A notícia durou pouco, mas seu impacto potencial foi considerável. Um programa da radiodifusão pública espanhola, Mañaneros 360, divulgou a existência de um suposto “plano de contingência” elaborado pelo Governo de Pedro Sánchez para responder a uma eventual nova crise migratória provocada desde Marrocos. A informação sugeria que Madrid estudava mecanismos destinados a elevar o custo para Rabat de uma eventual utilização dos fluxos migratórios como instrumento de pressão sobre a Espanha, particularmente nas fronteiras de Ceuta e Melilla. O Governo espanhol negou posteriormente, de maneira categórica, que semejante plano existisse e qualificou de falsa a informação. RTVE retirou depois a publicação de suas redes sociais.
A precisão não é menor. A versão inicialmente divulgada não falava simplesmente de medidas preventivas para proteger as fronteiras espanholas, algo perfeitamente compatível com as obrigações de qualquer Estado. Apresentava, em troca, a possibilidade de que Marrocos estivesse disposto a provocar deliberadamente uma crise migratória e atribuía a Madrid a intenção de preparar uma resposta de caráter dissuasório. O Governo espanhol rejeitou precisamente essa interpretação.
A controvérsia aparece, além disso, em um momento particularmente sensível. Durante o verão de 2026, Ceuta voltou a experimentar uma forte pressão migratória. No final de julho, ocorreu uma chegada massiva de migrantes por terra e mar, enquanto durante os dias seguintes as autoridades espanholas e marroquinas reforçaram seus dispositivos de segurança ante novas convocações divulgadas através das redes sociais. Reuters informou em 14 de agosto que as autoridades marroquinas haviam detido mais de uma centena de pessoas que tentavam alcançar Ceuta, enquanto a Espanha aumentava substancialmente sua presença policial no enclave.
O episódio confirma que existe um problema migratório real e que a Espanha precisa dispor de mecanismos de prevenção e resposta. Mas disso não se desprende necessariamente a existência de uma estratégia espanhola dirigida contra Marrocos. A diferença é substancial. Uma política de proteção de fronteiras pode coexistir com uma relação bilateral cooperativa; um plano concebido explicitamente para penalizar ou pressionar o país vizinho implicaria, em troca, uma modificação muito mais profunda da relação estratégica.
Uma relação demasiado importante para ficar subordinada à questão migratória
A realidade das relações hispano-marroquinas dificilmente se encaixa com a imagem de dois Estados encaminhados para uma nova confrontação. Desde a adoção da folha de rota de abril de 2022, Madrid e Rabat procuraram construir um marco de cooperação mais amplo e estável. A XIII Reunião de Alto Nível, realizada em dezembro de 2025, ratificou novamente a vontade de ambos os governos de aprofundar uma relação definida oficialmente como moderna, global e transversal.
O fundamento material dessa relação é particularmente sólido. A Espanha é há anos o principal parceiro comercial de Marrocos. Em 2024, os intercâmbios bilaterais alcançaram os 22.693 milhões de euros, um recorde histórico, com um crescimento superior a 7%. Mais de 6.000 empresas espanholas exportam regularmente para o mercado marroquino e mais de 900 contam com filiais ou participações significativas em companhias do país. Marrocos se tornou, além disso, o principal destino do investimento espanhol na África.
Os números revelam uma interdependência que transcende amplamente o comércio convencional. Empresas espanholas participam em projetos marroquinos de infraestrutura, transporte, água e energia, enquanto Marrocos ocupa uma posição cada vez mais importante dentro das cadeias produtivas que conectam a Europa com a África. Para a Espanha, a proximidade geográfica torna o reino alauíta em uma plataforma natural para o continente africano; para Marrocos, o vínculo com a economia espanhola facilita sua conexão com o mercado europeu.
Essa dimensão econômica explica por que uma crise diplomática teria custos para ambos os países. Madrid não tem interesse em deteriorar uma relação que oferece oportunidades comerciais, energéticas e empresariais crescentes. Rabat também não parece ter incentivos para pôr em risco uma associação que lhe proporciona acesso privilegiado a um dos principais mercados europeus.
A mesma lógica opera na matéria de segurança. Espanha e Marrocos mantêm uma cooperação estreita contra o terrorismo, a radicalização violenta, o crime organizado e as redes dedicadas ao tráfico de pessoas. Em fevereiro de 2025, os ministros do Interior de ambos os países qualificados a cooperação policial bilateral de extraordinária e reafirmaram sua vontade de aprofundá-la. Madrid destacou então o papel marroquino na luta contra as máfias de tráfico de seres humanos e definiu Marrocos como um parceiro leal e confiável da Espanha e da União Europeia.
A cooperação migratória, portanto, não constitui um elemento marginal da relação bilateral. É um de seus pilares. Madrid precisa da colaboração marroquina para conter as redes de tráfico de pessoas e reduzir as saídas para o território espanhol, enquanto Rabat obtém dessa cooperação reconhecimento político, assistência europeia e um interlocutor privilegiado dentro da União Europeia.
