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Reflexões do México (Leo Silva)

Por Poder & Dinero

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Como jovem agente da DEA, muito antes de ser designado para Guadalajara ou Monterrey, passei muitas tardes com meu parceiro e mentor, Mario Alvarez, tomando cervejas bem geladas em nosso lugar favorito: o Toucan Lounge. Era o tipo de lugar que não tentava impressionar ninguém; luzes baixas, mesas marcadas pelo tempo e um bar que havia escutado mais confissões do que promessas. Ali o tempo parecia passar mais devagar, especialmente nas tardes, quando o dia parecia disposto a parar por uma cerveja a mais.

Mario era da velha escola. Entrou no serviço em 1971, quando a DEA ainda era conhecida como BNDD. Ele havia visto tudo. Trabalhou em casos que nunca saíram nas notícias, fez trabalho disfarçado inúmeras vezes e conseguiu capturar homens cujos nomes eram sussurrados, não pronunciados. Heroína. Cocaína. Os piores dos piores. Carregava esses anos como somente os agentes veteranos fazem: em silêncio, sem ostentação, sem reclamações.

Quando nos sentávamos no Toucan, com a condensação escorrendo pelas garrafas, a Mario gostava de falar sobre Guadalajara. Não sobre a violência. Não sobre o perigo. Mas sim sobre a cidade em si, como era em meados dos anos setenta. Falava de sua beleza: a luz, a cultura, a música que saía das cantinas, a comida, o clima. Também falava do trabalho, mas era evidente que Guadalajara havia sido mais do que uma simples designação para ele. Havia sido um capítulo de sua vida que ele lembrava com especial carinho.

Eu ouvia. E sem perceber naquele momento, comecei a ver a cidade através de suas memórias. Muito antes de pisar em Guadalajara pela primeira vez, a cidade já havia se instalado em mim.

Quando finalmente fui selecionado para uma designação lá, me senti profundamente entusiasmado. Antes de partir, Mario me deu um único conselho. Não foi dramático ou grandioso, apenas algo dito ao passar, da maneira que homens como ele compartilhavam o que realmente importa.

Ele me disse para não permitir que o trabalho se tornasse tão absorvente que me fizesse perder a beleza que a cidade tinha a oferecer.

Como tantas outras vezes, segui seu conselho.

Fiquei maravilhado com a beleza do Lago de Chapala enquanto o sol se escondia atrás das montanhas e o céu ardia suavemente antes de se render ao pôr do sol. Bandos de grou atravessavam preguiçosamente o horizonte em direção a suas zonas de nidificação, alheios e indiferentes ao mundo que se estendia abaixo deles. Em algum ponto atrás de mim, o som distante da música de mariachi flutuava no ar da tarde, trompetas e violinos que subiam e desciam suavemente, enquanto observava o reflexo do pôr do sol na água.

Fiquei em silenciosa admiração diante da presença majestosa do Nevado de Colima, com seu pico nevado se erguendo branco e distante, intacto diante do passar do tempo, como um lembrete de que há coisas que perduram muito além de nós. Uma beleza assim reforçou minha crença na existência de Deus e me fez sentir pequeno, no melhor dos sentidos, uma única figura dentro de um vasto universo.

Ao longo da costa de Manzanillo, as profundas águas azuis do Pacífico eram igualmente impressionantes. O romper das ondas contra a praia tornou-se hipnótico enquanto meu parceiro e eu compartilhávamos cervejas Pacífico bem geladas, observando crianças brincarem inocentemente nas ondas.

Esperávamos a chegada de um contêiner carregado com toneladas de cocaína.

As crianças não tinham ideia do que estava chegando à costa naquele dia. Não compreendiam o destino do veneno nem o dano silencioso e irreversível que deixaria em seu caminho. Riam e corriam atrás da água, alheias à transcendência do que estava por chegar, sem saber quão profundamente isso afetaria a humanidade muito além daquela faixa de areia.

Lembro-me de ter me perguntado naquela hora se nossa presença realmente importava no panorama maior das coisas. Se confiscássemos essa carga, haveria outras atrás, onda após onda. No final, não parecia mais permanente do que os grãos de areia com os quais as crianças construíam seus pequenos castelos: formas breves diante de uma maré que nunca para totalmente.

Mario não era um homem que demonstrasse emoções ou que refletisse sobre o sentido da vida de uma maneira literária. Era tão duro quanto os melhores. Mas, à sua maneira sutil, ele estava me dizendo que havia algo mais do que o trabalho, que se não tivesse cuidado, o trabalho poderia consumir tudo. À sua maneira, ele estava me dizendo para parar e apreciar as coisas simples.

Eu o fiz. E por isso, serei sempre grato.

Mario faleceu há muitos anos, mas seu legado nunca se desvanecerá. Agora, eu mesmo mais velho, e nesta etapa da minha vida, entendo suas palavras com mais clareza do que então. Levo essa lição comigo, honrando sua memória não com discursos nem sentimentalismos, mas com a lembrança.

De vez em quando, volto ao Toucan Lounge. Me sento em silêncio e olho para a mesa onde costumávamos passar nossas tardes, onde Mario evocava seu tempo no México e me contava suas histórias. O bar não mudou muito. Seu murmúrio continua igual ao de então.

 Enquanto me sento na luz tênue, quase posso vê-lo ali, com aquele sorriso familiar no rosto. Honro sua memória, ergo meu copo e digo saúde ao meu velho amigo.

Leo Silva é ex-agente especial da DEA (Escritório de Monterrey) e autor de Reign of Terror e El Reinado de Terror. Com décadas de experiência na linha de frente da luta contra os cartéis transnacionais, Silva oferece aos leitores uma visão íntima de algumas das operações mais perigosas direcionadas contra líderes e organizações de alto nível.

Desde a publicação de suas memórias, Silva se tornou uma voz reconhecida na mídia e no circuito de palestras. Sua história e suas análises foram apresentadas em entrevistas com o jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer Jorge Ramos na Univision (Así veo las cosas), o jornalista três vezes ganhador do Emmy Paco Cobos (La Entrevista), e Ana Paulina (Voces con Ana Paulina), onde sua participação gerou milhões de visualizações. Também foi convidado em plataformas destacadas como o pódcast Cops and Writers com Patrick J. O’Donnell, Game of Crimes com Steve Murphy e Llamados a Servir com Roberto Hernández.

Através de seus livros, palestras e aparições na mídia, Silva continua iluminando as realidades do crime organizado, o trabalho das forças de segurança e o custo humano da guerra contra as drogas, ao mesmo tempo que compartilha lições de resiliência, liderança e veracidade.

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