de material sensível. As suspeitas apontam para sistemas de defesa aérea e mísseis, em um momento em que Teerã busca reforçar sua vulnerabilidade diante de possíveis ataques aéreos. Esta atividade se inscreve em um padrão mais amplo de cooperação militar crescente entre Irã, Rússia e China, consolidado desde a guerra na Ucrânia e o isolamento internacional de Moscou, e que foi recentemente confirmado pelo próprio ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, que admitiu em uma entrevista que seu país recebe “cooperação militar” de ambos os parceiros estratégicos, sem entrar em detalhes, mas sublinhando a profundidade dos laços políticos, econômicos e defensivos.
Além disso, surgiu, documentado por fontes OSINT, um sistema MANPADS russo Igla-S em um ato público em Ahvaz, armamento não registrado previamente nos arsenais iranianos. Embora as evidências ainda sejam fragmentárias, encaixam-se em um padrão mais amplo de cooperação militar crescente entre Irã, Rússia e China, que inclui não apenas transferências de tecnologia de drones e mísseis, mas também inteligência satelital russa para melhorar a precisão dos ataques iranianos e suprimentos chineses de componentes duais que fortalecem as capacidades de defesa e contra-ataque de Teerã.
Em paralelo, a retórica oficial iraniana endureceu seu tom. Um porta-voz do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica advertiu que qualquer ataque a infraestruturas energéticas será respondido “com a mesma moeda”, incluindo a possibilidade de minar o estreito de Ormuz ou fechar Bab el-Mandeb, duas artérias chave do comércio energético global. Esta ameaça não é retórica vazia: relatórios recentes de inteligência dos Estados Unidos, coletados por veículos como Axios e CBS News, indicam que o Irã já teria colocado novas minas navais em Ormuz nas últimas semanas —pelo menos uma dúzia, segundo estimativas de Washington—, elevando o risco de incidentes que poderiam desencadear uma escalada imediata e disruptiva nos mercados globais de energia. Especialistas em segurança marítima advertem que essas ações, combinadas com a possível perda de controle sobre algumas das minas por parte da própria Marinha iraniana, poderiam prolongar o bloqueio efetivo do estreito e gerar um choque econômico mundial com consequências imprevisíveis para os preços do petróleo e a estabilidade das rotas comerciais.
Do lado israelense, as declarações do ministro da Defesa, Israel Katz, não deixam margem para a ambiguidade. Em uma mensagem gravada, Katz afirmou que seu país espera a “luz verde” de Washington para retomar as operações militares contra o Irã, antecipando uma estratégia centrada em atacar infraestruturas energéticas críticas. “As coisas serão diferentes agora”, advertiu, prometendo levar o Irã “à idade das trevas” se necessário. Essas declarações refletem uma mudança doutrinária significativa e alinham-se com anúncios recentes do próprio Katz, que insistiu que os ataques conjuntos israelenses e norte-americanos contra o regime iraniano e suas infraestruturas “aumentarão significativamente” nos próximos dias, com ênfase em objetivos simbólicos do poder estatal e mecanismos de repressão interna. Israel parece considerar que a fase anterior do conflito não atingiu seus objetivos estratégicos e que uma nova campanha deveria se concentrar em enfraquecer a base econômica do regime iraniano, em vez de se limitar a objetivos militares convencionais ou à guerra nas sombras.
Enquanto isso, os Estados Unidos intensificaram sua presença militar na região de forma visível. A chegada do porta-aviões USS George H.W. Bush (CVN-77) à área de operações do Comando Central Eleva para três o número de grupos de ataque deslocados, junto ao USS Abraham Lincoln e ao USS Gerald R. Ford. Esta concentração naval não tem precedentes recentes fora de contextos de guerra aberta e representa uma demonstração de força sem paralelos, destinada tanto a dissuadir quanto a preparar possíveis operações sustentadas de superioridade aérea e controle marítimo. Além disso, a interceptação de um superpetroleiro vinculado a exportações iranianas —o M/T Majestic X— no oceano Índico sugere que Washington está ensaiando doutrinas de controle marítimo destinadas não apenas a Teerã, mas também a enviar uma mensagem estratégica a Pequim. A dimensão global do conflito se torna assim cada vez mais evidente, com implicações que transcendem a região e afetam diretamente a segurança energética mundial e o equilíbrio de poder no Indo-Pacífico.
No plano regional, atores não estatais alinhados com o Irã também elevaram o tom. O Hezbollah, através de seu dirigente Mahmoud Qamati, advertiu que qualquer retomada dos ataques israelenses será respondida sem limites temporais, antecipando uma guerra prolongada. Este posicionamento reforça a ideia de que o conflito poderia se expandir rapidamente a múltiplas frentes, desde o Líbano até o Iraque e o Iémen, reativando redes de proxies que, embora debilitadas após os confrontos anteriores, ainda representam uma ameaça assimétrica significativa.
Analistas internacionais concordam que a trégua atual apresenta características clássicas de uma “pausa operacional”. O ex-diplomata americano Dennis Ross assinalou em diversas ocasiões que “as tréguas no Oriente Médio raramente são prelúdios à paz; com frequência são intervalos para rearmar-se”. Em uma linha similar, a especialista do International Crisis Group, Ellie Geranmayeh, advertiu que o equilíbrio atual é “extremamente frágil” e que qualquer incidente no Golfo poderia desencadear uma escalada de grande magnitude, com riscos de um conflito prolongado que gere choques econômicos globais e altere o panorama de segurança em toda a região.
Um dos cenários mais inquietantes que emergem neste contexto é a possibilidade —ainda remota, mas cada vez mais discutida em círculos estratégicos— de que os Estados Unidos contemplem o uso de armas nucleares táticas em caso de um conflito aberto com o Irã. Embora nenhum alto funcionário tenha colocado publicamente essa opção, doutrinas militares norte-americanas prevêem seu emprego em situações de alta intensidade contra objetivos endurecidos ou profundamente enterrados, como instalações nucleares iranianas. No entanto, especialistas como Lawrence Freedman sublinham que o uso desse tipo de armamento teria consequências geopolíticas “incalculáveis”, não apenas pela resposta iraniana, mas pelo impacto na arquitetura global de não proliferação. Nas palavras do próprio Freedman, “cruzar esse limiar transformaria um conflito regional em uma crise internacional de primeiro grau”.
Por ora, a dissuasão continua sendo a linguagem dominante. Mas a acumulação de forças, o endurecimento do discurso, os indícios de rearme e a confirmação de apoios externos ao Irã sugerem que a trégua pode ser apenas uma ilusão passageira. No Oriente Médio, onde a história recente é marcada por escaladas súbitas após períodos de calma aparente, a questão não é tanto se as hostilidades serão retomadas, mas quando e com que intensidade, em um tabuleiro onde cada movimento dos atores principais —e de seus aliados— redefine o delicado equilíbrio entre contenção e confronto total.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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