A estreiteza do resultado, com cerca de 4,4 milhões de votos de diferença e um país dividido em dois blocos de tamanho comparável, antecipa um mandato em que a capacidade de mobilização eleitoral do dirigente do Partido dos Trabalhadores deverá se traduzir em governabilidade efetiva a partir de janeiro de 2027. A desaceleração econômica, o endividamento de famílias e empresas, a força institucional da oposição e as tensões com Washington testarão sua habilidade para conciliar promessas sociais com disciplina fiscal, enquanto a idade do mandatário —completará 81 anos em 27 de outubro— transforma a sucessão em uma questão central para a esquerda.
A vitória não encerrou a fratura política. Flávio Bolsonaro anunciou sua intenção de contestar judicialmente o resultado, invocando a prorrogação de duas horas na votação por problemas de transporte. A autoridade eleitoral proclamou Lula, e as acusações requerem provas verificáveis; no entanto, o bolsonarismo construiu parte de sua identidade na desconfiança em relação às instituições eleitorais e judiciais. Essa negativa em aceitar o desfecho pode prolongar a polarização além da campanha. Quase metade do eleitorado válido escolheu o adversário, por motivos diversos —segurança pública, carga tributária, valores conservadores ou o custo de vida—, o que impede interpretar os 51,79% como uma maioria social homogênea.
O Congresso reforça essa restrição. O Partido Liberal, principal força bolsonarista, contará com 121 deputados e 28 senadores, em comparação com os 70 deputados e nove senadores do PT. A direita e os partidos conservadores, em conjunto, possuem uma capacidade de bloqueio superior à de qualquer bancada individual. O Centrão, conglomerado heterogêneo de formações de centro e centro-direita, recuperará seu papel de pivô: seus legisladores negociam de acordo com o assunto, mas em troca de cargos, recursos orçamentários e concessões programáticas. Como salientou a cientista política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a crescente autonomia dos parlamentares, alimentada por sua influência na distribuição de uma parte substancial do orçamento federal, complica a construção de maiorias estáveis. Lula deverá evitar que cada acordo eroda a coerência de seu programa; caso contrário, a oposição poderá utilizar comissões, votações orçamentárias e o controle político das câmaras para desgastar o Executivo.
O front econômico constitui o teste mais imediato. Os organismos internacionais projetam crescimento, embora moderado: o Fundo Monetário Internacional estimou em outubro uma expansão de 2,2% para 2026 e de 1,9% para 2027. Não se trata de uma recessão confirmada, mas de uma economia que perde impulso e enfrenta pressões inflacionárias persistentes. A dívida pública bruta supera 82% do PIB, e menos de 8% do orçamento federal é suscetível de ajustes discricionários devido ao peso dos gastos obrigatórios. Com taxas de juros de referência em 13,75% e uma inflação anual de 4,6% —acima do limite superior de tolerância do Banco Central—, o financiamento empresarial se encarece, o investimento recua e a carga financeira das famílias se multiplica. O economista Mauro Rochlin, da Fundação Getulio Vargas, resumiu o dilema com uma formulação contundente: “os três grandes problemas do Brasil são o problema fiscal, o problema fiscal e o problema fiscal”.
Cumprir simultaneamente as promessas de alívio aos consumidores, apoio a microempresários, aumento real do salário mínimo e expansão de serviços públicos exigirá um planejamento cuidadoso. Cerca de 84 milhões de pessoas e 9,3 milhões de empresas registravam atrasos, segundo estimativas da Serasa; a renegociação com descontos pode devolver solvência e reativar o consumo, mas não elimina as causas estruturais do sobreendividamento. A ampliação do regime de microempresários individuais e certas isenções tributárias podem favorecer a formalização, embora uma redução permanente de receitas sem compensação agravaria as tensões. A proposta de proibir as apostas esportivas online, argumentada como proteção contra o endividamento familiar, implica uma perda estimada de receitas próxima a 6.800 milhões de reais até 2027. A gratuidade do transporte público nos fins de semana ampliaria o acesso ao emprego e à cultura, mas requer a definição de fontes de financiamento estáveis entre a União, estados e municípios. Em conjunto, as iniciativas anunciadas podem superar 300.000 milhões de reais, segundo a Instituição Fiscal Independente; o valor não é um custo executado, mas um aviso sobre a magnitude das decisões. A distinção crítica residirá em separar medidas que elevem a produtividade e as receitas futuras —infraestrutura, educação, inovação, transição energética— daquelas que oferecem alívio imediato sem corrigir desequilíbrios.
