Nota do Autor:
Este episódio é adaptado de uma breve cena do Capítulo 13 do meu livro, O Reinado do Terror, que narra meus anos como agente da DEA em Monterrey durante um dos períodos mais violentos da cidade. Aqui, ampliei-o de forma mais reflexiva e pessoal, para compartilhar o significado profundo que esse momento teve.
Monterrey despertava lentamente naquela manhã, como se resistisse a abrir os olhos para mais um dia de medo. Uma pálida névoa de novembro se agarrava às ruas, suavizando as bordas dos edifícios e desfocando o contorno acentuado do Cerro de la Silla. O mundo parecia apagado, não em silêncio, mas em um sussurro, como soa uma cidade quando seu povo aprendeu a caminhar com cautela por seus próprios bairros.
Meu parceiro e eu caminhávamos entre aquela névoa na cinza ressaca de uma semana longa e frustrante. A ressaca não ajudava, mas não era a cerveja que nos pesava. Era o fracasso, esse fardo silencioso e invisível que se instala sobre os ombros depois de uma semana perseguindo um fantasma que você não pode se dar ao luxo de perder.
Avançávamos em direção ao Consulado como homens sonâmbulos, duas silhuetas em uma cidade que tentava lembrar quem havia sido.
Então, da bruma, surgiu a voz de um jovem. “Bom dia, chefes. Acabaram de sair do forno. Experimentem.” Ele emergiu da névoa como um pequeno milagre desafiador: um garoto magro em uma bicicleta maltratada com uma vitrine de confeitaria improvisada. Empanadas polvilhadas com açúcar e bolos recheados de fruta estavam alinhados como pequenos tesouros, seu calor embaçando o vidro. Não devia ter mais de vinte anos, e no entanto se movia com a postura luminosa de um menino que ainda acreditava que o mundo poderia se inclinar para o bem através do trabalho honesto.
Não havia nada extraordinário nele, exceto tudo.
Ele nos cumprimentou com um sorriso amplo demais para o clima, um sorriso que pertencia a tempos mais tranquilos, a cidades mais amáveis. Um sorriso que deveria estar em uma praça em um domingo de manhã, não à beira de uma zona de guerra disfarçada de metrópole.
Compramos um par de empanadas. A crosta estava morna em minha mão, a cobertura açucarada suave sob meu polegar. Ele nos agradeceu com o entusiasmo de alguém que acabou de fazer sua primeira venda do dia, e talvez fosse isso mesmo.
Depois, ele pedalou em direção à névoa, assobiando uma melodia completamente fora de lugar com o peso do mundo ao seu redor.
E algo dentro de mim mudou.
Eu o observei se afastar, as rodas de sua bicicleta traçando linhas finas sobre a umidade do pavimento. A névoa o foi devorando pouco a pouco: primeiro seu carrinho, depois seus ombros, em seguida, o eco distante de seu assobio. E ao desaparecer, senti uma pressão no peito, uma sensação inesperada. Era obrigação, feroz e repentina, nascida não do dever nem da ira, mas da clareza.
Aquele jovem era tudo o que a cidade ainda tinha a perder.
E homens como esses chefes de praça implacáveis, que se alimentam do medo e constroem impérios sobre as rotinas quebradas do povo comum, não hesitariam em lhe tirar a vida. Não por necessidade. Nem mesmo por maldade. Mas por pura indiferença. Porque em seu mundo, a inocência é descartável.
De pé ali, com uma empanada morna na mão e a névoa fria no rosto, algo se estabeleceu com força dentro de mim: se não parássemos homens como eles, meninos como ele nunca teriam uma oportunidade. A esperança nunca teria uma oportunidade.
A missão se afilou em meu peito. Ele era a razão. Pessoas como ele sempre eram.
Cada sicário que perseguíamos, cada operação, cada noite sem dormir, era pelas pessoas que se levantam antes do amanhecer para trabalhar, cuidar de suas famílias e manter viva uma cidade ferida da maneira mais simples e bela.
Algumas memórias surgem dentro de nós como uma oração — sem palavras, mas poderosas o suficiente para sustentar a alma.
Aquela manhã, a imagem do vendedor se perdendo na névoa deixou essa marca em mim.
Voltei ao Consulado sentindo que algo dentro de mim havia sido, silenciosamente, colocado em seu lugar.
Há pessoas que levam uma cidade para frente sem saber — os madrugadores, os esperançosos, os que pedalando bolos dentro da névoa. Aquele jovem me lembrou que proteger Monterrey não se tratava de prisões ou manchetes. Tratava-se de preservar aqueles pequenos e frágeis momentos de vida normal que o mal tenta apagar com tanta insistência.
Leo Silva é ex-agente especial da DEA (Escritório de Monterrey) e autor de Reign of Terror e O Reinado do Terror. Com décadas de experiência na linha de frente da luta contra os cartéis transnacionais, Silva oferece aos leitores uma visão íntima de algumas das operações mais perigosas dirigidas contra líderes e organizações de alto nível.
Desde a publicação de suas memórias, Silva se tornou uma voz reconhecida na mídia e no circuito de conferências. Sua história e análises foram apresentadas em entrevistas com o jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer Jorge Ramos na Univision (Assim vejo as coisas), o jornalista três vezes ganhador do Emmy Paco Cobos (A Entrevista), e Ana Paulina (Vozes com Ana Paulina), onde sua participação gerou milhões de visualizações. Ele também foi convidado em plataformas destacadas como o podcast Cops and Writers com Patrick J. O’Donnell, Game of Crimes com Steve Murphy e Chamados a Servir com Roberto Hernández.
Através de seus livros, conferências e aparições na mídia, Silva continua iluminando as realidades do crime organizado, o trabalho das forças da lei e o custo humano da guerra contra as drogas, ao mesmo tempo em que compartilha lições de resiliência, liderança e veracidade.

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