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"Entardecer em Chipinque Encontrando paz no silêncio após o caos (Leo Silva)"

Por Poder & Dinero

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Há momentos na vida que nunca desaparecem completamente.

Não se desvanecem com o tempo. Não se suavizam com a distância. Permanecem lá—em silêncio, pacientes—esperando que o mundo pare o suficiente para voltar.

Para mim, esses momentos quase sempre chegavam depois do caos.

Depois das operações.
Depois da tensão.
Depois daqueles dias em que cada decisão tinha consequências que eram sentidas muito tempo depois que o sol se punha.

No Capítulo 4 de O Reinado do Terror, escrevi sobre uma dessas noites.

Eu me lembro de ter chegado em casa, com o ambiente ainda carregado de tudo o que o dia havia exigido de mim. Servi um copo de Merlot, saí para fora e observei como o sol se escondia atrás da silhueta do Cerro de Chipinque, em Monterrey. Sempre fiquei fascinado pela forma como a luz do sol projetava tons dourados e matizes laranja intensos sobre a rocha branca e a vegetação exuberante da montanha, com o pano de fundo de um céu azul tão claro que parecia irreal. Era impressionante.

Havia silêncio.

Não a ausência de ruído, mas algo mais profundo.

Uma quietude que se sentia quase desconhecida.

Porque nesse tipo de trabalho, o silêncio era raro. E quando você o encontrava, aprendia a se apegar a ele.

Naquele momento, eu não entendia completamente o que estava buscando.

Talvez eu teria dito que só estava tentando relaxar. Descomprimir. Deixar o trabalho para trás, mesmo que por algumas horas.

Mas com o tempo, eu entendi a verdade.

Eu estava buscando paz.

A culminação da operação Canicon foi um desses pontos de virada.

Teve peso—mais do que outras. Não apenas no aspecto operacional, mas no pessoal. Deixava uma espécie de resíduo… daqueles que não se apagam ao final do dia.

E como em muitas outras ocasiões depois disso, eu me encontrei buscando algo que me estabilizasse.

Não conversa.
Não distração.

Mas música.

Quase sempre era instrumental.

O som suave do jazz preenchendo o espaço…
ou as notas distantes e melancólicas de uma guitarra de mariachi sem palavras.

Sem letras. Sem ruído. Apenas emoção.

A música se tornou uma ponte—algo que me levava de um mundo a outro.

Do caos… a algo parecido com a calma.

E ali eu ficava, muitas vezes só, com as montanhas ao longe e o céu se transformando em cores que me lembravam que ainda existia beleza no mundo.

Apesar de tudo o que eu havia visto.
Apesar de tudo o que eu sabia.

Enquanto contemplava aquela paisagem, às vezes sussurrava uma pequena oração de agradecimento—nada elaborado, apenas um momento de gratidão por estar ali, por ter voltado para casa, pela oportunidade de sentir algo diferente do peso do trabalho.

Naqueles momentos, algo mais também voltava.

A fé.

Não de forma grandiosa ou dramática.
Não daquelas que são anunciadas.

Mas algo mais silencioso.

A tomada de consciência de que havia algo maior do que tudo isso. Maior que a violência. Maior que o medo. Maior que a escuridão que às vezes parecia seguir você para casa.

Não durava para sempre.
Nunca dura.

Porque mais cedo ou mais tarde, o telefone tocava.
Ou chegava a próxima operação.
Ou a realidade o lembrava exatamente em que mundo você estava vivendo.

Mas por um momento…
Só por um momento…
Havia paz.

E talvez isso é o que eu aprendi a entender ao longo dos anos.

Nem sempre você encontra uma serenidade duradoura em uma vida assim.

Mas você encontra momentos.

Pequenos.
Efêmeros.

E se você tiver sorte… aprende a reconhecê-los quando chegam.

Aprende a se sentar com eles.
A respirar.

A deixar que te lembrem quem você é—além do distintivo, além do trabalho, além de tudo o que a vida o obrigou a carregar.

Porque no final…

Esses momentos de silêncio não eram uma fuga.

Eram sobrevivência.

Leo Silva é ex-agente especial da DEA (Escritório de Monterrey) e autor de Reign of Terror e O Reinado de Terror. Com décadas de experiência na linha de frente da luta contra os cartéis transnacionais, Silva oferece aos leitores uma visão íntima de algumas das operações mais perigosas contra líderes e organizações de alto nível.

Desde a publicação de suas memórias, Silva se tornou uma voz reconhecida na mídia e no circuito de conferências. Sua história e suas análises foram apresentadas em entrevistas com o jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer Jorge Ramos na Univision (Assim vejo as coisas), o jornalista três vezes vencedor do Emmy Paco Cobos (A Entrevista), e Ana Paulina (Vozes com Ana Paulina), onde sua participação gerou milhões de visualizações. Ele também foi convidado em plataformas destacadas como o podcast Cops and Writers com Patrick J. O’Donnell, Game of Crimes com Steve Murphy e Chamados a Servir com Roberto Hernández.

Através de seus livros, conferências e aparições na mídia, Silva continua iluminando as realidades do crime organizado, o trabalho das forças de ordem e o custo humano da guerra contra as drogas, ao mesmo tempo que compartilha lições de resiliência, liderança e veracidade.

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