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«O México é uma plataforma exportadora global: para a China, isso é altamente estratégico» (Diana Gamboa. Câmara de Comércio da China no México)

Por Poder & Dinero

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A relação entre o México e a China atravessa um momento de transformação profunda, embora não isento de tensões. O intercâmbio bilateral já supera os 100 bilhões de dólares anuais e a lógica do vínculo mudou: não se trata apenas de comércio, mas de investimento, relocalização produtiva e colaboração industrial.

No entanto, desde janeiro de 2026, o México aplica tarifas que variam de 5% a 50% sobre importações chinesas em mais de 1.400 categorias tarifárias — uma medida que Pequim qualificou de protecionista e contra a qual advertiu com possíveis contramedidas.

Nesse contexto complexo, a China Chamber Mexico - câmara binacional presidida por Vicente Roqueñí, diretor sênior de Relações com Governo e Política Pública para Latam da DiDi -, se posiciona como um dos atores centrais desse processo, articulando o ecossistema empresarial entre os dois países em setores que vão desde tecnologia e automotivo até logística, energia e infraestrutura.

À frente da Subdireção da instituição está Diana Gamboa, uma das vozes mais ativas na construção desse vínculo. Com uma visão que combina pragmatismo institucional e visão estratégica de longo prazo, Gamboa conduz o trabalho cotidiano de “traduzir, conectar e gerar confiança” entre dois ecossistemas empresariais que, segundo ela, têm mais complementaridade do que costuma ser reconhecido. Desde a assinatura de acordos com atores globais até a coordenação da presença mexicana em feiras internacionais na China, sua agenda reflete o novo estádio de uma relação que já não é medida apenas em volume comercial.

“Estamos em um momento de redefinição estratégica”, afirma Gamboa. “A China já é o segundo parceiro comercial do México, mas a relação está transitando de uma lógica puramente comercial para uma de investimento, relocalização produtiva e colaboração industrial. Hoje, o vínculo é mais sofisticado, mais estratégico e com maior profundidade setorial.” O ReporteAsia conversou com ela sobre os marcos recentes da Câmara, as oportunidades concretas do momento e as tensões geopolíticas no horizonte.

Um ponto de inflexão institucional

Um dos momentos mais significativos para a Câmara no último período foi a assinatura do Memorando de Entendimento com a Câmara de Representação Empresarial da China no México (CREC) e a coordenação do pavilhão mexicano na China International Supply Chain Expo (CISCE), prevista para junho deste ano em Pequim. Para Gamboa, esses fatos não são eventos isolados, mas sinais de uma mudança qualitativa na relação bilateral.

“Este é um ponto de inflexão institucional”, destacou. “A assinatura do MoU com a CREC e a coordenação do pavilhão mexicano na CISCE refletem um nível de confiança e maturidade sem precedentes. O que distingue esta etapa é a institucionalização da relação empresarial, com mecanismos formais de cooperação e presença estratégica em plataformas globais. O México já não é um ator passivo, mas um participante ativo na construção de cadeias globais de suprimento.”

As oportunidades do momento

Além dos marcos institucionais, Gamboa identifica três grandes vetores de oportunidade que definem o presente da relação. O primeiro é o nearshoring inteligente: empresas chinesas que utilizam o México como plataforma de exportação para a América do Norte. O segundo, a eletromobilidade e a tecnologia, com investimentos em carros elétricos, baterias, semicondutores e telecomunicações. O terceiro, a agroindústria e os alimentos, impulsionados pela crescente demanda chinesa por produtos mexicanos com valor agregado.

“O México tem a possibilidade de se inserir em cadeias globais de valor com maior sofisticação”, afirmou. E também alertou sobre os desafios que esse processo enfrenta: “o desafio não é apenas comerciar mais, mas fazer isso melhor e com maior valor agregado. Existem barreiras regulatórias, diferenças normativas, percepções geopolíticas devido ao T-MEC e falta de conhecimento mútuo entre as empresas.”

O desafio do desequilíbrio comercial

O intercâmbio comercial entre o México e a China supera os 100 bilhões de dólares anuais, mas a balança é estruturalmente deficitária para o México — uma assimetria que o presidente Roqueñí reconhece abertamente quando fala sobre construir uma relação de “aliados estratégicos para a prosperidade compartilhada”. Diante desse dado, Gamboa é clara em relação ao que deve ser a resposta do setor privado organizado.

“Estamos focados em três linhas: a promoção ativa de exportações mexicanas para a China, o acompanhamento técnico para cumprir os padrões chineses e a geração de oportunidades de negócio concretas por meio de feiras, missões e plataformas como a CISCE”, explicou. E foi enfática ao marcar a orientação estratégica: “o objetivo não é frear importações, mas fortalecer a capacidade exportadora do México.”

