A visita do presidente colombiano Gustavo Petro a Washington não representa uma mudança ideológica nem uma reconciliação política com os Estados Unidos. Representa a aceitação tácita de que, neste capítulo, quem impõe as condições é Donald Trump, não Petro. O encontro confirma que a margem de manobra do presidente colombiano foi reduzida e que sua narrativa de confrontação cedeu a uma realidade estratégica em que Washington conserva a iniciativa, a capacidade de pressão e o controle dos tempos.
Petro tem mantido de forma consistente uma oposição frontal à erradicação dos cultivos de coca. Sua política antidrogas se baseou na substituição voluntária, no desenvolvimento rural e em uma crítica estrutural à estratégia tradicional impulsionada pelos Estados Unidos durante décadas. Essa postura pode ser coerente sob uma ótica ideológica, mas deixa um vácuo operacional em um país que continua sendo o principal produtor mundial de cocaína.
A produção de cocaína não é um fenômeno abstrato. Está vinculada ao controle territorial, a estruturas armadas, a corredores logísticos consolidados, a redes financeiras transnacionais e a níveis profundos de corrupção institucional. Quando a pressão sobre algum desses componentes é reduzida de forma sustentada, o sistema não se enfraquece: se reorganiza.
Em Washington, ninguém se engana com o discurso. O que importa é se o fluxo é contido ou não. Se as rotas são fechadas, se os carregamentos falham, se as organizações sentem pressão real. Quando essa pressão diminui, a cadeia não colapsa, mas simplesmente se reorganiza. Esta é a crua realidade.
A visita adquire maior peso quando se lembra do histórico de confrontação de Gustavo Petro com a administração Trump. Não foi uma fricção pontual nem um mal-entendido diplomático. Em várias ocasiões, Petro chegou a qualificar o presidente norte-americano como criminoso, acusando-o de violações dos direitos humanos e até chamando publicamente policiais e militares dos Estados Unidos a desobedecer seu próprio comandante-em-chefe.
Essa postura não foi improvisada. Respondia a uma linha política deliberada, alinhada com setores da esquerda regional e construída sobre a confrontação direta com Washington. Petro levou essa narrativa a diferentes fóruns internacionais, incluindo conferências climáticas e sua presidência pro tempore da CELAC, de onde continuou usando o cenário para deslegitimar e humilhar publicamente a administração do presidente Trump.
Esse antecedente explica porque o encontro na Casa Branca não pode ser interpretado como uma aproximação natural ou amigável. É uma retirada tática. Quando entram em jogo sanções, cooperação em segurança, controle financeiro e legitimidade internacional, a retórica perde utilidade.
A isso se soma a posição de Petro em relação às operações letais cinéticas. A rejeição sistemática ao uso da força direta contra estruturas criminosas resulta especialmente problemática em um contexto onde a cocaína produzida na Colômbia alimenta um mercado violento, armado e altamente organizado. A cadeia de suprimentos não é civil nem passiva. Está projetada para resistir à pressão estatal. Negar o uso da força sem substituí-lo por um mecanismo igualmente eficaz deixa intacta a capacidade operacional das organizações criminosas.
As tensões com os Estados Unidos também não se limitaram ao tema das drogas. No plano internacional, Petro adotou uma postura abertamente confrontacional no conflito de Gaza, alinhando-se contra Israel e personalizando sua crítica no primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Essa posição refletiu um estilo de liderança disposto a subordinar considerações estratégicas a posicionamentos ideológicos, mesmo que isso implicasse custos diplomáticos diretos.
Nesse mesmo contexto se inscrevem outras decisões e gestos menos visíveis, mas igualmente reveladores. Petro ordenou a suspensão dos envios e exportações de carvão para Israel e tentou impedir que governadores colombianos viajassem e se reunissem com a Casa Branca, chegando até a ameaçar tomar ações contra aqueles que mantivessem canais diretos com Washington. Tudo isso reforçou a percepção de uma política externa personalista, centralizada e definida mais pela confrontação do que pelo cálculo estratégico.
Em contraste, sob a administração do presidente Trump, os Estados Unidos conseguiram impor a pausa mais prolongada e com maior impacto no fluxo de cocaína para seu território desde o início da guerra contra as drogas. A combinação de interdição sustentada, pressão financeira, controle de rotas marítimas e aéreas e uso constante de inteligência operacional produziu uma interrupção real na cadeia de suprimentos. Tudo indica que os níveis de disponibilidade de cocaína no mercado norte-americano estão entre os mais baixos registrados, tanto em volume quanto em regularidade.
Esse resultado não é circunstancial. Depende de continuidade. Qualquer concessão estratégica — em particular, uma negociação que reduza a interdição letal como moeda de troca para melhorar a relação política com a Colômbia — teria efeitos imediatos sobre a cadeia. A experiência demonstra que quando a pressão diminui, mesmo que de forma seletiva, o sistema criminoso responde rapidamente, reconstitui rotas, reduz custos e recupera ritmo. Os avanços obtidos podem se diluir em meses.
A visita também tem uma dimensão pessoal. Petro chega ao final de seu mandato com uma coalizão enfraquecida, resultados questionáveis em segurança e uma margem internacional cada vez mais estreita. Sua inclusão em listas do Tesouro norte-americano condiciona sua projeção externa e qualquer cenário posterior ao seu mandato. Nesse contexto, Washington não é apenas um parceiro incómodo, é o ator determinante.
A pergunta-chave não é o que foi dito na reunião, mas o que acontece depois. Se o encontro se traduz em cooperação operacional sustentada — inteligência aplicada, interdição marítima e aérea, pressão financeira contínua e ações persistentes contra nós críticos — o impacto sobre a cadeia de suprimentos será mensurável. Se ficar apenas em gestos diplomáticos, o sistema criminoso absorverá o ajuste sem consequências estruturais.
A experiência histórica é clara, os vácuos de pressão não reduzem a violência nem fortalecem a governabilidade. Fazem o contrário. Permitem que as economias ilícitas consolidem controle territorial, aumentem rendimentos e aprofundem a captura institucional.
Petro pode manter sua oposição ideológica à erradicação. Os Estados Unidos podem aceitar ajustes táticos. Mas sem uma estratégia integral que eleve custos reais à cadeia criminal, o fluxo de cocaína para os Estados Unidos continuará.
Esse será o verdadeiro parâmetro para avaliar esta visita.
Sobre o autor:
Jesús Daniel Romero é ex-oficial de inteligência naval e especialista em operações de inteligência do Exército dos Estados Unidos, com mais de 37 anos de experiência em segurança regional e ameaças transnacionais. É analista habitual em meios internacionais como Sánchez Grass na América, Fox News, espaços informativos de Voz Media e Newsmax, e tem sido citado e entrevistado pelo The Wall Street Journal. É autor best-seller de El Vuelo Final: La Reina del Aire e Silencio Letal: El Mundo Oculto de los Narcosubmarinos.

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