Há algo profundamente revelador —e também inquietante— na maneira como uma sociedade decide falar sobre suas figuras mais representativas. Não por uma questão de solenidade vazia nem de blindagem simbólica, mas porque nesse gesto se joga algo mais profundo: os limites do desacordo, a qualidade do debate público e, em última instância, o tipo de comunidade que estamos construindo. O que aconteceu com Enzo Ferreira e suas declarações sobre Mercedes Sosa não é simplesmente um exabrupto isolado, nem mesmo um escândalo a mais dentro do ruído constante das redes sociais. É, mais bem, um espelho desconfortável que reflete uma imagem de época: uma em que a crítica desliza com facilidade demais para o desprezo, e onde a palavra perde densidade até se tornar um projétil.

Porque sim, é completamente legítimo não concordar com Mercedes Sosa. Seria absurdo exigir unanimidade ideológica diante de uma figura que, precisamente, nunca se propôs a ser neutra. Seu compromisso político foi explícito, seu posicionamento esteve à vista, e sua obra mesma é inseparável dessa tomada de partido. Mas há uma diferença essencial —e cada vez mais difusa— entre discordar e degradar. Entre discutir ideias e reduzir uma pessoa a um insulto que passa pelo corpo ou pela doença. Não é uma questão de correção política nem de susceptibilidade excessiva: é uma questão de pensamento. Quando o argumento desaparece e é substituído pela agressão, o que fica não é uma postura mais forte, mas uma mais pobre.

Chamar Mercedes Sosa de “gorda comunista” não é uma crítica ideológica. É uma brutal simplificação que revela mais sobre quem a enuncia do que sobre a figura que pretende atacar. E quando essa simplificação escala para termos como “câncer”, o problema deixa de ser retórico para se tornar ético. Não há ali uma discussão sobre modelos de país, sobre história, sobre cultura. Há, em vez disso, uma forma de desumanização que se disfarça de opinião, como se tudo pudesse ser dito sem consequências, desde que se enquadre dentro da liberdade de expressão.
Mas a liberdade de expressão não é um salvo-conduto para o vazio. Não é a habilitação automática de qualquer forma de violência simbólica. É, em todo caso, uma ferramenta para enriquecer o debate, não para degradá-lo. E quando alguém, a partir de um lugar de responsabilidade pública, confunde essas dimensões, o que fica em evidência não é apenas uma falta de sensibilidade, mas uma precariedade na forma de entender o público.
Porque não é irrelevante quem fala. Não se trata de um usuário anônimo perdido no oceano digital, mas de alguém que ocupa um cargo institucional, que faz parte de uma estrutura que, paradoxalmente, leva o nome da mesma artista que agride. Essa tensão não é anedótica: é profundamente simbólica. O que significa dirigir uma emissora chamada Mercedes Sosa enquanto é reduzida a um insulto? Que tipo de relação com a cultura implica esse gesto? Não basta pedir desculpas pela metade nem esclarecer que se reconhece seu talento. O problema não está em se considerá-la uma boa cantora ou não, mas na maneira como se a nomeia, no tipo de linguagem que se escolhe para se referir a alguém que, além de qualquer posicionamento político, faz parte do patrimônio cultural de um país.
Reduzir Mercedes Sosa a um rótulo ideológico é, além de injusto, intelectualmente preguiçoso. Porque implica ignorar —ou escolher ignorar— a complexidade de uma figura que atravessou décadas de história latino-americana, que foi perseguida, censurada, obrigada ao exílio, não por uma caricatura ideológica, mas pelo peso real de sua voz em contextos onde cantar poderia ser um ato político por si mesmo. Sua obra não se limita a uma militância partidária nem a um slogan. É, em muitos sentidos, um arquivo emocional de uma época, um registro sensível de dores coletivas, de lutas, de resistências.
Há algo profundamente desconfortável em figuras como a dela, e talvez por isso gerem reações tão extremas mesmo hoje. Não porque sejam incuestionáveis, mas porque obrigam a pensar. Porque interpelam. Porque não se acomodam facilmente às lógicas binárias do presente, onde tudo parece ter que se resolver em termos de adesão ou rejeição absoluta. Mercedes Sosa não é apenas o que pensava politicamente. É também o que gerou, o que representou, o que deixou em quem a ouviu em momentos em que o silêncio era imposto.
E, no entanto, mesmo que alguém decidisse ficar apenas com sua dimensão ideológica, mesmo que escolhesse discuti-la, questioná-la ou rejeitá-la, nada disso justificaria o recurso ao insulto. Porque o insulto não ilumina, não argumenta, não persuade. Apenas clausura. É o ponto final de uma conversa que nem chegou a começar.
