15/11/2022 - Política e Sociedade

A última esperança do governo: Argentina campeão Qatar 2022

Por Lucia Boccio

A última esperança do governo: Argentina campeão Qatar 2022

A ministra do Trabalho, Raquel "Kelly" Olmos, deu a este domingo uma resposta particular quando lhe consultaram se preferia que a Argentina obtivesse a Copa no Mundial do Qatar ou baixasse a inflação. “Primeiro que a Argentina saia campeão“, respondeu a funcionária em uma entrevista para o programa “Opinião pública”.A história argentina nos mostrou que presos em constantes ciclos de crise econômica, tanto a sociedade como a política se agarram ao pouco que lhe gera esperança. Em um país onde não reina a paz social e a convulsão sociopolítica encontra-se à ordem do dia, acreditamos que o único que pode unir é o esporte a nível seleção. Mas, sobretudo, esse esporte que nasce nos potreros, que nos representa no mundo e que tem muita dessa carragem e resiliência que nos caracteriza aos argentinos. Pode-se dizer que o único traço de nacionalismo argentino resurge a cada 4 anos.Como explicam especialistas do tamanho de Klaus Gallo, doutor em História Moderna pela Universidade de Oxford e especialista na história do futebol, a Selecção pode ser considerada um instrumento de poder político. “Um claro exemplo disso é o que aconteceu em 1978, foi muito impressionante e chocante o aumento do apoio popular à ditadura” Além disso, acrescentou o professor da UTDT, a organização mundial era vista como um exemplo de poder nacional. A Directiva N° 1 de Difusão para o Exterior foi uma operação chave para a última ditadura civil-militar, onde o Mundial do '78 foi utilizado como eixo vertebrador de uma política para desviar a atenção das sistemáticas violações dos direitos humanos. Para o governo militar, o mundo era a ocasião ideal para mostrar para o exterior a imagem de um país unido, trabalhador e fervoroso e conseguiu uma exaltação do sentimento popular e um ocultamento relativo dos crimes de Estado.Para 1986, a democracia na Argentina levava 3 anos e as feridas do passado estavam latentes: o horror, Malvinas e uma dívida gigantesca formaram uma pesada herança para o governo de Raúl Alfonsín. Como o futebol e a política sempre foram da mão, antes do Mundial, o ciclo de Bilardo chegou a estar na corda floja. É por isso que o governo, por meio do Secretário de Esportes, declarou que o DT não tinha o seu apoio. Com base em uma atuação fenomenal de Maradona e ao trabalho da equipe, a seleção voltou a se consagrar campeão. Para se associar tardiamente ao triunfo e com menos sucesso que a equipe, Alfonsín cedeu aos campeões do mundo a varanda da Casa Rosada.Chegando ao ano de 2022 e com a declaração explícita da ministra de trabalho, vemos novamente a tentativa de usar o futebol, mas sobretudo o mundo, como instrumento político. Usar a competição futebolística como tela e aproveitar o fervor social pelo selecionado para cobrir a crise urgente que atravessa o nosso país. Além da decisão de que nenhum funcionário viaje ao Mundial, existe um clima generalizado na Casa Rosada de que uma vitória da Selecção mudará o ânimo caldeado de milhares de argentinos. Muitos funcionários fazem contas e avaliam alguns dos fatos políticos mais relevantes que pela febre do Mundial poderiam passar despercebidos. O primeiro deles é a aprovação no Senado do projeto de Orçamento 2023, que gerará um debate árduo pelo corte de despesas. O outro tema que irá gerar polêmica durante este período é o dos dados de inflação de novembro que se dariam a conhecer a metade de dezembro. O último eixo problemático é o bônus de fim de ano para trabalhadores do setor privado que não está previsto na agenda do governo.Será o Mundial do Qatar 2022 a cortina de fumaça perfeita para desviar a atenção dos argentinos até fim de ano?

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lucia boccio

Lucia Boccio

Sou Lucia, licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Torcuato Di Tella e me especializei em comunicação e jornalismo. A escrita foi sempre para mim o caminho para plasmar minhas opiniões, assim como um meio de reflexão. Fan da literatura, arte e música. De coração milionário.

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