Apresentada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, como o início de uma nova arquitetura global de cooperação antiterrorista, a iniciativa contra a extrema esquerda aspira a identificar, perseguir e desarticular redes revolucionárias, anarquistas e antifascistas consideradas violentas. No entanto, também abriu um intenso debate sobre os limites conceituais do terrorismo, o risco de criminalizar a dissidência política e a possibilidade de que os Estados Unidos estejam inaugurando uma nova etapa de confronto ideológico cuja lógica lembra, para numerosos especialistas, alguns dos traços mais inquietantes do macarthismo.
Durante décadas, a agenda internacional de Washington foi dominada por ameaças claramente identificáveis. Primeiro foi a confrontação bipolar com a União Soviética; posteriormente, o terrorismo islamista monopolizou a atenção das agências de inteligência e dos órgãos encarregados da segurança nacional após os atentados de 11 de setembro de 2001. Agora, a Administração Trump sustenta que uma ameaça diferente, há muito ignorada, voltou a adquirir dimensões transnacionais: o terrorismo político inspirado em ideologias revolucionárias de esquerda.
No discurso inaugural da reunião ministerial realizada no Departamento de Estado, Marco Rubio afirmou que a violência revolucionária de inspiração marxista, comunista, anarquista ou antifascista nunca desapareceu completamente e que atualmente experimenta um processo de reorganização internacional. Segundo o secretário de Estado, os ataques contra infraestruturas críticas, laboratórios, redes elétricas, oleodutos e outros alvos estratégicos fariam parte de uma renovada ofensiva contra as democracias ocidentais.
A reunião reuniu delegações de cerca de sessenta e sete países —principalmente europeus, embora também americanos e asiáticos—, embora em numerosos casos as representações estivessem lideradas por embaixadores ou funcionários técnicos e não por ministros de Relações Exteriores. Israel foi o único país do Oriente Médio presente oficialmente.
Além do conteúdo operacional da iniciativa, o verdadeiro alcance do encontro reside na mudança doutrinária que supõe. Rubio levantou a necessidade de reconstruir a arquitetura internacional do contraterrorismo por meio de um intercâmbio intensivo de inteligência, cooperação judicial, rastreamento financeiro e coordenação policial para identificar redes que, segundo Washington, têm escapado durante décadas ao escrutínio internacional.
No entanto, mal pronunciadas as primeiras intervenções oficiais começaram também as críticas. Numerosos ex-funcionários do próprio Departamento de Estado, especialistas em contraterrorismo e acadêmicos questionaram tanto o diagnóstico quanto as prioridades estabelecidas pela nova estratégia. Para eles, o terrorismo de extrema esquerda existe, mas sua magnitude atual dista consideravelmente de representar a principal ameaça à segurança ocidental, especialmente se comparado ao extremismo jihadista ou a diversas formas de violência de extrema direita.
Esse debate remete a uma questão extraordinariamente complexa: o que deve ser entendido exatamente por “extrema esquerda violenta”?
A dificuldade não é menor. Na prática, convivem sob essa denominação organizações históricas claramente terroristas —como Sendero Luminoso, as Brigadas Vermelhas italianas, a Fração do Exército Vermelho alemã, Weather Underground ou as antigas organizações guerrilheiras latino-americanas— com coletivos anarquistas, movimentos antifascistas descentralizados, grupos antissistema, organizações de ação direta e até mesmo ativistas cuja atuação se limita a protestos radicalizados mas protegidos pelo direito constitucional de manifestação.
O próprio caso de Antifa ilustra essa ambiguidade. Diversos organismos americanos, incluindo o FBI durante o primeiro mandato de Trump, sinalizaram reiteradamente que Antifa constitui mais uma corrente ideológica ou um conjunto descentralizado de coletivos do que uma organização hierárquica dotada de uma estrutura de comando identificável. Essa característica levanta enormes desafios jurídicos quando se pretende aplicar categorias próprias do terrorismo internacional a um fenômeno extremamente difuso.
Precisamente aí aparece um dos principais temores expressos por juristas e organizações dedicadas à defesa das liberdades civis. A ausência de uma definição objetiva e universalmente aceita de “extrema esquerda violenta” pode acabar ampliando perigosamente a margem de discricionariedade do poder político.
A história oferece abundantes exemplos de como categorias inicialmente desenhadas para combater organizações armadas acabaram sendo utilizadas para perseguir adversários ideológicos, movimentos sindicais, organizações estudantis ou simples opositores políticos.
É inevitável, nesse contexto, que resurja a comparação com o macarthismo.
Durante os primeiros anos da Guerra Fria, o senador Joseph McCarthy converteu a suspeita de simpatias comunistas em um instrumento político de enorme eficácia. Milhares de cidadãos americanos foram investigados, demitidos ou marginalizados profissionalmente sem provas conclusivas de terem cometido delito algum. Bastava a suspeita de afinidade ideológica para desencadear processos administrativos, investigações parlamentares ou campanhas públicas de descrédito.