Talvez o mais preocupante de tudo isso não seja o fato em si, mas a naturalização que o rodeia. A rapidez com que esse tipo de expressões circula, se compartilha, se celebra até mesmo em certos espaços. A ideia de que tudo vale, de que a violência verbal é apenas um estilo a mais dentro da conversa pública. Como se a degradação da linguagem não tivesse impacto, como se não moldasse, pouco a pouco, a maneira como nos relacionamos com os outros.
Porque as palavras não são inocuas. Constroem climas, habilitam práticas, delimitam o possível. Quando se ultrapassa o limiar do que é dito, quando o insulto se torna moeda corrente, o que se erosiona não é apenas o respeito por figuras públicas, mas a qualidade do espaço comum. E isso, tarde ou cedo, tem consequências.
Nesse contexto, a reação da família de Mercedes Sosa e de diferentes espaços culturais introduz outro registro, quase em contraste. Não porque neguem a gravidade do que aconteceu, mas porque escolhem não responder no mesmo tom. Há nessa decisão uma forma de posicionamento que, longe de ser ingênua, é profundamente consciente. Não se trata de silenciar diante do agravo, mas de não reproduzir sua lógica. De não entrar em uma espiral onde a resposta ao ódio é mais ódio, onde a discussão se torna uma competição de desqualificações.

“Sua memória não precisa de defesa”, dizem. E talvez haja algo de verdade nisso. Não no sentido de que não se deva apontar a injustiça, mas na ideia de que há trajetórias cuja densidade histórica as torna resistentes a esses esforços de redução. A obra de Mercedes Sosa não depende da opinião de um funcionário nem da viralização de um tweet. Está inscrita em algo mais amplo, mais profundo, mais difícil de erosão.
Mas isso não significa que não importa. Não significa que a forma como falamos sobre nossas figuras culturais seja irrelevante. Pelo contrário: é precisamente aí que se joga uma parte importante de nossa identidade coletiva. Em como lembramos, em como nomeamos, em como discutimos.
Talvez a pergunta que fica no ar não seja o que disse Ferreira, mas o que nos acontece como sociedade quando esse tipo de discurso encontra lugar. Em que momento se torna aceitável substituir o argumento pelo agravo. Em que ponto deixamos de exigir de nós mesmo um mínimo de consistência, de respeito, de pensamento.
Porque não se trata de blindar ninguém da crítica. Trata-se de sustentar a própria possibilidade da crítica, que só pode existir se houver algo mais do que insultos. Pode-se discordar de Mercedes Sosa, de sua ideologia, de seus posicionamentos. Pode-se discutir tudo isso, revisá-lo, até mesmo rejeitá-lo. O que não se pode —ou não se deveria— é esvaziar essa discussão de conteúdo até torná-la uma série de desqualificações que não dizem nada, que não constroem nada.
Há algo, em última instância, que excede este caso pontual. Tem a ver com a forma como entendemos a palavra. Se a usamos para abrir ou para fechar, para pensar ou para agredir, para construir ou para destruir. E nessa escolha, que parece mínima, cotidiana, quase automática, se joga muito mais do que acreditamos.
Porque quando o outro deixa de ser alguém com quem se pode discutir e passa a ser alguém que deve ser ridicularizado, a conversa já está perdida. E quando a conversa se perde, o que sobra não é uma sociedade mais livre, mas uma mais barulhenta, mais violenta e, no fundo, mais vazia.
Talvez por isso ainda incomode tanto Mercedes Sosa. Não pelo que disse, nem mesmo pelo que cantou, mas pelo que obriga a se perguntar. Sobre o passado, sobre o presente, sobre o lugar que a cultura ocupa em tudo isso. Sobre o que fazemos com nossas diferenças.
E, acima de tudo, sobre se ainda somos capazes de sustentá-las sem nos destruir no intento.
me gysta mas tienes que dar, antes de esta relfexion el contexto delo que paso, no asimilemos que todos saben lo ocurrido
8 Há algo profundamente revelador —e também inquietante— na maneira como uma sociedade decide falar sobre suas figuras mais representativas. Mas antes de chegar a essa reflexão, há um fato concreto, recente e perturbador que obriga a parar.
