Sou Jesús Daniel Romero, e o que estamos vendo com Nicolás Maduro não é simplesmente um caso judicial. É, na minha opinião, um dos momentos mais importantes da história recente da segurança hemisférica.
Maduro se apresenta à justiça dos Estados Unidos acusado de conspiração de narcotráfico e armamento contra este país. E o sinal é claro: não o tratarão como chefe de Estado. O tratarão como o que consideram que é: um narcotraficante.
A diferença aqui é que não estamos falando apenas de um indivíduo. Estamos falando de um sistema. De um país que, segundo a acusação, foi utilizado como plataforma para o narcotráfico.
E aí é onde isso, na minha análise, muda de dimensão. Porque este caso não se trata apenas de provar uma conspiração. Trata-se, potencialmente, de expor ao mundo uma estrutura.
Para isso, a promotoria americana precisa de mais do que evidência documental. Precisa de testemunhas internas. E aqui é onde, na minha hipótese, surgem nomes-chave.
Álex Saab, Raúl Gorrín, Wilmer Ruperti… figuras que foram operadores, poderiam, sob pressão, acabar cooperando. Não afirmo isso, mas coloco como um cenário. Já vimos isso em outros casos. Quando o sistema se fecha, alguns escolhem se salvar.
Inclusive, na minha leitura, a figura de Delcy Rodríguez gera perguntas. Está buscando se readequar? Não sei, mas não descarto. E enquanto isso, outras peças se movem. Padrino López, Cabello… o tabuleiro não está parado.
O próprio Trump disse que mais acusações poderiam vir. Não sabemos quais, nem quando, mas isso sugere que o caso está se ampliando. Será que a porta se abrirá para conexões com grupos como Hezbollah ou Irã? Não afirmo isso, mas é uma possibilidade que não descartaria.
Agora bem, este processo durará o que tiver de durar. É pouco provável que Maduro mantenha sua defesa privada. Se ele ficar sem recursos, poderá acabar sendo representado por um advogado público. E nesse cenário, sua melhor opção será negociar.
Porque, no final, este não é apenas o julgamento dele.
Isso é, potencialmente, o desmantelamento de toda uma estrutura.
E aqui falo com fundamento: servi como testemunha especialista para o Departamento de Justiça em casos como o de Deborah Lynn Mercer, então entendo a magnitude desses processos. Além disso, em meu livro “O Voo Final: A Rainha do Ar”, expõe evidências de como milhares de aviões carregados de cocaína partiram da Venezuela em direção aos EUA através da América Central e do Caribe. É um tema que conheço em profundidade.
Não digo isso como certeza. Coloco como análise. Mas se algo sabemos da justiça federal dos Estados Unidos é isto:
quando esses casos começam, não param, não retrocedem e não terminam onde começaram.
Este não é um processo desenhado para uma única acusação nem para um único indivíduo. É um processo que evolui, que se expande e que, com o tempo, acaba revelando muito mais do que inicialmente se apresenta à opinião pública.
E se esse padrão se mantiver — como historicamente tem ocorrido — o que estamos vendo hoje pode ser apenas a primeira fase de um caso muito mais amplo.
Um caso que não busca apenas uma condenação, mas que poderia redefinir como se enfrenta, a partir do sistema judicial americano, a convergência entre narcotráfico, poder político e redes internacionais.
Esse é, na minha opinião, o verdadeiro alcance deste momento.
Jesús Daniel Romero é Comandante Aposentado de Inteligência Naval. Foi Subdiretor de Inteligência das Forças Navais do Comando Sul dos Estados Unidos. Além disso, é escritor e consultor permanente na mídia americana, sobre temas de sua especialidade.

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