04/03/2022 - Política e Sociedade

Subsídio à riqueza

Por Horacio Gustavo Ammaturo

Subsídio à riqueza

Os subsídios são estímulos que uma parte, geralmente através do Estado, confere a outra para que de maneira artificial se de impulso à atividade econômica. Podem ser orientados para o consumo, quando são os consumidores que recebem ou a produção quando o aparelho produtivo é o receptor.Durante a pandemia, produto do Covid-19, fomos testemunhas de publicações e discussões nos meios de comunicação social e nas redes sociais sobre a assistência que o governo nacional deu às empresas cujos accionistas têm recursos para enfrentar circunstâncias adversas transitórias.

Dentro deste grupo de grandes empresas se mencionam a um canal de televisão aberta cuja dona é o quarto maior conglomerado mediático do mundo. Alguns dos jornais mais prestigiados do país aproveitaram a oportunidade do subsídio aos salários para incluir o rendimento mensal que nos seus papéis de empregados percebem os seus diretores e accionistas. Mesmo um dos maiores grupos em termos de capitalização da bolsa depois de despedir parte dos seus trabalhadores recebeu subsídios para o pagamento de salários, mesmo que seu CEO esteja listado entre uma das maiores fortunas do mundo.

Os grandes grupos econômicos recebem diferentes tipos de benefícios por parte do Estado que bem poderiam se assemelhar a subsídios.

Vamos descrever algumas das formas em que os ricos se alimentam da energia do Estado, também financiado pelos pobres através dos impostos que tributam seus consumos.

Embora o provérbio diga que para mostrar basta um botão, neste caso vamos enunciar vários a modo de exemplo.

Monopolios

A concentração na oferta de bens e serviços essenciais e de consumo maciço, como os alimentos, os medicamentos, os produtos de higiene pessoal e de limpeza permitem às empresas que os oferecem fixar os preços em função do que a procura pode pagar mais do que em relação aos custos, maximizando os benefícios. Os monopólios associados aos reguladores e aos organismos de controlo da concorrência e aos consumidores ineficientes constituem um verdadeiro subsídio que todos financiamos em cada uma das nossas contratações.

Reserva de Mercado

Tal como com os monopólios onde um ou poucos são os oferentes, também existe o monopsonio que é outra forma de mercado imperfeito em que há um ou poucos compradores para produtos oferecidos por muitos produtores. Consequentemente, a procura assume uma posição dominante por meio de regulamentos que o Estado faz, e fixa os preços em detrimento de pequenos e desorganizados fornecedores. Um caso onde o Estado promove o ambiente necessário para essas informais foi dado no preço da chatarra em nosso país. Sabe-se que é insumo fundamental para os grandes fornos de fundição e que só há um par deles em nosso país. Durante décadas, a exportação de chatarra foi proibida, permitindo às poucas fundições existentes fixar o preço que nunca ultrapassou o terço do valor do mercado internacional, enquanto que o produto acabado proveniente desses insumos excedeva o valor internacional, deixando margens impossíveis de obter em situações normais as empresas e obrigando os clientes locais a pagar preços muito acima dos de referência no mundo. Situações semelhantes ocorreram com outros produtos como por exemplo o açúcar.

Infra-estruturas à Medida

O Estado Nacional construiu infraestrutura elétrica, estradas, portos e centros de distribuição com destino específico para o apoio de empresas privadas. Por exemplo, entre 1969 e 1970, o governo tinha aprovado o Programa de Desenvolvimento da Indústria do Alumínio que incluía três obras importantes: uma usina produtora de alumínio primário em Porto Madryn que seria realizada com capitais privados, mas todas as obras necessárias para o seu funcionamento foram realizadas com contribuição pública, uma usina hidrelétrica sobre o rio Futaleufú para fazer funcionar a fábrica e um porto de águas profundas, dentro do Golfo Novo. O risco empreendedor foi substituído pelo apoio do Estado e do investimento e os custos dos factores de produção fundamentais desta indústria são subsidiados pelas arcas públicas.

Preços da Energia

Foi vocação de todos os governos do nosso país intervir nos preços da energia. Sem ir mais longe hoje temos duas referências da intervenção para apoiar as grandes empresas. Pelo lado do consumo deixou fixo o valor do custo dos fornecimentos de gás, electricidade e combustíveis. Através da oferta, estabelecendo preços mínimos para garantir retornos sobre os investimentos das empresas. Desta forma, apoia-se grandes consumidores e gigantes da indústria petrolífera, tudo isto obviamente com o dinheiro do Estado.

Tipos de Alterações Diferenças

Talvez este seja o subsídio preferido pelos ricos na Argentina. Enquanto os produtores agropecuários reclamam das retenções e taxas de câmbio para a liquidação das suas operações, os importadores de bens e serviços produzidos no exterior contam com valores de referência menores que o resto da economia. Os grandes empresários têm acesso a mecanismos mais sofisticados para adquirir divisas em tempos de turbulência, desta forma protegem os seus ativos contra crises económicas. O imposto sobre a compra de divisas é um tributo para a classe média, pois os ricos adquirem divisas por outras vias. Mas, sem dúvida, o desdobramento cambial traz aparelhado ao maior dos subsídios que recebem os ricos que é a nacionalização da dívida privada contraída no estrangeiro. Enquanto uma pessoa que deseja adquirir divisas para atesoramento deve pagar um imposto de 30%, ou uma empresa local deve cancelar uma dívida contraída localmente em dólares deve recorrer ao mercado de liquidação e pagar 70% mais do que a taxa de câmbio oficial, uma empresa que tem uma dívida externa pode aceder ao mercado oficial de mudanças adquirindo um menor valor a moeda procurada. Na verdade, a diferença no valor do dólar que se adquire a pagamos entre todos, pois a reposição dessa posição será sem dúvida a valores maiores.