Nos últimos dias, circularam uma série de publicações na rede social X feitas por Enzo Ferreira, coordenador da Radio Nacional Tucumán e referente provincial de La Libertad Avanza. Embora as mensagens datem de fevereiro, sua circulação recente gerou uma forte repúdio social, político e cultural. Nesses posts, Ferreira referiu-se a Mercedes Sosa com expressões como “gorda comunista” e replicou ainda uma mensagem de outro usuário que a qualificava como “câncer”. Longe de retratar-se imediatamente, defendeu suas palavras sob o argumento de que se tratava de uma “descrição física e ideológica”, e até apelou ao “humor negro” para justificar o tom.
A reação não demorou a chegar. A família da artista exigiu publicamente sua renúncia, sinalizando a gravidade de que um funcionário público —e, mais ainda, alguém à frente de uma emissora que leva o nome da própria cantora— se expresse nesses termos. O Ente Cultural de Tucumán também repudiou as palavras, qualificando-as como inadmissíveis dentro do espaço público e advertindo sobre o perigo de que discursos de ódio e desvalorização circulem de âmbitos institucionais. Com o escândalo já instalado, Ferreira publicou um desmentido no qual pediu desculpas à família, embora sustentasse sua postura ideológica e voltasse a insistir que suas palavras tinham sido, em parte, “descritivas”.
Esse é o ponto de partida. Não uma discussão abstrata, não uma hipótese teórica sobre os limites da liberdade de expressão, mas um fato concreto que volta a colocar em tensão algo mais profundo: o que entendemos por discordar, que lugar damos ao respeito e que tipo de conversa pública estamos construindo.
Porque sim, é completamente legítimo não concordar com Mercedes Sosa. Seria absurdo exigir unanimidade ideológica frente a uma figura que, precisamente, nunca se propôs a ser neutra. Seu compromisso político foi explícito, seu posicionamento esteve à vista, e sua obra mesma é inseparável dessa tomada de partido. Mas há uma diferença essencial —e cada vez mais difusa— entre discordar e degradar. Entre discutir ideias e reduzir uma pessoa a um insulto que passa pelo corpo ou pela doença. Não é uma questão de correção política nem de susceptibilidade excessiva: é uma questão de pensamento. Quando o argumento desaparece e é substituído pela agressão, o que fica não é uma postura mais forte, mas uma mais pobre.
Chamar Mercedes Sosa de “gorda comunista” não é uma crítica ideológica. É uma brutal simplificação que revela mais sobre quem a enuncia do que sobre a figura que pretende atacar. E quando essa simplificação escala para termos como “câncer”, o problema deixa de ser retórico para se tornar ético. Não há ali uma discussão sobre modelos de país, sobre história, sobre cultura. Há, em vez disso, uma forma de desumanização que se disfarça de opinião, como se tudo pudesse ser dito sem consequências, desde que se enquadre dentro da liberdade de expressão.
Mas a liberdade de expressão não é um salvo-conduto para o vazio. Não é a habilitação automática de qualquer forma de violência simbólica. É, em todo caso, uma ferramenta para enriquecer o debate, não para degradá-lo. E quando alguém, a partir de um lugar de responsabilidade pública, confunde essas dimensões, o que fica em evidência não é apenas uma falta de sensibilidade, mas uma precariedade na forma de entender o público.
Porque não é irrelevante quem fala. Não se trata de um usuário anônimo perdido no oceano digital, mas de alguém que ocupa um cargo institucional, que faz parte de uma estrutura que, paradoxalmente, leva o nome da mesma artista que agride. Essa tensão não é anedótica: é profundamente simbólica. O que significa dirigir uma emissora chamada Mercedes Sosa enquanto é reduzida a um insulto? Que tipo de relação com a cultura implica esse gesto? Não basta pedir desculpas pela metade nem esclarecer que se reconhece seu talento. O problema não está em se considerá-la uma boa cantora ou não, mas na maneira como se a nomeia, no tipo de linguagem que se escolhe para se referir a alguém que, além de qualquer posicionamento político, faz parte do patrimônio cultural de um país.
6 Reduzir Mercedes Sosa a um rótulo ideológico é, além de injusto, intelectualmente preguiçoso. Porque implica ignorar —ou escolher ignorar— a complexidade de uma figura que atravessou décadas de história latino-americana, que foi perseguida, censurada, obrigada ao exílio, não por uma caricatura ideológica, mas pelo peso real de sua voz em contextos onde cantar poderia ser um ato político por si mesmo. Sua obra não se limita a uma militância partidária nem a um slogan. É, em muitos sentidos, um arquivo emocional de uma época, um registro sensível de dores coletivas, de lutas, de resistências.
