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O Japão na geopolítica da Ásia (Adalberto Agozino)

Por Poder & Dinero

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Uma geografia complicada

O Japão tem uma geografia, no mínimo, singular. A configuração particular de seu território o torna o exemplo paradigmático de um Estado arquipélago. A maioria de seus 124 milhões de habitantes reside nas quatro grandes ilhas situadas a leste do Mar do Japão, enquanto uma minoria se distribui em parte das 6.848 ilhotas que compõem o arquipélago.

A maior das ilhas principais é Honshu, que concentra cerca de 60% do território nacional e abriga Tóquio, a maior megalópole do mundo, com cerca de 37 milhões de habitantes em sua área metropolitana. Nesta ilha se estende também a planície cultivável mais importante do país, razão pela qual ali surgiram historicamente os principais núcleos urbanos e se consolidou o coração político e econômico do Estado.

A distância mais curta entre o arquipélago japonês e a massa continental euroasiática gira em torno de 200 quilômetros. Essa barreira natural explica, em parte, por que o Japão nunca foi invadido com sucesso na era pré-moderna e por que manteve durante séculos uma notável homogeneidade étnica. Desde há mais de dois milênios, não ocorre uma grande chegada de população estrangeira que altere de forma substancial sua composição demográfica.

O território japonês é mais extenso do que a península da Coreia, ligeiramente inferior ao da Noruega e um pouco superior ao da Alemanha. No entanto, três quartos do país não são adequados para o assentamento humano intensivo, especialmente devido à presença de regiões montanhosas, e apenas 13% da superfície é adequada para a agricultura intensiva. Essa limitação concentrou a população em estreitas faixas costeiras e em áreas interiores reduzidas, onde o arroz deve ser cultivado em terraços construídos nas encostas.

As montanhas fornecem abundante água, mas a falta de amplas planícies torna os rios japoneses em cursos curtos e pouco navegáveis, o que historicamente dificultou sua utilização como eixos de comércio interior. A escassa confluência entre eles agrava essa condicionante estrutural.

Diante desse ambiente, o povo japonês se projetou em direção ao mar. Teceu redes comerciais ao longo de suas milhares de ilhas, realizou incursões na península coreana e, após séculos de isolamento, modernizou-se rapidamente para expandir-se e dominar amplas zonas do leste asiático. A insularidade, longe de enclausurar o Japão, acabou por empurrá-lo para uma vocação marítima e estratégica.

O Japão carece, além disso, de recursos naturais suficientes para sustentar por si só uma economia industrial avançada. Possui depósitos de carvão de baixa qualidade, pouco petróleo, reservas reduzidas de gás natural e quantidades insuficientes de numerosas matérias-primas essenciais. É o maior importador mundial de gás natural e um dos grandes importadores de petróleo, uma dependência que historicamente influenciou sua política externa e sua necessidade de garantir rotas marítimas seguras.

O Japão do pós-guerra

Após sua derrota na Segunda Guerra Mundial, o Japão elaborou uma política externa centrada na contenção de suas capacidades militares e no desenvolvimento econômico. O militarismo beligerante do início do século XX foi sepultado sob os escombros de Hiroshima e Nagasaki.

A chamada Doutrina Yoshida, inspirada no primeiro-ministro Shigeru Yoshida, orientou a estratégia nacional desde o pós-guerra até o final do século XX: priorizar a reconstrução econômica e delegar a segurança estratégica na aliança com os Estados Unidos, limitando os gastos militares próprios e privilegiando a diplomacia econômica.

O Tratado de Cooperação e Segurança Mútua com Washington, vigente desde 1960, consolidou essa arquitetura: bases americanas em território japonês em troca de proteção estratégica. Essa fórmula facilitou o chamado “milagre econômico japonês”, mas também subordinou em boa medida a política de defesa a decisões tomadas em Washington.

Durante décadas, o discurso oficial apoiou-se na Doutrina Fukuda (1977), que rejeitava explicitamente a conversão do Japão em uma potência militar convencional e promovia uma relação de cooperação pacífica com o sudeste asiático e com a ASEAN. O Japão projetava poder através do comércio, do investimento e da ajuda ao desenvolvimento, não por meio de despliegues militares.

