A política taiwanesa atravessa uma de suas crises institucionais mais graves desde a democratização. O presidente William Lai Ching-te enfrenta um processo de impeachment impulsionado pela oposição legislativa, em meio a acusações sobre violações constitucionais e uma polarização que ameaça paralisar o governo em plena tensão geopolítica.
As acusações: entre o político e o fiscal
O procedimento de destituição, iniciado em 14 de janeiro de 2026 pelo Kuomintang (KMT) e pelo Partido Popular de Taiwan (TPP), baseia-se em quatro acusações principais que a oposição considera violações constitucionais flagrantes.
A imputação central se concentra em declarações feitas por Lai durante seu discurso do Dia Nacional em 10 de outubro de 2024, quando afirmou que «a República da China e a República Popular da China não estão subordinadas entre si». Para o KMT, essa formulação contraria o artigo 4 da Constituição sobre o território nacional e equivale a uma declaração de independência encoberta que viola o delicado equilíbrio no Estreito de Taiwan.
A oposição também aponta que Lai teria exercido indevidamente o poder executivo ao não consultar previamente essas declarações com seu gabinete, violando o artigo 58 da Constituição sobre responsabilidade ministerial. Acusam-no também de agir além de suas faculdades ao fazer afirmações de política exterior sem respaldo do Yuan Executivo.
Um terceiro eixo aponta para o suposto abuso de poder ao recusar-se a comparecer pessoalmente às audiências legislativas. Para o KMT e TPP, essa ausência constitui desrespeito à autoridade parlamentar e violação do princípio de prestação de contas democrática.
Finalmente, a oposição critica a gestão fiscal, apontando que a dívida pública alcançou 6,01 trilhões de dólares taiwaneses (185 bilhões de dólares americanos), 25,4% do PIB, supostamente violando os limites da Lei de Dívida Pública. Também foi criticado o aumento nos gastos com Defesa que Lai propõe.
O pulso institucional: confronto total
A moção foi aprovada em primeira leitura em 14 de janeiro com 56 votos a favor e 51 contra, em meio a cenas de alto-voltagem político, com legisladores do DPP tentando bloquear fisicamente o processo.

No momento mais felizes, ao iniciar seu mandato, ao lado de sua antecessora na presidência, Tsai Ing-Wen.
Lai adotou uma postura de confronto absoluto: recusou-se a comparecer às audiências de 17 de janeiro, argumentando que a convocação carece de base legal e que o impeachment «não tem fundamentos constitucionais nem factuais». Em seu comunicado foi categórico: «Não assistirei porque fazê-lo significaria legitimar um processo inconstitucional. O Yuan Legislativo não tem autoridade para convocar o presidente nessas circunstâncias».
Sobre a dívida pública, Lai apresentou uma defesa técnica: explicou que os 6,01 trilhões correspondem à «dívida bruta», mas que o cálculo correto deve considerar a «dívida líquida», que após descontar os 606,9 bilhões do fundo de amortização reduz-se a 5,4 trilhões (22,9% do PIB), mantendo-se abaixo do limite legal de 50%.
O Partido Progressista Democrático (DPP) qualificou o processo como «golpe legislativo» e «violência política sem precedentes». A vice-presidente Hsiao Bi-khim declarou que constitui «um ataque à democracia taiwanesa» cujo objetivo real é «derrubar um governo democraticamente eleito». O DPP mobilizou manifestações massivas em Taipei por essa situação.
O KMT, por sua vez, denuncia a «atitude imperial» de Lai. Seu líder Eric Chu declarou: «Se um presidente pode ignorar o parlamento e se recusar a prestar contas, que diferença há com uma ditadura? Defendemos o Estado de Direito e que ninguém está acima da lei».
Segundo o artigo 90 da Constituição, o Yuan Legislativo deve apresentar a acusação ao Tribunal Constitucional, único órgão competente para julgar o impeachment presidencial, com um prazo de três meses para resolver.
