Ao contrário do que ocorreu na República Argentina, as violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura de Augusto Pinochet continuam impunes até hoje. O ditador chileno morreu ostentando o título de Senador vitalício e teve um funeral de Estado que Michelle Bachelet, na época Presidenta do Chile, teve que assistir, ela que se exilou na República Democrática da Alemanha durante a ditadura.
Essa impunidade garantida pelo poder político e judicial tanto a Pinochet quanto aos demais participantes e executores do golpe e das diversas violações dos direitos humanos cometidas durante a ditadura permitiu o desenvolvimento de uma democracia que, embora aparente ser sólida, continua devendo a todas as vítimas do regime militar.
Com uma duração de quase 20 anos, a ditadura chilena, ao contrário da argentina, quebrou a ordem constitucional de maneira especialmente violenta, bombardeando o Palácio da Moneda e assassinando vários funcionários do governo democrático de Allende. Salvador Allende, o Presidente deposto, suicidou-se oferecendo um último ato de resistência contra os golpistas.
De 1973 a 1991, Augusto Pinochet instaurou um regime de terror, onde os opositores políticos eram fuzilados no Estádio Nacional do Chile, os desaparecidos contavam-se por centenas e os direitos políticos eram completamente suprimidos.
Além de sua intenção de reorganizar a sociedade sob supostos valores cristãos e ocidentais, Pinochet e um grupo de economistas conhecidos como Los Chicago Boys, se propuseram a reestruturar a economia chilena seguindo os preceitos do Prêmio Nobel de Economia Milton Friedman.
Em 1991, quando após um referendo Pinochet aceitou convocar eleições, o Chile era um país radicalmente diferente do de 1973. Além dos assassinados, desaparecidos e exilados, as medidas neoliberais resultaram em uma sociedade desigual.
Apesar de tudo, muitos chilenos continuaram apoiando Pinochet. É por isso que a democracia chilena nasceu em uma espécie de limbo, tutelada pelo poder militar.
Os sobreviventes e familiares das vítimas tiveram que permanecer em silêncio, sem acesso à justiça e sem saber o que aconteceu com seus entes queridos.
Diante da impotência da impunidade, os tribunais internacionais pareciam a única forma de obter um pouco de reparação. Mas quando Garzón ordenou a prisão de Pinochet, grande parte da opinião pública chilena se mostrou indignada. Condenavam especialmente a ingerência de um juiz estrangeiro nos assuntos internos do Chile, mas também simpatizavam com Pinochet.
O contraste com a Argentina era enorme. Enquanto em nosso país Jorge Rafael Videla morreu em uma prisão, no Chile os apoiadores de Pinochet continuam ocupando um lugar na opinião pública chilena. Nesse sentido, a vitória de Kast não é nenhuma surpresa.
Parece que um fantasma chamado negacionismo percorre a região da América Latina. Desde o México até o Chile e a Argentina, a extrema direita busca fazer seu lugar no discurso público. Nossas jovens democracias devem resistir a essa crise. Mas para isso é fundamental buscar justiça e reparação para as vítimas do terror do passado.


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