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A segurança não começa nos tribunais. (Juliana Montani/Latinoamérica21)

Por Poder & Dinero

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Após dois homicídios aberrantes cometidos por menores na Argentina, o governo de Milei incluiu por decreto nas sessões extraordinárias a revisão do regime penal juvenil para reduzir a idade de imputabilidade. O ano que terminou nos mostrou como diferentes líderes apelaram ao reflexo punitivo como proposta de campanha. Donald Trump, Javier Milei e José Antonio Kast transformaram o aumento das penas em uma bandeira de gestão. 

O argumento não é falso. A legislação é imprescindível para definir quais condutas um Estado aceita ou rejeita. A probabilidade de ser detido pela polícia aumenta o custo de delinquir. E uma justiça independente do poder político e das pressões setoriais é uma condição básica para a segurança jurídica e pessoal. Mas levado ao extremo, o enfoque punitivo tem custos: atenta contra os direitos individuais e políticos.

Foucault descreveu sociedades utópicas hipervigiadas. Existem casos reais e próximos de pacificação com mão dura, como o de Nayib Bukele em El Salvador, e também regimes onde o braço armado não serve à justiça, mas ao liderazgo político, como na Venezuela, Coreia do Norte, Rússia e China.

Além da afetação de direitos, o fortalecimento coercitivo do Estado tem seus próprios limites estruturais. Maior patrulhamento e penas podem reduzir o delito, mas não é suficiente: deixa de fora outras políticas públicas e ações da sociedade civil. A questão relevante é, além de quão severo deve ser o castigo, qual é a forma mais eficiente de prevenir.

O sistema penal chega tarde

Confiar apenas na vontade individual para escolher caminhos virtuosos é um ato de fé míope e imprudente. O delito não acontece no vácuo; se inscreve em histórias pessoais, trajetórias escolares, famílias, bairros, empregos possíveis e impossíveis, estigmas acumulados e falta de oportunidades. Quando o sistema penal entra em cena, já é tarde: houve vítimas e danos.

A evidência comparada mostra que nos países com menores níveis de delito (Japão, Noruega, Países Baixos, Finlândia), a segurança não é concebida como uma emergência, mas como uma política pública de longo prazo. Muitas prisões são fechadas porque não são necessárias ao haver políticas e instituições que se antecipam: educação precoce, saúde mental, urbanismo, emprego, redes comunitárias e uma polícia profissional. A segurança não se alcança endurecendo penas, e sim reduzindo as condições que propiciam a delinquência. 

Existem experiências alternativas à lógica penal clássica que modelam caminhos onde múltiplos atores se envolvem. Os modelos de justiça restaurativa buscam superar tanto a expropriação do conflito por parte do Estado quanto o foco em castigo ou reabilitação centrados apenas no infrator. Consideram a vítima, o dano causado, e o tecido social. 

Na Espanha, a Fundação Unblock trabalha com jovens presos ou em risco de exclusão. Seu presidente, Carlos Trenor, afirma que “Quando se sai de uma prisão, é o mesmo, mas mais velho. Em muitos casos, piora. Assim não se protege nem as vítimas, nem os contribuintes, nem os próprios condenados.” Por isso, na Unblock busca-se acompanhar quem sai da prisão para reconstruir sua autoestima, romper o rótulo de “ex-delinquente” e tirar a pessoa dos circuitos que a empurram a reincidir. O programa custa menos que um ano de prisão e alcança o que o encarceramento raramente consegue: reduz a reincidência e gera efeitos preventivos que se multiplicam sobre o entorno do condenado.

De Mar del Plata, o Programa Gaia, desenvolvido na Unidade Penitenciária de Batán, propõe uma abordagem multidimensional do comportamento ilícito. A partir da análise de julgamentos orais, testemunhos e perícias, a juíza Mariana Irianni identifica frequentemente um trauma fundante por trás da repetição delitiva. O trabalho terapêutico e psicoeducativo do programa diminuiu a violência entre aqueles que cumprem pena de prisão. Sem compreender a origem do dano, a reincidência não é uma anomalia: é uma consequência previsível.

Contra toda intuição

Os delitos de alto impacto que sustentam a proposta reativa e punitiva dominam o imaginário público, no entanto, não representam a maioria dos casos que sobrecarregam a justiça. Na ampla gama de delitos e contravenções menores, há um amplo espaço para intervir antes que o dano escale.

Mas mesmo em contextos de violência extrema, há programas que exibem sucesso pacificador onde o aparato punitivo falha. Após uma tentativa de homicídio na Hacienda Ron Santa Teresa na Venezuela, nasceu - de forma insólita devido ao contexto nacional- o Projeto Alcatraz, que combina esporte, formação profissional e acompanhamento, com o qual foi possível desmantelar onze bandas delitivas e reduzir os homicídios no município de Revenga, segundo dados locais, de 147 para cada 100 mil habitantes a apenas dois. Andrés Chumaceiro, o COO da Hacienda, traça um paralelo sugestivo: “Fazer um bom rum exige tempo, maestria e paciência; transformar biografias também. Não há varinha mágica: há um retorno difícil à comunidade, mas reconfigurando o entorno e permitindo que quem cometeu delitos se perdoe” é possível avançar.

A lei é imprescindível, a prisão é necessária e, embora apostar exclusivamente no castigo traga uma sensação de segurança imediata, empobrece o debate e apenas posterga o problema. Uma hacienda venezuelana, uma fundação em Madrid e uma unidade penitenciária em Mar del Plata compartilham um fio comum: a criminalidade diminui quando diversos atores da sociedade interagem com o sistema penal e se sentem responsáveis pelo resultado.

Diante da demanda por segurança, os governantes têm a oportunidade de explorar e sincerar as causas, admitir que a problemática ultrapassa o sistema carcerário e policial e convidar a política, a sociedade civil, o setor privado e fundações a trabalhar coordenadamente. Prevenir o delito requer tempo, investimento e corresponsabilidade, e os resultados nem sempre coincidem com o próximo calendário eleitoral. A segurança não se decreta, se constrói.

Juliana Montani é Licenciada em Ciência Política pela Universidade de Buenos Aires (UBA), especialização em Relações Internacionais, diploma da Escola de Governo INCAP. Analista no Instituto de Segurança Internacional e Assuntos Estratégicos (ISIAE/CARI).

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