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"EXISTE UM “DIÁRIO DE YRIGOYEN” LIBERTÁRIO?"

Por Poder & Dinero

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Há uma expressão que pertence ao imaginário político argentino e que volta sempre que um governo parece viver dentro de uma realidade cuidadosamente selecionada: “o diário de Yrigoyen”.

A história conta que durante a segunda presidência de Hipólito Yrigoyen, entre 1928 e 1930, seu entorno teria elaborado uma versão adoçada das notícias para que o Presidente recebesse somente aquelas que eram favoráveis. No entanto, é importante fazer uma precisão histórica: não existe evidência conclusiva de que esse jornal tenha existido realmente. A versão ficou instalada como uma lenda política, e com o tempo se converteu em uma metáfora para descrever os governantes que terminam cercados de informações que confirmam suas próprias convicções.

E justamente por isso a metáfora se torna tão poderosa hoje.

Porque um “diário de Yrigoyen” moderno não precisa imprimir um jornal falso.

Pode ser construído com redes sociais, portais digitais, consultorias, influenciadores, dirigentes, empresários, jornalistas e algoritmos.

E também não precisa inventar todos os dados.

Pode ser muito mais sofisticado:

selecionar dados verdadeiros, omitir outros igualmente verdadeiros e construir a partir dessa seleção uma interpretação que termine funcionando como propaganda.

Aí surge uma pergunta incômoda:

Existe hoje um “diário de Yrigoyen libertário”?

Não seria sério responder afirmativamente apontando automaticamente para um meio determinado. Para demonstrar que um meio cumpre essa função, seria necessário estudar sistematicamente o que publica, o que omite, que fontes utiliza, que tratamento dá às notícias negativas e positivas, e se aplica os mesmos critérios quando os dados favorecem ou prejudicam o Governo.

Mas sim podemos fazer algo muito mais útil:

construir uma metodologia para descobrir.


1. O “DIÁRIO DE YRIGOYEN” NÃO É NECESSARIAMENTE UMA MENTIRA

Essa é provavelmente a primeira distinção importante.

Um meio propagandístico não precisa inventar estatísticas.

Pode publicar um dado absolutamente verdadeiro.

O problema surge quando esse dado é apresentado como se representasse toda a realidade.

Por exemplo:

Dado: a inflação desacelerou.

Interpretação razoável: o processo inflacionário perdeu intensidade.

Propaganda: “A inflação está derrotada”.

As três frases estão relacionadas, mas não significam a mesma coisa.

O dado pode ser certo.

A interpretação pode ser razoável.

A terceira afirmação exige demonstrar muito mais.

Em agosto de 2026, por exemplo, o IPC nacional registrou uma variação mensal de 1,7%. É um dado oficial. Mas no mesmo mês a Cesta Básica Alimentar aumentou 2,6% e acumulou 39,6% em relação ao ano anterior.

Então podem coexistir duas realidades:

a inflação geral desacelera e o custo de determinados consumos essenciais continua aumentando a maior velocidade.

Não há contradição estatística.

A contradição aparece quando alguém utiliza apenas um dos dois dados para construir uma conclusão geral.


2. A MATRIZ “DADO – INTERPRETAÇÃO – PROPAGANDA”

Uma maneira simples de detectar o problema é separar sempre três níveis.

DADO

O que efetivamente ocorreu?

Deve poder ser verificado em uma fonte confiável.

INTERPRETAÇÃO

O que significa esse dado?

Aqui começa a análise. Dois especialistas podem interpretar de maneira diferente o mesmo número sem que necessariamente algum esteja mentindo.

PROPAGANDA

Que conclusão política se tenta instalar utilizando esse dado?

A propaganda aparece quando uma evidência parcial se torna uma conclusão total, quando se elimina o contexto ou quando se apresentam como fatos conclusões que requerem demonstrar causalidade.

Tomemos o crescimento econômico.

O PIB argentino aumentou 2,3% em relação ao ano anterior no primeiro trimestre de 2026 e 0,7% em relação ao trimestre anterior.

Dado: a economia cresceu.

Interpretação: existe uma recuperação da atividade.

Propaganda: “O modelo fez decolar toda a economia argentina”.

Por quê?

Porque dentro do mesmo relatório oficial aparecem diferenças enormes entre setores. O consumo privado cresceu 2,7% em relação ao ano anterior, mas a indústria manufatureira caiu 1,7%. O investimento fixo também mostrou uma contração em relação ao ano anterior.

Por isso a frase correta pode ser:

“A economia cresce, mas a recuperação é heterogênea.”

A frase propagandística seria:

“A economia está voando.”


3. O GOVERNO DE MILEI TEM DADOS FAVORÁVEIS

E este ponto é fundamental para que a análise seja intelectualmente honesta.

Detectar propaganda não significa negar os resultados positivos.

O Governo de Javier Milei pode exibir conquistas econômicas concretas.

A inflação se reduziu enormemente em relação aos níveis de 2023.

O Estado Nacional mantém um resultado fiscal positivo: durante o primeiro semestre de 2026 acumulou um superávit financeiro equivalente aproximadamente a 0,1% do PIB e um superávit primário próximo a 0,6%.