Naturalmente, as circunstâncias atuais são muito diferentes. Ninguém sustenta que os Estados Unidos tenham retornado mecanicamente à década de 1950. No entanto, vários especialistas alertam que certas dinâmicas discursivas —a identificação de amplos setores ideológicos como ameaças potenciais à segurança nacional, a ampliação do conceito de terrorismo e a utilização de categorias políticas pouco precisas— lembram alguns daqueles mecanismos históricos.
A própria cobertura jornalística americana coleta as preocupações expressas por antigos responsáveis da área de contraterrorismo, que consideram que a ameaça está sendo amplificada e politizada, enquanto outras formas de extremismo continuam representando riscos objetivamente maiores.
Existe, no entanto, outro aspecto do discurso de Rubio que dificilmente possa ser descartado como mera retórica política.
O secretário de Estado dedicou uma parte significativa de sua intervenção ao papel desempenhado historicamente por Cuba na formação e apoio de numerosos movimentos insurgentes latino-americanos durante a Guerra Fria. Lembrou expressamente o treinamento fornecido pelo regime de Fidel Castro a milhares de guerrilheiros procedentes de diferentes países do continente e sustentou que a rede política e ideológica construída a partir de Havana contribuiu decisivamente para o desenvolvimento de organizações revolucionárias na América e em outras regiões.
Sobre este ponto, a evidência histórica é considerável. Desde os anos sessenta, Cuba impulsionou uma política ativa de apoio a movimentos revolucionários na América Latina e na África. A Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), as atividades do Departamento América do Partido Comunista Cubano e o treinamento militar fornecido a quadros insurgentes foram amplamente documentados tanto por investigações acadêmicas quanto por arquivos desclassificados.
As guerrilhas colombianas, organizações centro-americanas, movimentos revolucionários do Cone Sul e diversas experiências insurgentes receberam, em diferentes momentos e com diferente intensidade, apoio político, treinamento ou assistência de Havana. Essa política constituiu um dos principais fatores de tensão hemisférica durante décadas.
Paradoxalmente, Washington parece reconhecer agora, com uma contundência institucional sem precedentes, uma realidade histórica cuja importância foi objeto de intensos debates durante boa parte do século XX. Para muitos observadores, esse reconhecimento chega quando o cenário latino-americano mudou profundamente e as antigas guerrilhas desapareceram, se transformaram em partidos políticos ou evoluíram para fenômenos de natureza distinta.
As implicações diplomáticas da nova estratégia ainda estão por ser definidas. A América Latina apresenta hoje um mosaico político extraordinariamente diverso, onde convivem governos de diferentes orientações ideológicas que mantêm relações normais com Washington.
Nesse contexto, inevitavelmente surgirão perguntas sobre como essa nova doutrina influenciará a relação dos Estados Unidos com administrações como as de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil ou Claudia Sheinbaum no México. Ambos os governos mantêm posições políticas claramente diferenciadas da atual Administração americana em numerosos assuntos internacionais e têm sustentado relações diplomáticas com governos de esquerda da região. No entanto, isso não equivale, por si só, a um apoio a organizações violentas. A forma como Washington delimitará essa diferença será determinante para evitar que uma estratégia antiterrorista se transforme em uma fonte permanente de fricções diplomáticas.
Outro tanto ocorre com a Venezuela. Durante os últimos anos, a política americana em relação ao governo de Nicolás Maduro alternou sanções econômicas, reconhecimento de líderes opositores e negociações pontuais destinadas, entre outros objetivos, a facilitar trocas humanitárias, processos eleitorais ou questões energéticas. Nesse quadro, ocorreram contatos com altos funcionários venezuelanos, incluindo membros do círculo dirigente. Esses contatos foram interpretados por alguns setores como uma demonstração de pragmatismo diplomático e por outros como um sinal de flexibilização. A nova estratégia obrigará previsivelmente Washington a explicar como concilia essas negociações com uma doutrina que enfatiza a luta global contra organizações e redes consideradas violentas.
Além da América Latina, a iniciativa impulsionada por Rubio reflete um fenômeno de maior alcance: a crescente tendência das democracias ocidentais a ampliar o conceito de segurança nacional para abranger ameaças híbridas, redes descentralizadas, campanhas de sabotagem, radicalização digital e novas formas de violência política que não se encaixam facilmente nas categorias tradicionais de terrorismo.
Esse processo apresenta desafios consideráveis. Combater eficazmente aqueles que recorrem à violência política constitui uma obrigação inadiável de qualquer Estado democrático. Mas preservar simultaneamente as liberdades civis exige definições precisas, padrões probatórios rigorosos e mecanismos institucionais capazes de distinguir com clareza entre terrorismo, violência organizada, protesto radical e oposição política legítima.
A história ensina que as democracias costumam enfrentar suas provas mais difíceis precisamente quando tentam se defender daqueles que buscam destruí-las. O sucesso da nova estratégia americana não dependerá apenas de sua capacidade de desarticular redes violentas. Também será julgado por sua aptidão para evitar que a legítima luta contra o terrorismo termine erodindo aqueles princípios constitucionais e democráticos cuja proteção constitui, em última instância, a razão de ser de qualquer política de segurança.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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