Os discursos de Javier Milei (Argentina), Rodrigo Paz (Bolívia), José Antonio Kast (Chile), José Manuel Restrepo em representação de Abelardo de la Espriella (Colômbia), Daniel Noboa (Equador), Keiko Fujimori (Peru), Santiago Peña (Paraguai) e Nayib Bukele (El Salvador) não constituem um manifesto único. No entanto, revelam convergências suficientemente densas para esboçar um perfil ideológico compartilhado, um alinhamento internacional reconhecível e um diagnóstico comum dos problemas que estes governos consideram existenciais. Frente a eles se perfila, com outra gramática, o polo que agrupa México, Brasil e Uruguai, em distinto grau vinculado a Cuba e Nicarágua.
A coincidência mais nítida é a securitização da política externa. Em quase todos esses discursos, a segurança deixa de ser um assunto de polícia interna e se apresenta como um fenômeno transnacional que exige coordenação hemisférica. O Equador descreve redes de narcotráfico, mineração ilegal, tráfico humano e lavagem; a Colômbia clama por uma arquitetura internacional contra o narcotráfico e uma definição comum de terrorismo; a Bolívia incorpora o “narcoterrorismo” ao seu diagnóstico; o Chile fala de crime organizado que transborda fronteiras; o Peru, na primeira intervenção de Fujimori diante da Assembleia, equipara as organizações criminosas com grupos terroristas e reivindica a experiência peruana contra o Sendero Luminoso como precedente de uma guerra de novo tipo; El Salvador, com Bukele, insiste que a recuperação do monopólio da violência por parte do Estado é a condição prévia para qualquer desenvolvimento. Argentina e Paraguai se inscrevem na mesma lógica. O dado institucional que dá consistência a essa retórica é a adesão desses países —com calendários distintos— ao Escudo das Américas, o mecanismo de coordenação impulsionado por Washington para o intercâmbio de informações e a perseguição de organizações criminosas. Não se trata apenas de analogias verbais: há uma estrutura de cooperação que os vincula entre si e com os Estados Unidos.
Esse eixo de segurança se articula com uma segunda convergência: a defesa de uma economia aberta ao investimento, à propriedade e à segurança jurídica. Paz contrapõe o “capitalismo para todos” ao ciclo associado a Evo Morales e Hugo Chávez; Milei radicaliza a defesa do capitalismo de livre mercado e a crítica ao intervencionismo regulatório, inclusive em matéria tecnológica; Kast oferece aos investidores regras estáveis e contratos respeitados; Peña insiste que a prosperidade depende de instituições previsíveis e mercados abertos; Fujimori e Noboa combinam abertura econômica com prioridade securitária; Bukele apresenta a pacificação do território como o ativo que permite o retorno de capitais e de emigrantes. Os recursos estratégicos —lítio, cobre, hidrocarbonetos, energia— deixam de ser apenas emblemas de soberania extrativa e passam a ser concebidos como ativos geopolíticos para atrair investimentos, tecnologia e alianças. A inteligência artificial aparece, conforme o caso, como motor de crescimento, ameaça criminal ou campo que não deve ser sufocado por uma regulamentação preventiva.
Destes dois pilares —segurança hemisférica e liberalismo econômico— desprende-se um perfil ideológico que não é idêntico em todos, mas sim reconhecível. Trata-se de uma direita ou centro-direita contemporânea que combina liberalismo de mercado, conservadorismo político ou cultural em doses variáveis, nacionalismo soberanista e uma concepção da democracia como contrapeso ao autoritarismo. Fujimori introduz com mais clareza que outros o componente cultural: a crítica a “agendas” internacionais que teriam debilitado a família e polarizado as sociedades. Milei ocupa o extremo libertário e anti-burocrático. Kast e Peña são mais institucionalistas. Paz representa a ruptura mais dramática com o ciclo anterior na Bolívia. Noboa, Restrepo e Bukele privilegiam um Estado forte em matéria de ordem pública. Nenhum deles propõe um isolamento. Todos aceitam a cooperação internacional desde que reforce, e não limite, a capacidade de decisão nacional. O conceito que melhor resume essa síntese é o de um multilateralismo soberanista: reformar as Nações Unidas para torná-la mais eficaz, menos burocrática e mais atenta às prioridades dos Estados, não para dissolvê-la.