A pobreza também caiu em relação ao pico registrado em 2024. No segundo semestre de 2025 alcançou 28,2% das pessoas nos 31 aglomerados urbanos levantados pelo INDEC.

O PIB voltou a crescer.

Seria absurdo transformar todos esses resultados em propaganda simplesmente porque favorecem o Governo.

Um dado favorável continua sendo um dado favorável, mesmo que beneficie politicamente a Milei.

Esse princípio é essencial.

Se um meio opositor nega uma melhoria real porque não coincide com sua posição política, também está construindo seu próprio “diário de Yrigoyen”, mas em sentido inverso.


4. O PROBLEMA COMEÇA QUANDO SÃO ESCOLHAS SOMENTE AS BOAS NOTÍCIAS

Aqui surge o verdadeiro mecanismo.

Suponhamos que um meio publica:

  • inflação ↓

  • pobreza ↓

  • dívida ↓

  • PIB ↑

  • reservas ↑

Mas sistematicamente deixa de fora:

  • setores industriais em queda;

  • problemas de emprego formal;

  • deterioração de determinados consumos;

  • diferenciais entre regiões;

  • perda de poder aquisitivo em determinados setores;

  • dificuldades das pequenas empresas;

  • evolução do investimento.

Está mentindo?

Não necessariamente.

Mas está fazendo algo jornalisticamente muito importante:

está construindo uma seleção da realidade.

No primeiro trimestre de 2026, por exemplo, a taxa de desemprego foi de 7,8%. A taxa de emprego foi de 44,8%.

Esses números também não podem ser interpretados isoladamente.

Uma análise séria deve perguntar que tipo de emprego está sendo criado, o que acontece com o emprego registrado, quanto crescem os rendimentos reais e que setores geram a ocupação.

A economia não é um único número.

É um conjunto de realidades que se movem simultaneamente e, muitas vezes, em direções diferentes.


5. O VIÉS DE CONFIRMAÇÃO

O “diário de Yrigoyen” moderno pode funcionar sem que ninguém se sente ao redor de uma mesa para decidir o que ocultar.

Existe um mecanismo muito mais poderoso:

o viés de confirmação.

As pessoas tendem a buscar, lembrar e compartilhar informações que confirmam o que já acreditam.

Um militante libertário tenderá a prestar mais atenção a uma notícia que demonstra que o Governo está certo.

Um opositor fará exatamente o contrário.

As redes sociais potencializam o fenômeno porque os algoritmos aprendem rapidamente que conteúdo gera interação.

Assim se constroem bolhas informativas.

O usuário começa vendo informações favoráveis.

O algoritmo oferece mais informações favoráveis.

Os influenciadores comentam essas informações.

Os seguidores as compartilham.

Outros meios as reproduzem.

O Governo observa que essa informação tem enorme circulação.

E finalmente a percepção digital pode começar a se confundir com a realidade social.

Então já não é necessário que exista um censor.

A própria audiência pode se tornar editora do jornal que quer ler.


6. O SINAL MAIS IMPORTANTE: O QUE FAZEM COM AS MÁS NOTÍCIAS?

Essa é provavelmente a prova mais eficaz para identificar um possível “diário de Yrigoyen.”

Não se deve observar apenas o que publica um meio quando o Governo tem sucesso.

É preciso observar o que faz quando aparece um dado negativo.

Um meio profissional deveria ser capaz de dizer:

“Este indicador melhorou, mas este outro piorou.”

Um meio fortemente tendencioso tenderá a utilizar algum desses mecanismos:

Negação: “Esse dado é falso.”

Desqualificação: “Quem o publica é um operador.”

Descontextualização: “Isso é irrelevante.”

Comparação seletiva: “Mas olhem como estávamos antes.”

Mudança de tema: diante de um dado incômodo, imediatamente aparece outro positivo.

Personalização: a discussão passa do dado para quem o publicou.

Nenhum desses mecanismos demonstra por si só propaganda.

Mas quando aparecem sistematicamente e sempre em defesa do mesmo ator político, tornam-se um sinal.


7. A PROVA DO “DOBRO PADRÃO”

Há outra ferramenta ainda mais potente.

Perguntar:

O meio utiliza o mesmo critério quando o dado favorece e quando prejudica o Governo?

Suponhamos que uma consultoria publique:

“Os alimentos aumentaram apenas 0,1% durante uma semana.”

Se o meio considera que esse dado demonstra que a inflação está controlada, deveria aplicar exatamente o mesmo critério quando em outra semana os alimentos aumentam significativamente.

Se, por outro lado, quando o dado é favorável é apresentado como uma fotografia precisa da realidade e quando é desfavorável diz-se que “uma semana não significa nada”, temos um problema.

O mesmo acontece com as pesquisas.

Com o emprego.

Com a pobreza.

Com a atividade industrial.

Com o consumo.

Com os investimentos.

O jornalismo sério não precisa que todos os dados sejam favoráveis. Precisa aplicar o mesmo método quando são favoráveis e quando não são.