A política externa estará condicionada pela relação com Donald Trump. Durante 2026, Washington impôs tarifas adicionais a produtos brasileiros —de 25% em certos casos e um adicional de 12,5% vinculado a medidas sobre trabalho forçado—, em uma disputa que misturou comércio com o processo judicial contra Jair Bolsonaro. O Brasil rejeitou as justificativas e defendeu a negociação sem descartar respostas. O desafio consiste em impedir que a defesa da soberania derive em uma confrontação que prejudique exportações e investimentos. A China absorveu mais de 30% das exportações brasileiras em 2025, em comparação com 12% dos Estados Unidos e 11% da União Europeia; essa concentração em produtos agrícolas, petróleo e minério de ferro fortalece as receitas externas, mas expõe o país a oscilações na demanda chinesa.
Lula reiterou que o Brasil não deve se subordinar a nenhuma potência. Essa autonomia estratégica exige pragmatismo: uma retaliação indiscriminada encareceria as importações e afetaria empresas e consumidores; uma concessão excessiva enfraqueceria o discurso soberanista.
Os BRICS oferecem um marco de cooperação financeira e diplomática com economias emergentes, mas não constituem uma aliança homogênea nem uma alternativa automática. A relação bilateral com a China responde a interesses acumulados ao longo de várias décadas; é conveniente evitar tanto a subordinação a Pequim quanto a ruptura motivada por pressões de Washington.
A relação com a Argentina adiciona uma dificuldade imediata. Os ataques verbais de Javier Milei contra Lula e contra integrantes do Supremo Tribunal Federal levaram Brasília a reduzir o nível de representação diplomática em Buenos Aires. A intervenção do presidente argentino na campanha brasileira, apoiando Flávio Bolsonaro, agravou a disputa, que se projeta sobre o Mercosul. As divergências sobre abertura comercial e integração regional podem dificultar as negociações, embora os interesses industriais e comerciais compartilhados tornem custosa uma ruptura. Como salientou Oliver Stuenkel, da Fundação Getulio Vargas, as diferenças ideológicas pesam nos encontros simbólicos, mas nem sempre transformam o conteúdo das relações bilaterais. Preservar mecanismos institucionais é mais relevante do que a afinidade pessoal. Em um ambiente regional menos favorável do que o das primeiras presidências de Lula, sua influência dependerá menos da convergência ideológica e mais do peso econômico brasileiro e da utilidade concreta da integração.
A dimensão pessoal do mandato não pode ser ignorada. Lula concluirá o período com 85 anos se o completar. A idade não implica incapacidade, mas torna a continuidade da liderança uma questão política. Durante décadas, tem sido o principal fator de coesão eleitoral da esquerda; sua trajetória sindical, sua experiência e sua capacidade comunicativa não foram plenamente reproduzidas por nenhum sucessor. Entre os nomes mencionados estão Fernando Haddad e Camilo Santana, embora sua capacidade de construir coalizões nacionais permaneça por demonstrar. A ausência de uma sucessão ordenada pode desencadear disputas internas e facilitar a persistência do bolsonarismo além de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos por sua participação em uma tentativa de golpe. O risco do “pato manco” —perda de influência de um governante que se aproxima do final de seu mandato— se acentua: os aliados podem olhar para o sucessor, os adversários intensificar ofensivas e o presidente perder capacidade de disciplinar sua coalizão. Impulsionar a renovação de quadros e permitir que possíveis sucessores adquiram experiência exige uma paradoxa difícil: preparar o futuro sem enfraquecer a autoridade presente.
O legado do quarto mandato dependerá da capacidade de priorizar. Avançar na reindustrialização, nas infraestruturas, na transição energética e na redução da desigualdade, ao mesmo tempo em que se mantêm programas como Bolsa Família, responde a problemas estruturais, mas exige mobilizar recursos, atrair capital privado e elevar a produtividade em um contexto de incerteza comercial e altos custos financeiros. O Brasil conta com vantagens —dimensão territorial, recursos naturais, capacidade agroindustrial e potencial energético—, mas converter tudo isso em desenvolvimento diversificado requer estabilidade regulatória, formação e inovação. Conciliar o alívio das dificuldades materiais da população, a confiança nas contas públicas e a negociação política sem desdibujar o programa constitui o teste central. Se privilegiar o gasto imediato sem financiamento, agrava os desequilíbrios; se aplicar um ajuste severo, erode sua base social. A autonomia estratégica só será sustentável se se traduzir em mercados diversificados e benefícios econômicos. A vitória de 25 de outubro prolongou a trajetória de Lula, mas não resolveu a polarização, as restrições orçamentárias nem o vazio sucessório. Aos 80 anos, ele demonstrou mais uma vez sua capacidade para disputar eleições competitivas; agora deverá mostrar que pode governar um país dividido e deixar instituições capazes de funcionar quando ele já não ocupe o centro do palco.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Docente da Universidade de Buenos Aires

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