Quando o pacifismo deixa de ser uma alternativa

Esse consenso histórico já não é imutável. O debate sobre o chamado “pacifismo proativo” deixou de ser marginal. O governo defendeu a flexibilização das restrições constitucionais que limitavam a exportação de equipamento militar, abrindo o mercado global de armas a empresas como a Mitsubishi Heavy Industries.

A medida está vinculada à percepção de uma “expansão militar chinesa” e à disputa territorial pelas ilhas Senkaku/Diaoyu, no Mar da China Oriental. A modernização do Exército Popular de Libertação e a crescente pressão sobre Taiwan reforçaram em Tóquio a ideia de que a mera contenção defensiva já não é suficiente.

Além disso, o Japão relaxou normas para cooperar no desenvolvimento de armamento com aliados além do vínculo tradicional com os Estados Unidos. O Programa Global de Combate Aéreo, destinado a criar uma nova geração de caças junto a parceiros europeus, ilustra esta fase de cooperação tecnológica e militar ampliada.

O processo inclui um aumento dos gastos em defesa com o objetivo de se aproximar de 2% do PIB até 2027, dotando as Forças de Autodefesa de capacidades dissuasoras mais robustas, incluindo sistemas de mísseis de maior alcance e uma interoperability reforçada com aliados regionais.

Ásia e o tabuleiro do Indo-Pacífico

Geopolítica, o foco das elites japonesas evoluiu de uma diplomacia centrada na recuperação econômica em direção a uma estratégia que integra segurança, defesa e comércio sob o guarda-chuva de um “Indo-Pacífico livre e aberto”. O conceito, promovido por Tóquio e Washington, aspira a contrabalançar a influência chinesa mediante alianças com a Índia, Austrália, países da ASEAN e até mesmo parceiros europeus.

A ascensão da China — visível em suas reivindicações territoriais e em sua contínua modernização militar — é citada por especialistas japoneses como a razão principal deste mudança estratégica. As tensões no estreito de Taiwan, na península coreana e nos mares da China Oriental e Meridional configuram um arco de instabilidade que impulsiona Tóquio a fortalecer suas capacidades defensivas.

Em busca de um novo protagonismo

O Japão também desenvolveu uma política de “segurança econômica” orientada a proteger cadeias de suprimento críticas, garantir a liderança em setores estratégicos — como semicondutores e computação quântica — e articular uma diplomacia econômica complementar à sua política de defesa. A resiliência frente a pressões externas tornou-se um objetivo central.

O resultado é um Japão mais assertivo. Embora mantenha a aliança com os Estados Unidos como pedra angular de sua segurança, começou a diversificar vínculos e a promover mecanismos de cooperação entre potências médias para gerenciar riscos compartilhados. A colaboração com as Filipinas, Coreia do Sul, Índia ou atores europeus em matéria de segurança e desenvolvimento faz parte dessa arquitetura emergente.

Esse dinamismo gera tensões internas. O debate sobre até onde o Japão deve se afastar de seu legado pacifista é profundo, especialmente em questões sensíveis como a política antinuclear, durante décadas tabu e hoje reaberta diante da pressão estratégica de Pequim.

A construção de uma liderança regional em um mundo mais conflitante

No complexo tabuleiro do século XXI, o Japão atua como um pivô estratégico entre grandes potências e estados médios emergentes. Sua política de defesa — marcada por um rearmamento gradual, mas decidido —, sua potência econômica consolidada e sua diplomacia ativa transformaram seu papel: de parceiro subordinado na arquitetura de segurança regional a ator central do Indo-Pacífico.

O passado pacifista continua influenciando sua cultura política, mas a visão de um Japão mais influente parece se impôr sobre a cautela do pós-guerra. Não busca uma hegemonia territorial explícita, mas sim uma liderança regional sustentada em capacidades militares eficazes, alianças sólidas e uma projeção econômica robusta.

Em um ambiente onde a rivalidade entre grandes potências redefine alianças e equilíbrios, a redefinição do papel japonês se destaca como um dos fatores mais determinantes da geopolítica global nas próximas décadas.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires, Argentina.

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