Mercado de capitais à medida dos grandes

No nosso país, a frase que diz: “os bancos prestam àqueles que não precisam”. A verdade é que, salvo em empréstimos subsidiados pelo governo com destino específico para PME ou para incentivo ao consumo, o sistema bancário é concebido para realizar operações de crédito para consumo ou para grandes empresas, uma vez que só estas contam com documentação, experiência e relações necessárias para aceder ao financiamento produtivo. Longe têm estado das pequenas empresas e os particulares as possibilidades de obter empréstimos convenientes durante muitos anos no nosso país. Por outro lado, qualquer outra estrutura confiável, obrigações, ou emissão de ações ou obrigações para cotadas na bolsa de comércio são tão complexas que só ficam reservadas para os ricos. Estas circunstâncias propõem uma reserva do pequeno mercado de capitais locais para os ricos impedindo o acesso a essas ferramentas aos mais pequenos, ficando expostos ao desfinanciamento ou à usura.

Contratos Públicos

É claro que, no nosso país, o investimento público supera amplamente o investimento privado, sendo o Estado o principal contratante dos bens e serviços oferecidos na economia. Os processos de concursos públicos são complexos, requerem apresentações e garantias de oferta geralmente reservadas a grandes fornecedores, deixando fora pequenas empresas que devem reunir antecedentes e capacidades fazendo os trabalhos para grandes empresas que, em muitos casos, só agregam o valor do seu peso estrutural pagando o Estado um sobrepreço por isso. Além disso, a fama de mal pagor que tem em geral a administração pública espanta pequenos fornecedores frente ao medo de fazer face aos incumprimentos contratuais. Tudo isto aproveitado pelas grandes empresas que contam com o financiamento bancário em alguns casos e em outros com a relação com o cliente que melhora os prazos de pagamento.

Acordos e Ofertas Fiscales

Sem dúvida foram os ricos os principais beneficiários das moratórias e branqueamentos fiscais. Enquanto um empregado em relação à dependência contribui com uma retenção do imposto aos ganhos, antecipando o pagamento do tributo e com poucas possibilidades de deduzir seus custos de vida reais, os empresários que omitiam apresentar seus estados contabilísticos, ou que pior, alteraram suas declarações são beneficiados com esta forma de subsídios que é o perdão de multas, juros, costas e penas corporais, que é o pagamento em dezenas de quotas com baixo interess em pesos que serão desvalorizados no tempo.

Os regimes de promoção fiscal que foram implementados para grandes investimentos agropecuários ou industriais também foram formas de subsídios para os investidores, apenas que nestes casos se denominaram “fomento”.

Inflação

Talvez este seja o maior e permanente subsídio na Argentina durante os últimos 60 anos.

A inflação é uma fonte de recursos não genuínos, tanto para o Estado como para os ricos, pois ambos os factores são enriquecedos em termos de poder de compra face ao rendimento dos pobres, pois o salário e a despesa pública estão em atraso no aumento dos preços e no valor em moeda dura das contas de investimento e despesas públicas.

Quando se fala das contas públicas e do défice fiscal, que é o produzido entre os rendimentos e egresos que tem o estado, geralmente colocamos atenção nas pequenas empresas e contapropistas que trabalham num mercado marginal, reclamando a sua incorporação no mercado legal e o pagamento dos impostos que correspondem à sua actividade, respondendo pelos menores rendimentos, por um lado, e pelo outro às pessoas de baixos recursos que recebem assistência mínima para a sua subsistência atribuindo-se a culpa pelos maiores egresos. Além disso, refere-se ao Estado como um péssimo administrador que utiliza os recursos públicos para fins políticos e eleitorais, e aos grandes empresários como vítimas que têm de sustentar com o seu esforço e impostos a este modelo ineficiente.

Foi instalada na opinião publicada que as políticas do Estado fazem com que os ricos defendam os pobres. Como vimos na Argentina, foram muito importantes os subsídios que as grandes empresas e os ricos recebem.

Criticar a assistência pública quando apoia os pobres sem considerar os incentivos e privilégios que os ricos têm é uma manifestação clara da luta pela distribuição dos recursos públicos.

Por outro lado, os planos sociais e o apoiolismo contribuem com o principal elo na cadeia produtiva, “o consumo”, sem o qual indústrias e comércios careceriam de sentido.

Sempre, sob a forma direta ou indireta, os subsídios acabam nas mãos dos ricos.

Para pensar...

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horacio gustavo ammaturo

Horacio Gustavo Ammaturo

Chamo-me Gustavo Ammaturo. Sou licenciado em Economia. CEO e Diretor de empresas de infraestrutura, energia e telecomunicações. Fundador e mentor de empresas de Fintech, DeFi e desenvolvimento de software. Designer de produtos Blockchain.

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