Atenção de Pequim
Embora a China não tenha emitido declarações diretas, analistas concordam que Pequim está acompanhando de perto a crise. Um governo enfraquecido em Taipei poderia ser visto como uma oportunidade para aumentar a pressão sobre a ilha.
Meios estatais chineses, como o Global Times, publicaram editoriais sugerindo que a crise demonstra o «fracasso do sistema democrático ocidental» e a «necessidade de retornar ao redil da mãe pátria».
Além dessa análise, o verdadeiro perigo não é tanto que Lai seja destituído —considerado remoto— mas a paralisia governamental. Um executivo constantemente questionado terá dificuldades para tomar decisões estratégicas em defesa e relações exteriores, precisamente quando Taiwan precisa apresentar uma frente unida diante de ameaças externas crescentes.
Três cenários possíveis
Rejeição pelo Tribunal Constitucional (mais provável)
Para que o impeachment prospere, é necessária a maioria de dois terços dos juízes. O tribunal possui apenas cinco magistrados dos quinze que deveria ter, devido a bloqueios legislativos anteriores.
Se o Tribunal considerar que as acusações não configuram «traição ou alta traição» —únicos crimes constitucionais para destituir um presidente—, rejeitará a moção. As declarações políticas de Lai, embora polêmicas, dificilmente constituam crimes de tal gravidade. Da mesma forma, as discrepâncias fiscais não atingiriam esse limiar.
Uma rejeição fortaleceria Lai politicamente, que poderia se apresentar como vítima de perseguição partidária. No entanto, o desgaste seria inevitável e afetaria sua capacidade de governar com um parlamento opositor.
Aceitação e destituição (altamente improvável)
Se o Tribunal considerar fundamentadas as acusações, a vice-presidente Hsiao Bi-khim assumiria interinamente. Mas, dado que também pertence ao DPP e criticou duramente o processo, o KMT poderia questionar sua legitimidade, prolongando a instabilidade.
Esse cenário teria repercussões imediatas com a China, que poderia intensificar exercícios militares e pressão econômica. Internacionalmente, geraria incerteza sobre a estabilidade da ilha, baluarte democrático no Leste da Ásia.
Resolução intermediária ou negociada (possível, mas difícil)
O Tribunal poderia emitir uma resolução que não destitua Lai, mas estabeleça limites sobre o exercício presidencial, com recomendações sobre procedimentos em política exterior ou coordenação orçamentária com o legislativo.
O futuro da democracia taiwanesa
Além do desfecho, a crise expõe fraturas profundas no sistema político taiwanês. Revela a fragilidade de um modelo onde um governo minoritário enfrenta uma oposição com maioria parlamentar, mas sem capacidade real para destituí-lo, exceto por causas gravíssimas.
O caso levanta perguntas fundamentais: Quais são os limites da liberdade de expressão presidencial em Taiwan em temas sensíveis como a relação com a China? Como equilibrar a independência do executivo com a prestação de contas? Pode-se implementar uma agenda de investimento em defesa e tecnologia com uma maioria legislativa opositora que questiona cada item?
A polarização reflete divisões mais profundas sobre a identidade nacional. Enquanto o DPP representa aqueles que se identificam exclusivamente como taiwaneses e favorecem a distância da China, o KMT representa setores com vínculos culturais mais fortes com o continente.
O que está em jogo transcende Lai: trata-se da capacidade da democracia taiwanesa de processar conflitos políticos sem derivar em crises aproveitáveis por atores externos. Um Taiwan dividido e paralisado é exatamente o que Xi Jinping poderia esperar para avançar seus objetivos de «reunificação».
A verdadeira prova não será se Lai sobrevive politicamente —algo provável— mas se as instituições democráticas podem emergir fortalecidas, demonstrando que o Estado de Direito e o equilíbrio de poderes funcionam mesmo em meio à polarização mais intensa.
Marcos Lionel Gonzáles Gava CEO & Co-fundador de Reporte Asia

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