8. E AS CONSULTORIAS?

Aqui surge uma questão especialmente delicada.

Uma consultoria pode realizar uma medição perfeitamente legítima.

Mas toda medição possui:

  • metodologia;

  • universo;

  • amostra;

  • período;

  • ponderações;

  • suposições;

  • margem de erro.

Por isso, não basta olhar o número.

É preciso perguntar:

O que mede exatamente?

Como mede?

O que fica de fora?

É comparável com outros períodos?

Coincide com outros indicadores?

Uma estimativa semanal de alimentos pode ser útil para detectar tendências.

Mas não equivale automaticamente ao IPC oficial.

E o consumidor também não vive dentro de uma média estatística.

Compra determinados produtos, em determinados estabelecimentos, em determinada área, com determinado rendimento.

Por isso pode haver uma diferença perfeitamente legítima entre a inflação estatística e a inflação percebida.

O problema começa quando alguém utiliza uma medição particular para invalidar sistematicamente a experiência de milhões de consumidores.


9. O PERIGO NÃO É SOMENTE PARA A OPOSIÇÃO

Este é talvez o aspecto mais interessante de toda a análise.

Um “diário de Yrigoyen” não prejudica apenas os cidadãos.

Pode prejudicar o próprio Governo.

Por quê?

Porque um Presidente necessita de informações incômodas para corrigir.

Se um ministro lhe diz:

“Isto funciona, mas isto outro não”,

está cumprindo sua função.

Se um consultor lhe diz:

“Os números gerais são bons, mas este setor está entrando em problemas”,

está fazendo seu trabalho.

Se um jornalista próximo ao Governo aponta uma contradição,

pode estar prestando um serviço muito maior do que quem repete permanentemente as boas notícias.

O governante que somente recebe elogios pode acabar acreditando que o elogio é informação.

E aí o “diário de Yrigoyen” atinge sua forma mais perigosa:

quando deixa de ser um mecanismo de propaganda para se tornar um mecanismo de autoengano.


10. EXISTE UM “DIÁRIO DE YRIGOYEN LIBERTÁRIO”?

A resposta responsável deveria ser:

Não podemos identificá-lo simplesmente porque um meio seja favorável a Milei.

Ser oficialista, opositor, liberal, socialista, conservador ou peronista não torna automaticamente um meio em propaganda.

A pergunta correta é outra:

Como trabalha com a realidade?

Publica informações que contradizem sua posição?

Reconhece erros?

Distingue notícia de opinião?

Explica a metodologia dos números?

Contrasta fontes?

Apresenta dados negativos quando são relevantes?

Corrige quando erra?

Aplica o mesmo padrão a Milei que aplicaria a qualquer outro presidente?

Distingue uma correlação de uma causalidade?

Evita transformar um indicador em uma conclusão absoluta?

Se a resposta for sistematicamente negativa, então temos razões para suspeitar que esse meio está funcionando mais como instrumento de confirmação política do que como meio de informação.


11. UM “TESTE DE YRIGOYEN” PARA QUALQUER MEIO

Podemos transformar tudo isso em uma pequena auditoria.

TESTE DE 10 PERGUNTAS

1. Publica más notícias sobre seu próprio espaço político?

2. Reconhece publicamente seus erros?

3. Distingue informação de opinião?

4. Cita fontes primárias?

5. Explica como foi obtido um dado?

6. Apresenta contexto além do número?

7. Contrasta dados favoráveis e desfavoráveis?

8. Utiliza o mesmo padrão para aliados e adversários?

9. Critica o Governo quando corresponde embora isso contradiga sua linha editorial?

10. Permite que a realidade contradiga o relato?

Quanto mais respostas negativas aparecerem, maior é a possibilidade de que estejamos frente a um ecossistema de informação fechado.

E há uma pergunta ainda mais contundente:

Qual notícia publicada por esse meio durante o último mês prejudicou realmente seu próprio espaço político?

Se a resposta é “nenhuma”, há razões para prestar atenção.


12. A CONCLUSÃO

A discussão não deveria ser:

“Milei tem razão ou está equivocado?”

Nem:

“Os meios são libertários ou antilebertários?”

A pergunta verdadeiramente importante é:

Estamos recebendo informação para compreender a realidade ou informação selecionada para confirmar o que já acreditamos?

Milei pode ter sucessos econômicos reais.

Pode ter erros reais.

Pode haver indicadores excelentes e outros preocupantes simultaneamente.

E um meio sério deveria poder mostrar as duas coisas sem sentir que trai nenhuma ideologia.

O “diário de Yrigoyen” moderno não precisa ser falso.

Pode estar construído com verdades parciais.

Esse é precisamente seu poder.

E por isso a melhor maneira de descobri-lo não é perguntar quem está a favor de Milei.

É olhar o que faz esse meio quando a realidade contradiz seu relato.

Porque quando um meio somente publica o que confirma seus leitores, deixa de funcionar como uma janela para a realidade.

Se torna um espelho.

E um governo cercado exclusivamente de espelhos corre o risco de terminar acreditando que o reflexo é o país.

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