Longe de ser um vestígio do passado colonial ou das guerras mundiais, os movimentos secessionistas —alimentados por identidades étnicas, ressentimentos históricos, ambições econômicas ou manipulações geopolíticas— continuam abrindo fissuras no mapa mundial, alimentando conflitos armados, deslocamentos massivos e um questionamento permanente das fronteiras estabelecidas. Dos Bálcãs ao Cáucaso, das estepes africanas aos Andes sul-americanos, essas reivindicações não apenas testam a integridade territorial dos Estados, mas também erodem a frágil arquitetura da segurança global.
O fenômeno não é novo, mas sua capacidade de mudar e se adaptar ao tempo o torna um desafio de primeira ordem para o século XXI. A história contemporânea é marcada por episódios em que minorias nacionais ou étnicas, reais ou instrumentalizadas, serviram como pretexto ou detonante para catástrofes de escala planetária. Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Versalhes, com seu desejo de redesenhar a Europa sobre bases supostamente nacionais, deixou milhões de alemães étnicos convertidos em minorias nos novos Estados da Checoslováquia e Polônia. Aqueles chamados “sudetes” foram a fissura que Adolf Hitler explorou com maestria propagandística para justificar primeiro a anexação dos Sudetes e, pouco depois, a invasão da Polônia em 1939, desencadeando assim a Segunda Guerra Mundial. O expansionismo nazista demonstrou como uma reivindicação separatista, habilidosamente manipulada, poderia se tornar o aríete de uma conflagração global.
Décadas depois, nos Bálcãs, o separatismo albanês de Kosovo voltou a ilustrar com crueza a perigosidade dessas dinâmicas. A guerra de 1998-1999, que enfrentou as forças iugoslavas com o Exército de Libertação de Kosovo e culminou com a intervenção aérea da OTAN, deixou um saldo de mais de 13.500 mortos, 1,4 milhões de albaneses deslocados e, posteriormente, o êxodo de 200.000 sérvios e outras minorias não albanesas. O Tratado de Kumanovo pôs fim às hostilidades, mas não às tensões: Kosovo proclamou sua independência em 2008, reconhecida apenas parcialmente, e continua sendo um foco de controvérsia jurídica e política que evidencia os limites do consenso internacional. A Sérvia, convertida no país europeu com maior número de refugiados e deslocados, ainda carrega as sequências daquele conflito.
Esses não são casos isolados. Na África, as fronteiras traçadas pelas potências coloniais europeias sem respeito algum às realidades étnicas ou tribais semearam o terreno para tragédias posteriores. A guerra de Biafra na Nigéria, entre 1967 e 1970, foi um exemplo paradigmático: a tentativa de secessão da região sudeste, rica em petróleo e habitada majoritariamente por igbos, resultou em uma sangrenta guerra civil que causou pelo menos um milhão de mortos e dois milhões de deslocados. A internacionalização do conflito, com mercenários e potências estrangeiras envolvidas sob a égide das Nações Unidas, antecipou um padrão que se repetiria em outros cenários pós-coloniais. Hoje, no Sahel, na Cabilia argelina ou no conflito do Saara Ocidental —onde o Frente Polisário mantém desde 1975 dezenas de milhares de saharauis em campos em Tinduf, em território argelino—, o separatismo étnico e tribal continua gerando instabilidade crônica, agravada pelas mudanças climáticas, desertificação e rivalidades interestatais.
Na Ásia, a questão curda encarna como nenhuma outra a tragédia de um povo sem Estado. Mais de quarenta milhões de curdos espalhados entre Turquia, Iraque, Irã e Síria transformaram o Curdistão em uma fonte permanente de instabilidade, com organizações armadas que oscilam entre a luta por autonomia e a confrontação aberta. Sua situação, marcada por repressão estatal e violações sistemáticas de direitos humanos, se replica em outros casos: os uigures de Xinjiang, oito milhões de muçulmanos submetidos por Pequim a uma vigilância extrema e a campos de “reeducação” para erradicar o que o Partido Comunista classifica como “extremismo”; os tibetanos, cuja resistência —incluindo autoimolações públicas entre 2010 e 2012— foi respondida com detenções e torturas; ou a eterna contenda de Taiwan, uma democracia próspera e funcional que opera como Estado de fato, mas que permanece excluída do reconhecimento universal devido à pressão diplomática da China.
A América Latina não escapa a essa dinâmica, embora suas manifestações sejam menos letais em termos bélicos. No Canadá, o independentismo quebequense tem marcado a política nacional por décadas. Nos Estados Unidos, os nacionalistas porto-riquenhos protagonizaram nas décadas de setenta e oitenta uma onda de atentados. No Cone Sul, o movimento mapuche —que reivindica um “Wallmapu” que se estenderia do rio Limarí no Chile até a Patagônia argentina— combina demandas territoriais legítimas com ações violentas que resultaram em incêndios, sabotagens e confrontos com as forças de segurança. Organizações como a Coordenadora Arauco Malleco ou a Resistência Ancestral Mapuche (RAM), liderada na Argentina por figuras como Facundo Jones Huala, declararam uma “guerra de libertação” contra o “Estado burguês”, as empresas florestais e as igrejas, aproveitando a porosidade da fronteira andina para operar em ambos os países. Na Bolívia, o ex-presidente Evo Morales incentivou projetos como uma “República Aymara” em torno do lago Titicaca, enquanto em Santa Cruz de la Sierra persiste um separatismo de sentido contrário, impulsionado por elites de origem europeia relutantes ao centralismo indígena de La Paz.
