Nos ensinaram a repetir que a democracia é imperfeita, mas é o melhor sistema que inventamos. E é verdade. É. É o melhor sistema que inventamos. Nenhum outro conseguiu combinar liberdade, alternância e dignidade humana como ela.
Hoje as democracias estão em uma profunda crise.
E justamente por ser o melhor sistema, não podemos nos conformar com sua imperfeição. Dizer que é o melhor não pode ser uma desculpa para não tocá-la. Tem que ser o motivo para cuidá-la e melhorá-la. As imperfeições não estão para serem toleradas. Estão para serem superadas.
Quando um sistema mostra falhas, é sábio buscar os erros e encontrar caminhos de reparação. Não se trata de buscar a saída fácil, uma revolução que rompa tudo e traga outro modelo imperfeito.
A política deveria ser a ferramenta que melhore a realidade dos países para todos os seus cidadãos. Um país não tem donos. Tem administradores temporários que devem estar a serviço da totalidade de seus integrantes e não de um grupo em particular.
O descrédito
O descrédito dos políticos é cada vez maior. É um dado global, não de um país. As pesquisas são lapidárias em todos os continentes.
As sociedades, na sua maioria, não se sentem representadas. Sentem que a política fala de si mesma, que discute seus cargos, suas internas, seus privilégios, enquanto a vida real passa por outro lado.
E nesse vazio de representação cresce a expectativa perigosa nos super-homens. Líderes que se vendem como iluminados, que prometem soluções mágicas, instantâneas, sem esforço nem custo. Que não apresentam um plano, apresentam uma vingança.
Sua ferramenta central não é a ideia. É a desqualificação do adversário. O adversário já não é adversário. Passa a ser um inimigo. Um traidor. Alguém que deve ser destruído, não com quem se deve trabalhar e colaborar.
O espetáculo do eu
Escrevo estas linhas enquanto olho o patético espetáculo da eleição no Brasil, onde o show parece um jogo de futebol para ver quem faz o gol da vitória. Torcidas, camisetas, insultos. Não há debate. Há tribuna. (Aceção: escrevo isso sem me importar com o resultado. Ganhe quem ganhar no Brasil, o problema que descrevo é o mesmo. O show da divisória é idêntico de um lado e do outro).
Entre as imperfeições que se intensificaram nas últimas décadas, e especialmente com a irrupção da comunicação online, o excesso de mensagens e as redes sociais, há uma cruel paradoxo.
Nunca tivemos acesso a tantas possibilidades de informação, profundidade e análise. E nunca a política foi um espetáculo tão pobre, tão superficial.
Vende-se um ator, geralmente de um unipessoal, por cima do roteiro das ideias. Não se votam ideias nem equipes. Se votam personagens.
Breve história de uma ideia que nunca deixou de mudar
Esquecemos que a democracia não caiu do céu. Foi uma construção. E sempre esteve em reforma.
A humanidade experimentou de tudo: monarquia por direito divino, império, teocracia, oligarquia, feudalismo, absolutismo. Todos se apresentaram como eternos. Todos caíram.
A democracia moderna nasceu como um experimento limitado. A Atenas clássica era direta, mas apenas para homens livres. A república romana tinha cônsules e senado. As revoluções de 1688, 1776 e 1789 trouxeram a soberania popular e a divisão de poderes.
Mas era uma democracia para poucos. Voto censitário. Depois sufrágio universal masculino. Apenas no século XX chegou a revolução mais profunda: o voto feminino. Nova Zelândia em 1893, Finlândia em 1906, a onda posterior às Guerras Mundiais. Depois diminuímos a idade de votar de 21 para 18 e agora se discute os 16.
E surgiram os modelos. O presidencialismo americano: o vencedor leva tudo. E o parlamentarismo com suas negociações.
A democracia nunca foi um modelo terminado. Foi um modelo que se atreveu a se corrigir. Por que agora temos medo de voltar a corrigi-la?
A proposta: do 50% + 1 ao governo compartilhado
Já seria hora de buscar maneiras superiores onde a grande maioria participe do destino e responsabilidade de uma nação.
Não funciona o modelo da maioria mais um, nem mesmo que tenha 5% de diferença. Isso sempre fará com que a metade da população sinta que o governo não a representa.
Um exemplo possível: quando uma eleição não tem um margem onde a proposta vencedora obtenha um mínimo de 75% dos votantes, o futuro governo não deveria poder governar sozinho. A segunda força deveria assumir a responsabilidade em pastas fundamentais: Segurança, Desenvolvimento Social e outras. Na verdade, em todos os ministérios deveriam haver equipes mistas.
Uma espécie de co-governos que integrem os diversos. Onde seja uma prática trabalhar, conviver e colaborar com o outro e ouvir suas colocações. Se o adversário deixa de ser inimigo e passa a ser corresponsável pelo governo, acaba o negócio de vencedores e vencidos. Todos seremos responsáveis.
Regras de convivência intocáveis
Mas para que isso funcione, há uma condição prévia e inegociável: regras de convivência intocáveis.
Não pode haver um modelo superior se as regras do jogo podem ser alteradas pelos jogadores para seu benefício.
Assim como no esporte as regras não são mudadas pelo time que está ganhando, na democracia as regras institucionais não podem ser infringidas nem reescritas pelos políticos para se perpetuarem, para dominar a justiça, para silenciar a imprensa, para mudar a forma de contar os votos ou para transformar o Estado em um prêmio.
Deve existir um núcleo duro, pétreo, não reformável por maiorias circunstanciais: independência judicial real, liberdade de imprensa, transparência no financiamento. (Aceção: isso vale para todos. Para a direita e para a esquerda. Para governistas e oposições. Nenhum espaço político pode se apropriar do direito de tocar nessas regras em seu benefício).
O fim da rua sem saída
Porque quando não há projetos superiores que façam responsável do destino toda a cidadania, quando a frustração se acumula e as pessoas sentem que vote o que votem nada muda, aparece o pior.
A frustração se transforma em violência. A falta de horizonte se transforma em anarquia. E a democracia, esse melhor sistema que inventamos, começa a ser vista não como a solução, mas como o problema.
A história é clara: nenhuma sociedade tolera eternamente sentir-se fora de seu próprio destino. Se a democracia não integra, desintegra.
É preciso pensar em reformas que aperfeiçoem o sistema. Quando algo deixa de funcionar ou começa a mostrar falhas severas, é tempo de ver os motivos. E é sábio encontrar novos caminhos.
A democracia é pobre se o único ato é votar. Ser cidadão deveria implicar uma participação que não delegue simplesmente em uma votação circunstancial o destino de todos. Ser cidadão é ser parte, não ser torcida.
Não se trata de saber quem faz o gol no último minuto ou qual cavalo ganha por uma cabeça. Trata-se de trabalhar, conviver e colaborar para que a corrida ganhemos todos.
Seria imperdoável deixar cair o melhor sistema que inventamos, apenas por não nos animarmos a melhorá-lo.
Miguel Steuermann é Diretor da Rádio JAI, a rádio judaica da América Latina

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