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Maduro, Trump e as ficções que se tornam reais

Por Matias Maruzza

Portada

Ontem foi postada uma foto de Maduro algemado em um avião na conta do Trump.

Ninguém o viu ser preso na rua. Não houve transmissão ao vivo da operação. Não há registro de qualquer processo legal. Apenas uma imagem e um tweet.

E, ainda assim, o preço do petróleo se movimentou. Os mercados reagiram. Os governos emitiram declarações. A mídia cobriu "o evento".

Que evento? A prisão de Maduro ou a publicação do tweet?

Aqui é onde a maioria das análises que vi esses dias ficam aquém. Porque insistem em perguntar: é verdade ou mentira? Ele está realmente preso? É uma encenação?

Perguntas erradas para o fenômeno que estamos vendo.

AlInstanteTN I O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou através de sua conta no Twitter (X) que Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores teriam sido capturados e extraídos de

A CCRU e as ficções produtivas

Ali pelo final dos anos noventa, um grupo de acadêmicos na Universidade de Warwick formou o que chamaram de CCRU: Unidade de Pesquisa da Cultura Cibernética. Entre eles estavam Nick Land, Sadie Plant, Mark Fisher, e outros que depois se tornariam influentes na teoria contemporânea.

Uma de suas ideias centrais era o conceito de hiperstição: ficções que se tornam reais por serem narradas e acreditadas.

Não é a mesma coisa que uma mentira. Uma mentira pressupõe uma verdade que está sendo ocultada ou distorcida. A hiperstição opera de forma diferente: não oculta nada, produz algo.

Também não é o mesmo que uma profecia autocumprida comum. É mais do que isso. É entender que certas narrativas funcionam como máquinas produtivas que geram as condições materiais de sua própria realização.

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O exemplo mais óbvio que não vemos

Pense na grana, a moeda, a biyuya, a tarasca.

Uma nota de cem dólares é um pedaço de papel. Não tem valor intrínseco. Não pode ser comida, não te abriga, não te cura. Sua paridade com o ouro foi abolida há décadas. E, ainda assim, funciona como se tivesse valor. Por que? Porque todos agimos como se tivesse.

O dinheiro é uma hiperstição bem-sucedida. Uma ficção compartilhada que, por ser compartilhada, produz efeitos absolutamente reais: movimenta bens, constrói edifícios, financia guerras, alimenta populações.

Não faz sentido perguntar se o valor do dinheiro é "verdadeiro" ou "falso". A pergunta está obsoleta. O dinheiro funciona. Produz realidade.

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Voltemos a Maduro

Com isso em mente, olhemos novamente o que aconteceu.

Trump posta uma foto. Diz que Maduro foi preso. Os mercados reagem. Os governos respondem. A mídia cobre.

Importa se Maduro está "realmente" preso em algum sentido verificável? A foto já cumpriu seu papel. Já produziu movimentos de capital, re-posicionamentos geopolíticos, narrativas que vão estruturar as próximas semanas de cobertura e também fez com que Nike quebrasse recorde de vendas com o traje que o mais duro usou.

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O tweet não foi um relato sobre um evento. O tweet foi o evento.

Isso não é uma teoria da conspiração. Não estou dizendo que "estão nos mentindo". Estou dizendo algo mais evidente: que a distinção entre verdade e mentira, entre real e falso, deixou de ser referencial para entender esses fenômenos.

Por que nossas categorias não servem

Quando vemos algo assim, nosso instinto é pegar a bússola moral: quem são os bons? Quem são os maus? Quem diz a verdade? Quem mente?

Bom-mau. Vítima-victimário. Verdadeiro-falso.

São categorias do século XIX. Ferramentas projetadas para um mundo onde a propaganda funcionava ocultando informações, onde havia uma realidade "lá fora" que o poder distorcia, onde o trabalho crítico era clarear a névoa para ver claro.

Mas hoje o poder não funciona ocultando. Funciona produzindo. Não esconde a realidade atrás de uma cortina de fumaça. Gera realidade através da circulação de signos.

Não há uma verdade escondida debaixo do tweet de Trump esperando para ser descoberta. O tweet é a coisa. É a máquina produtiva fazendo seu trabalho.

E então, o que?

Aqui é onde as pessoas costumam perguntar: "Bom, e o que fazemos? Nos resignamos? Tudo vale?"

Não.

Mas precisamos mudar as perguntas que fazemos.

Em vez de "o que é verdade?", perguntar "o que esta narrativa produz?"

Em vez de "quem está certo?", perguntar "que efeitos materiais gera esta circulação de signos?"

Em vez de "o que está realmente acontecendo?", perguntar "quais futuros se tornam mais prováveis se esta ficção se massifica?"

E talvez a mais importante: o que queremos fazer real?

Porque se as ficções são máquinas produtivas de realidade, então temos que pensar que ficções estamos alimentando, ampliando, fazendo circular. Não a partir da ingenuidade de acreditar que podemos "dizer a verdade" contra as mentiras do poder. Mas a partir da compreensão de que todos estamos envolvidos em uma guerra de narrativas onde o prêmio não é estar certo, mas produzir o mundo.

Nota final

Não escrevo isso para te dizer o que pensar sobre a Venezuela ou sobre Trump. Genuinamente não me interessa entrar nesse debate.

Escrevo porque me frustra ver a mesma conversa estéril se repetir toda vez que algo assim acontece: “é verdade”, “é mentira”, “a mídia mente”, “tem que buscar a informação real” “foi assim que o socialismo começou”.

Tudo isso pressupõe um mundo que já não existe. Um mundo onde havia um território debaixo do mapa.

Hoje o mapa é a única coisa que existe. E os que entendem isso são os que estão desenhando. Precisamos lutar contra os bruxos hipersticionais do capital.

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