Ceuta e Melilla: o ponto mais vulnerável
A questão migratória constitui, no entanto, a área onde a relação bilateral apresenta maiores riscos. Ceuta e Melilla são espaços especialmente sensíveis porque lá conflui soberania, segurança de fronteira, mobilidade humana e as complexas relações de vizinhança entre a Espanha e Marrocos.
A crise de 2021 demonstrou até que ponto uma alteração da cooperação pode provocar consequências imediatas. Mas também pôs em evidencia o elevado custo de uma ruptura. Desde então, Madrid e Rabat têm trabalhado para evitar que a questão migratória volte a se tornar um mecanismo de confrontação geral.
Mesmo durante a recente crise, a interlocução entre ambos os governos se manteve aberta. O presidente Pedro Sánchez afirmou durante sua visita a Ceuta, no final de julho, que a cooperação com Marrocos havia sido constante e fluida e destacou que a interlocução com as autoridades marroquinas tinha sido muito distinta da registrada em 2021.
Esse dado resulta particularmente significativo. Se existisse uma decisão política de Madrid de considerar Marrocos como adversário estratégico, resultaria difícil conciliar isso com a continuidade dos canais de cooperação que funcionam precisamente durante os episódios de maior tensão.
O risco de uma crise fabricada por terceiros
É nesse ponto que adquire interesse a hipótese de que existam atores interessados em deteriorar a relação entre Espanha e Marrocos. Não existem, ao menos a partir das informações disponíveis, elementos suficientes para atribuir a difusão do suposto plano a uma organização ou Estado concreto. Seria, portanto, imprudente converter essa possibilidade em uma acusação.
Mas a existência de interesses que poderiam beneficiar-se de uma confrontação hispano-marroquina constitui uma hipótese politicamente razoável. A relação entre ambos os países afeta equilíbrios muito mais amplos do que os estritamente bilaterais. Incide sobre a política migratória europeia, a segurança do Mediterrâneo ocidental, as rotas comerciais, os investimentos, a cooperação antiterrorista e a posição de Marrocos dentro da arquitetura estratégica europeia e africana.
Por isso, qualquer informação que apresente Rabat como uma ameaça para a Espanha pode ser utilizada para alimentar percepções de desconfiança e favorecer posições políticas contrárias à cooperação. A difusão de uma informação posteriormente desmentida, especialmente quando procede de um meio público e adquire rapidamente circulação em meios espanhóis e marroquinos, pode gerar consequências mesmo depois de haver sido retirada. O próprio documento aportado aponta que a publicação terminou circulando em ambos os países e transferiu para o terreno bilateral uma versão que carecia de respaldo oficial.
A questão fundamental, portanto, não é somente quem divulgou a informação, mas a quem poderia beneficiar uma percepção de crescente hostilidade entre Madrid e Rabat.
A necessidade de separar a crise da relação estratégica
A Espanha tem o direito e a obrigação de proteger suas fronteiras e de preparar respostas ante eventuais crises migratórias. Marrocos, por sua parte, tem a responsabilidade de controlar suas fronteiras e combater as redes criminosas que utilizam os migrantes. Nenhuma dessas obrigações requer transformar o outro país em um adversário.
A cooperação bilateral já demonstrou que pode produzir resultados. Em 2024, Madrid destacou a redução das chegadas irregulares e a eficácia da cooperação contra as máfias dedicadas ao tráfico de pessoas. Ao mesmo tempo, a abertura das alfândegas comerciais em Ceuta e Melilla, a expansão da migração circular e a coordenação policial mostram que a relação se encontra assentada sobre interesses concretos e não unicamente sobre declarações diplomáticas.
A isso se acrescenta um horizonte que dificilmente se encaixa com uma estratégia de confrontação: Espanha, Marrocos e Portugal serão países anfitriões da Copa do Mundo de Futebol de 2030. Ambos os governos consideram o acontecimento uma oportunidade para aprofundar os vínculos econômicos, sociais e humanos entre as duas sociedades.
A desmentida do Governo espanhol adquire assim uma dimensão que supera o episódio midiático. Madrid enviou uma mensagem inequívoca: a existência de problemas migratórios em Ceuta e Melilla não significa que a Espanha tenha decidido modificar sua estratégia em relação a Marrocos. A segurança de fronteira continuará sendo uma prioridade, mas dentro de um marco de cooperação.
A conclusão mais razoável é que a relação hispano-marroquina atravessa uma fase de tensão localizada, não uma nova crise estratégica. A pressão migratória pode provocar episódios graves e exigir respostas contundentes, mas os interesses econômicos, de segurança e geopolíticos que vinculam ambos os países são profundos demais para ficarem subordinados a cada sobressalto de fronteira.
Nesse contexto, é especialmente importante evitar que informações não verificadas transformem uma dificuldade concreta em uma crise diplomática geral. Espanha e Marrocos têm numerosos interesses compartilhados e ambos os governos parecem compreender que a estabilidade do Mediterrâneo ocidental depende, em boa medida, de preservar essa associação. Precisamente por isso, qualquer ator que pretenda transformar a questão migratória em uma fonte permanente de desconfiança estaria agindo contra uma das relações estratégicas mais relevantes da arquitetura política e econômica entre a Europa e o norte da África.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política, Analista Internacional e Professor da Universidade de Buenos Aires

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