Há algo profundamente desconfortável em figuras como a dela, e talvez por isso gerem reações tão extremas mesmo hoje.
y. Não porque sejam indiscutíveis, mas porque obrigam a pensar. Porque interpelam. Porque não se acomodam facilmente às lógicas binárias do presente, onde tudo parece ter que ser resolvido em termos de adesão ou rejeição absoluta. Mercedes Sosa não é apenas o que pensava politicamente. É também o que gerou, o que representou, o que deixou em quem a ouviu em momentos onde o silêncio era imposto.E, no entanto, mesmo que alguém decidisse ficar apenas com sua dimensão ideológica, mesmo que escolhesse discuti-la, questioná-la ou rejeitá-la, nada disso justificaria o recurso ao insulto. Porque o insulto não ilumina, não argumenta, não persuade. Apenas encerra. É o ponto final de uma conversa que nem chegou a começar.
Talvez o mais preocupante de tudo isso não seja o fato em si, mas a naturalização que o cerca. A rapidez com a qual esse tipo de expressões circulam, se compartilham, se celebram até mesmo em certos espaços. A ideia de que tudo vale, de que a violência verbal é apenas um estilo a mais dentro da conversa pública. Como se a degradação da linguagem não tivesse impacto, como se não moldasse, pouco a pouco, a forma como nos vinculamos com os outros.
Porque as palavras não são inocuas. Construem climas, habilitam práticas, delimitam o possível. Quando se ultrapassa o limite do que é dito, quando o insulto se torna moeda corrente, o que se erosiona não é apenas o respeito por figuras públicas, mas a própria qualidade do espaço comum. E isso, cedo ou tarde, terá consequências.
8 Nesse contexto, a reação da família de Mercedes Sosa e de diversos espaços culturais introduz outro registro, quase em contraste. Não porque neguem a gravidade do que ocorreu, mas porque escolhem não responder no mesmo tom. Há nessa decisão uma forma de posicionamento que, longe de ser ingênua, é profundamente consciente. Não se trata de calar diante do agravo, mas de não reproduzir sua lógica. De não entrar em uma espiral onde a resposta ao ódio é mais ódio, onde a discussão se torna uma competição de desqualificações.
“Sua memória não precisa de defesa,” dizem. E talvez haja algo de verdade nisso. Não no sentido de que não deva ser apontada a injustiça, mas na ideia de que existem trajetórias cuja densidade histórica as torna resistentes a essas tentativas de redução. A obra de Mercedes Sosa não depende da opinião de um funcionário nem da viralização de um tweet. Está inscrita em algo mais amplo, mais profundo, mais difícil de erosar.
Mas isso não significa que não importe. Não significa que a maneira como falamos sobre nossas figuras culturais seja irrelevante. Pelo contrário: é precisamente aí que se joga uma parte importante de nossa identidade coletiva. Em como lembramos, em como nomeamos, em como discutimos.
Talvez a pergunta que fica pairando não seja apenas o que disse Ferreira, mas o que nos acontece como sociedade quando esse tipo de discursos encontra lugar. Em que momento se torna aceitável substituir o argumento pelo agravo. Em que ponto deixamos de exigir um mínimo de consistência, de respeito, de pensamento.
Porque não se trata de proteger ninguém da crítica. Trata-se de sustentar a própria possibilidade da crítica, que só pode existir se houver algo mais que insultos. Pode-se discordar de Mercedes Sosa, de sua ideologia, de seus posicionamentos. Pode-se discutir tudo isso, revisá-lo, até mesmo rejeitá-lo. O que não se pode —ou não se deveria— é esvaziar essa discussão de conteúdo até convertê-la em uma série de desqualificações que não dizem nada, que não constroem nada.
Há algo, em última instância, que excede a este caso pontual. Tem a ver com a forma como entendemos a palavra. Com se a usamos para abrir ou para fechar, para pensar ou para agredir, para construir ou para destruir. E nessa escolha, que parece mínima, cotidiana, quase automática, se joga muito mais do que acreditamos.
Porque quando o outro deixa de ser alguém com quem se pode discutir e passa a ser alguém que deve ser ridicularizado, a conversa já está perdida. E quando a conversa se perde, o que resta não é uma sociedade mais livre, mas uma mais barulhenta, mais violenta e, no fundo, mais vazia.
Talvez por isso incomode tanto Mercedes Sosa ainda. Não pelo que disse, nem mesmo pelo que cantou, mas pelo que obriga a perguntar. Sobre o passado, sobre o presente, sobre o lugar que ocupa a cultura em tudo isso. Sobre o que fazemos com nossas diferenças.
E, acima de tudo, sobre se ainda somos capazes de sustentá-las sem nos destruir no processo.

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