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"Marrocos e Estados Unidos: uma aliança contra as redes globais do narcoterrorismo (Adalberto Agozino)"

Por Poder & Dinero

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A cooperação entre Marrocos e os Estados Unidos na área de segurança deixou de ser uma relação discreta entre serviços de inteligência para se consolidar como uma verdadeira aliança estratégica na luta contra ameaças transnacionais. O recente desmantelamento de uma vasta rede de narcotráfico e tráfico de armas, com ramificações no Oriente Médio, África e América Latina, não apenas revela a crescente sofisticação dessas organizações criminosas, mas também a eficácia de um modelo de colaboração que colocou Marrocos no centro dos dispositivos internacionais de segurança.

O caso, instruído perante um tribunal federal do Distrito Leste da Virgínia, teve como figura central Antoine Kassis, um cidadão líbano-sírio condenado por conspiração narcoterrorista, tráfico de cocaína e fornecimento de armamento a organizações consideradas terroristas por Washington. No entanto, além do perfil do acusado, o que emerge com clareza é a existência de uma estrutura criminosa de alcance global, capaz de articular circuitos logísticos, financeiros e operacionais que conectavam zonas de conflito a mercados ilícitos em diferentes continentes.

Nesse emaranhado, a intervenção dos serviços marroquinos foi decisiva. A Direção Geral de Segurança Nacional e a Direção Geral de Vigilância do Território desempenharam um papel central na obtenção de inteligência, no monitoramento dos implicados e na coordenação de ações que permitiram desarticular a rede. A Procuradoria americana não hesitou em qualificar essa contribuição como “assistência decisiva”, sublinhando o caráter determinante da cooperação marroquina no sucesso da investigação.

A operação revela um fenômeno que preocupa crescentemente as agências de segurança: a convergência entre narcotráfico, tráfico de armas e terrorismo. Segundo as provas apresentadas em juízo, Kassis teria aproveitado seus vínculos com setores do aparato de segurança sírio para facilitar o acesso a arsenais militares, que posteriormente eram utilizados como moeda de troca em acordos com organizações insurgentes. Entre elas, o Exército de Libertação Nacional na Colômbia, que teria recebido armamento em troca de carregamentos de cocaína, em uma dinâmica que ilustra a fusão entre economias ilícitas e conflitos armados.

Esse sistema incluía mecanismos logísticos de notável complexidade. As investigações revelaram o uso de contêineres marítimos camuflados, rotas de trânsito através da África e uma rede de intermediários encarregados da lavagem de dinheiro. Em menos de dois anos, a organização teria mobilizado cerca de 100 milhões de dólares, beneficiando atores criminosos e grupos armados em diferentes pontos do planeta. A dimensão financeira do caso evidencia a capacidade dessas redes de se integrar na economia global, aproveitando suas falhas e lacunas regulatórias.

A cooperação entre Marrocos e os Estados Unidos não se limitou a este expediente. Em um segundo caso, igualmente relevante, as autoridades marroquinas desempenharam um papel operacional direto ao deter em Casablanca Elisha Odhiambo Asumo, um cidadão queniano acusado de participar de uma rede internacional de tráfico de armas. Sua extradição para os Estados Unidos permitiu avançar em um processo judicial que envolve o fornecimento de armamento pesado a cartéis mexicanos, em particular ao Cartel de Jalisco Nova Geração, uma das organizações criminosas mais violentas do hemisfério ocidental.

Esse segundo caso reforça a ideia de que Marrocos não atua apenas como fornecedor de inteligência, mas também como um ator capaz de intervir diretamente em operações de alto risco em seu território, em estreita coordenação com agências internacionais. A apreensão de armas de grau militar — incluindo lançadores de foguetes, sistemas de defesa aérea e equipamentos de visão noturna — revela o nível de sofisticação das redes desmanteladas e a gravidade da ameaça que representam.

O reconhecimento americano a essa cooperação tem sido explícito e significativo. As autoridades judiciárias destacaram o “alto nível de coordenação” e a “qualidade da informação” fornecida pelos serviços marroquinos, em uma linguagem que reflete não apenas gratidão institucional, mas também confiança estratégica. Esse tipo de declarações, pouco habituais em processos judiciais dessa natureza, sublinha o valor que Washington atribui à sua parceria com Rabat em um contexto internacional marcado pela proliferação de ameaças híbridas.

Esse episódio se inscreve em uma dinâmica mais ampla que confirma o papel crescente de Marrocos na arquitetura global de segurança. Sua posição geográfica, na interseção da Europa, África e Atlântico, o torna um ponto chave para o controle de rotas ilícitas. A isso se soma uma política sustentada de modernização de seus serviços de inteligência e uma vontade explícita de cooperação internacional, que se traduziu em uma presença ativa em operações conjuntas e na troca sistemática de informações.

No plano interno, os esforços marroquinos contra o narcotráfico têm sido igualmente intensos. As apreensões de grandes volumes de droga, juntamente com a desarticulação de redes logísticas, refletem uma estratégia integral que combina ação policial, inteligência e cooperação judicial. Essas operações não apenas têm um impacto local, mas contribuem para enfraquecer circuitos globais que alimentam tanto o crime organizado quanto os conflitos armados.

A dimensão geopolítica dessa cooperação é inegável. Em um cenário internacional caracterizado pela fragmentação e multiplicação de atores não estatais, a capacidade dos Estados de articular respostas coordenadas se torna um fator decisivo. A aliança entre Marrocos e os Estados Unidos ilustra como a convergência de interesses pode se traduzir em resultados concretos, mesmo diante de ameaças de natureza difusa e mutável.

A operação que levou à condenação de Kassis e ao desmantelamento de sua rede constitui, em última análise, um exemplo paradigmático dessa nova lógica de segurança. Uma lógica na qual as fronteiras entre crime e política se desfocam e na qual a cooperação internacional deixa de ser uma opção para se tornar uma necessidade. Nesse cenário, Marrocos conseguiu se posicionar como um parceiro indispensável, cuja capacidade operacional e confiabilidade institucional são hoje reconhecidas no mais alto nível pelos Estados Unidos.

Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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