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"Oriente Médio: Não é possível falar de paz sem compreender a linguagem e a cultura dos povos envolvidos nos conflitos (George Chaya)"

Por Poder & Dinero

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Os aspectos linguísticos, conceptuais e culturais que afastam as partes que negociam são maiores do que as complexas negociações que ocorrem durante anos no Oriente Médio. Durante anos, a liderança política e a opinião pública ocidental têm mostrado seu desconhecimento quando se fala do mundo árabe islâmico.

Sem prejuízo de que a linguagem das negociações seja o inglês, cada parte no processo pensa em sua língua materna e, consciente ou inconscientemente, negocia através de sua própria idiossincrasia e parcialidade cultural. As diferentes administrações americanas mostraram pouco conhecimento do que se passa pela mente dos palestinos, persas-iranianos ou do resto do mundo árabe islâmico. Os conceitos, a linguagem e a cosmovisão nesse mundo são diametralmente distintos e opostos aos que imagina ou percebe o Ocidente.

Um exemplo muito atual é o uso do termo alto o fogo, um conceito central e de vital importância na busca da paz tão distante segundo os fatos e a crise atual entre Washington, Teerã e Jerusalém, onde cada parte envolvida usa essa palavra, mas para cada uma adquire um significado e conotações culturais diferentes.

No inglês, como entendem os americanos, o termo alto o fogo significa o fim total por uma parte de qualquer atividade que uma segunda possa interpretar como agressiva. Em hebraico, o termo é traduzido como Hafsakat esh. Para os israelenses, alto o fogo significa: “os palestinos têm que parar todos os atentados contra eles, mas se Israel tem conhecimento de um atentado terrorista iminente, pode e deve agir para evitá-lo”. Em árabe, o termo utilizado para definir o alto ao fogo e a trégua é Hudna, e para os muçulmanos, sejam sunitas palestinos ou chiitas iranianos significa: “cessação temporária das hostilidades e/ou escalada de hostilidades contra um inimigo real até poder vencê-lo no futuro”. Essas diferenças são suficientes para acabar com qualquer acordo que possa ser alcançado.

É muito importante que a opinião pública ocidental saiba que na língua árabe existem três tipos de acordos de paz (Hudna, Atwah e Sulha). Todas essas palavras têm sua origem na lei tribal do mundo árabe-islâmico.

Hudna é um princípio fundamental reconhecido por cada crente. É um conceito legal aplicado às tribos. É algo temporário, a hudna é utilizada como veículo para alcançar o próximo passo definido como Atwah, um compromisso intertemporal ou de prazo mais longo. Um acordo de paz definitivo não é alcançado até que o próximo passo seja concretizado.

hudna mais famosa ocorreu no ano 628 d.C. quando o profeta Mohamad assinou a paz com os anciãos de Medina na cidade de Huday Biyyah. O acordo alcançado durava 9 anos, 9 meses e 9 dias. Dois anos depois, Mohamad quebrou o pacto e atacou, destruindo e vencendo os líderes tribais. Essa história do Alcorão ensina aos seguidores do islamismo duas lições importantes: I) Que um muçulmano pode assinar um acordo com não muçulmanos quando está em desvantagem e esse acordo reverterá em seu interesse e II) Que após ter se revitalizado e fortalecido, pode romper o acordo.

Esta é a versão corânica ou islâmica do Cavalo de Troia, onde o presente pode se tornar o catalisador da derrota. Na história árabe-islâmica (incluindo os árabes que vivem em Israel), os Acordos de Armistício de 1949 assinados em Rodes entre Israel e seus vizinhos árabes muçulmanos beligerantes são considerados um momento de Hudna. Em inglês, o mesmo tratado é chamado de armistício e em hebraico hafsakat eish.

Em setembro de 1993, os líderes Bill Clinton, Yasser Arafat e Yitzhak Rabin assinaram os Acordos de Oslo na Casa Branca. Isso foi apresentado como um passo importante em direção à paz. Um mês depois, na Cidade do Cabo, Yasser Arafat denominava os Acordos de Oslo como o pacto Huday Biyyah. Todos que ouviram e compreenderam essas palavras ditas em língua árabe sabiam que a importância das expressões de Arafat era uma hudna, um acordo feito para ser rompido no momento adequado.

Nas negociações de paz entre palestinos e israelenses, se a história ensinou algo ao Ocidente, é que as partes envolvidas em um alto o fogo são muito mais do que uma palavra para alcançar sinceramente a paz, assim como a enganação e a fraude dos enfoques linguísticos tribais na busca honrosa que se diz perseguir para alcançá-la.

*Professor George Chaya é um Conselheiro Sênior em assuntos do Oriente Médio em Segurança Nacional e especialista em OSINT baseado em Washington DC, EUA.

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