Huawei na diretoria e a aposta tecnológica

A designação de Eric Liu, da Huawei, como vice-presidente da Câmara é um dos elementos que mais define o perfil da instituição neste momento.

Não é um dado menor: a Huawei opera no México há mais de duas décadas, onde mais de 80% das chamadas telefônicas são feitas através de um dispositivo da empresa. Mas sua presença vai muito além dos telefones: a empresa já implementou 2 GW em instalações solares e 175 MWh em projetos de armazenamento de energia no país, e planeja duplicar sua rede de eletrolineras para veículos elétricos com a meta de 40 pontos de carga operativos até o final de 2026. Para Gamboa, essa incorporação à estrutura diretiva tem um significado que vai além da representação simbólica.

“A presença da Huawei na estrutura diretiva fortalece significativamente o perfil da Câmara”, afirmou: “implica incorporar visão tecnológica, experiência global e capacidade de inovação. Também reflete a confiança de empresas líderes na Câmara como uma plataforma institucional séria e de alto nível.”

Conectividade aérea: ampliar o que já existe

A Câmara liderou recentemente uma reunião com representantes da Air China para explorar a ampliação da conectividade aérea entre os dois países. Embora já existam voos diretos entre o México e a China, a frequência e a capacidade atuais ainda são insuficientes para o volume de intercâmbio empresarial que a relação bilateral demanda. Gamboa coloca o tema em uma perspectiva de competitividade estrutural.

“Um voo direto não é apenas conectividade: é competitividade. Um voo direto adicional da Air China reduziria os tempos logísticos, facilitaria o intercâmbio empresarial e potencializaria o turismo e o investimento”, afirmou.

“Desde a Câmara, apoiamos qualquer iniciativa que favoreça os vínculos comerciais entre os dois países. Qualquer projeto nesse sentido é uma prioridade estratégica para a relação bilateral”, acrescentou.

O T-MEC e a tensão geopolítica com Washington

A chegada de empresas chinesas ao México — especialmente no setor automotivo elétrico — está redefinindo o mapa industrial do país e gerando tensões com Washington em torno do cumprimento do T-MEC. Gamboa é direta a esse respeito e defende a compatibilidade de ambas as relações.

“O México tem uma posição única: é parceiro da América do Norte e ao mesmo tempo um ator relevante para a China. Não são relações exclusivas, mas complementares se forem geridas corretamente”, afirmou. E precisou qual é o critério que orienta o trabalho da Câmara: “promovemos investimentos que cumpram com o marco regulatório do T-MEC e que gerem valor local, empregos e transferência tecnológica.”

As comissões de trabalho que marcam a agenda

Além da representação institucional, a Câmara articula seu trabalho por meio de comissões temáticas que traduzem as prioridades estratégicas em propostas concretas. A esse respeito, Gamboa identifica quais concentram hoje maior atividade.

“Hoje destacam-se as comissões de Legal, Talento Humano e Migração, Logística, e Eletromobilidade e Sustentabilidade. Essas comissões estão construindo agendas concretas que incluem propostas regulatórias, projetos de investimento e estratégias setoriais”, detalhou.

O México frente ao Brasil: a vantagem de ser plataforma

Na disputa por captar investimento e atenção estratégica chinesa na América Latina, a comparação com o Brasil é inevitável. Gamboa a aceita e responde com precisão, apelando a um argumento que considera definidor para a visão chinesa.

“O México tem três vantagens-chave: o acesso preferencial ao mercado da América do Norte via T-MEC, a localização geográfica estratégica e a base industrial consolidada”, enumerou. E finalizou: “O Brasil é um mercado enorme, mas o México é uma plataforma exportadora global. Para a China, isso é altamente estratégico.”

Percepções que melhorar entre ambos os países

Ao encerrar a conversa, Gamboa oferece uma leitura pessoal sobre o principal obstáculo que enfrenta a relação México-China a nível de percepções, e o faz a partir da experiência cotidiana de quem gerencia esse vínculo de dentro.

Para ela, “o maior mal-entendido é a percepção. No México, às vezes se vê a China apenas como um competidor; na China, nem sempre se dimensiona o potencial estratégico do México”.

“A realidade é que há uma enorme complementariedade. Meu trabalho, na Subdireção da Câmara, é precisamente traduzir, conectar e gerar confiança entre os dois ecossistemas”, concluiu.

Nota de Marcos González Gava, cofundador do Reporte Asia e especialista em assuntos culturais e negócios financeiros e comerciais com a República Popular da China

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