Os alinhamentos internacionais se deduzem com clareza. Os Estados Unidos aparecem como o principal parceiro estratégico, especialmente em segurança, inteligência e, em vários casos, investimento. Milei declara a Argentina “inequivocamente alinhada” com o Ocidente, Washington e Israel. O Paraguai aprofunda uma relação já estreita com os Estados Unidos e Taiwan. O Equador e El Salvador construíram vínculos densos em matéria de luta contra o crime. O Chile e a Bolívia, apesar de tradições diplomáticas distintas, se incorporam ao mesmo dispositivo hemisférico. A Colômbia marca uma virada em relação ao período anterior. Israel figura de maneira explícita no discurso argentino e, de forma mais discreta, na afinidade ocidental do conjunto. A China, a Rússia, o Irã e a Venezuela são observados com uma cautela muito superior à da onda de governos do chamado Socialismo do Século XXI.
Os problemas que todos enfrentam, e que percorrem os textos, são o crime transnacional, a fraqueza ou captura de instituições, a necessidade de atrair capital em um ambiente de competição global por minerais críticos e tecnologia, e a percepção de que o sistema de Nações Unidas, desenhado em 1945, responde com lentidão a crises contemporâneas. A isso se soma, em vários países, a tensão entre soberania e pressão externa, e a reivindicação de que a democracia não se reduza a um procedimento eleitoral, mas que seja condição de inserção internacional e de liberdade econômica. No caso argentino reaparece a questão das Malvinas; no paraguaio, Taiwan; no peruano e salvadorenho, a memória da luta antiterrorista ou antimáfias como fonte de legitimidade.
A América Latina, vista a partir desta Assembleia, não aparece como um bloco nem como uma simples “mudança à direita.” Aparece dividida em dois modelos enfrentados, com um espaço intermediário que complica qualquer dicotomia perfeita. De um lado, o polo liberal-conservador aliado dos Estados Unidos e Israel, cuja expressão institucional mais visível é o Escudo das Américas e cujo linguagem comum é o da segurança, do mercado e da reforma restritiva ou eficientista da ONU. Do outro, os herdeiros —em sentido amplo e não uniforme— do ciclo do Socialismo do Século XXI e de uma tradição soberanista crítica da hegemonia americana: México, Brasil e Uruguai, que se vinculam em distinto grau com Cuba e Nicarágua. Lula da Silva formula a tese de que o Brasil não cabe no quintal traseiro de nenhuma potência e defende um multilateralismo de autonomia estratégica. Yamandú Orsi encarna uma social-democracia internacionalista que rejeita tanto a confrontação permanente quanto a subordinacão. O México, representado por seu chanceler, insiste na não intervenção e no direito internacional, em um contexto de acusações americanas sobre os cartéis. Cuba e Nicarágua radicalizam essa crítica até o antiimperialismo e a defesa explícita do socialismo.
A paradoxalidade, sublinhada pelos próprios discursos do primeiro grupo, é que reivindicam ao mesmo tempo mais soberania nacional e mais cooperação internacional; um Estado mais forte em segurança e uma economia mais aberta; uma ONU que não desapareça, mas que deixe de impor agendas internas. Essa combinação —e não uma identidade ideológica monolítica— é o que permite falar de uma comunidade de convergência estratégica. Não há ainda um bloco comparável ao Mercosul nem uma aliança militar formal. Há, sim, uma redistribuição das preferências sobre a ordem internacional. As mesmas palavras —soberania, democracia, multilateralismo, desenvolvimento— circulam por ambos os polos com significados políticos distintos. Essa disputa semântica, mais que qualquer contagem de votos no hemiciclo de Nova York, é o dado mais revelador da América Latina que emerge em 2026.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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