O separatismo adota formas diversas, o que dificulta sua classificação e, acima de tudo, sua contenção. Pode ser étnico, como no caso curdo ou igbo; linguístico e cultural, como na Catalunha, Escócia ou País Basco, onde movimentos majoritariamente pacíficos desafiaram a integridade territorial de Estados democráticos consolidados; religioso, como entre os balúchis de “Jaish al-Adl”, cujo recente protagonismo nas trocas de mísseis e drones entre Paquistão e Irã ilustra como minorias armadas podem internacionalizar tensões regionais; ou econômico, quando regiões ricas em recursos —petróleo em Biafra, gás no Curdistão iraquiano— aspiram romper laços com centros percebidos como exploradores. Às vezes se apresenta como mera demanda de autonomia; em outras, como um projeto explícito de independência. O que subjaz em todos é uma narrativa de identidade diferenciada, frequentemente acompanhada de percepções —reais ou construídas— de discriminação e marginalização.
Um dos aspectos mais inquietantes do separatismo contemporâneo é a proliferação de entidades que funcionam como Estados de fato, mas carecem de reconhecimento internacional pleno. Somaliland, que desde 1991 opera com constituição, moeda, governo próprio e um nível de estabilidade superior ao da Somália caótica, continua sendo um Estado não reconhecido, apesar de haver realizado eleições multipartidárias avaliadas por observadores internacionais. Puntland, na mesma Região do Chifre da África, compartilha esse limbo jurídico. No Cáucaso, Abecásia e Osetia do Sul, Transnístria na Moldávia, o norte de Chipre e as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk compõem um arquipélago de entidades que operam com estruturas estatais, mas permanecem em um limbo diplomático. Taiwan, com seu sistema político e econômico totalmente desenvolvido e reconhecido apenas por um punhado de países —entre eles Paraguai, Guatemala, Belize, Haiti e vários microestados do Pacífico—, representa o caso mais notório e geopolítico sensível dessa ambiguidade. Kosovo, reconhecido parcialmente, fecha esta lista de realidades que desafiam a convenção westfaliana da soberania.
Esses “Estados de fato” levantam questões fundamentais sobre a ordem internacional: o que realmente define um Estado, o controle efetivo do território ou o reconhecimento pela comunidade? Até que ponto o princípio de autodeterminação dos povos, consagrado na Carta das Nações Unidas, pode prevalecer sobre o de integridade territorial? A resposta, na prática, depende mais de considerações políticas e correlações de força do que de princípios jurídicos coerentes, o que alimenta acusações de dupla moral e enfraquece a credibilidade do sistema multilateral.
Especialistas renomados alertaram repetidamente sobre os riscos dessa fragmentação descontrolada. O cientista político americano Robert Kaplan apontou que “a fragmentação estatal é uma das principais ameaças do século XXI, porque multiplica os atores armados e dificulta a governança global”. Em uma linha semelhante, o historiador britânico Eric Hobsbawm advertia que “o nacionalismo, em suas formas mais extremas, tende a ser excludente e potencialmente violento, especialmente quando se combina com ofensas históricas reais ou percebidas”. A acadêmica canadense Margaret MacMillan, por sua vez, sublinhou que muitas das fronteiras atuais são o resultado de decisões políticas contingentes, não de realidades naturais: “As linhas no mapa podem parecer fixas, mas, na verdade, são profundamente instáveis quando não refletem identidades compartilhadas”.
O problema se agrava quando os movimentos separatistas recebem apoio —explícito ou encoberto— de Estados que buscam enfraquecer seus rivais. A instrumentalização geopolítica transforma conflitos locais em proxies de grandes potências, desfocando a linha entre reivindicação legítima e estratégia de poder. A isso se junta o papel das novas tecnologias: as redes sociais amplificaram a capacidade desses movimentos de difundir narrativas, recrutar simpatizantes e pressionar governos e instituições internacionais. O que antes ficava confinado a um âmbito regional se internacionaliza em questão de horas, gerando uma pressão constante sobre organismos como a ONU, o Conselho de Direitos Humanos ou a Comissão de Descolonização.
Os separatistas costumam apelar ao princípio de autodeterminação surgido dos Catorze Pontos de Woodrow Wilson e ao de nacionalidades do século XIX, que contribuíram para desintegrar impérios, mas também semearam as sementes de futuras guerras. Na prática, muitos desses movimentos são dirigidos por elites políticas que se autoproclamam os únicos representantes de povo e não hesitam em recorrer à violência contra dissidentes internos. Raramente sobrevivem sem apoio financeiro e político externo, seja de Estados rivais, ONGs internacionais ou fóruns como o Grupo de Puebla ou a Internacional Socialista. Seus representantes viajam pelo mundo, estabelecem contatos em universidades e meios de comunicação, e utilizam as redes para construir uma imagem de vítimas oprimidas.
Em última análise, o separatismo revela uma paradoxal central do mundo contemporâneo: enquanto a globalização integra economias e sociedades, as identidades locais e nacionais continuam exercendo um poder mobilizador formidável. A aspiração por pertencer a uma comunidade política própria, com instituições e símbolos compartilhados, continua sendo um motor de ação coletiva. No entanto, a experiência histórica demonstra que a proliferação de Estados fragmentados multiplica os riscos de conflito, complica a luta contra o terrorismo, as pandemias ou a mudança climática e erosiona a capacidade da comunidade internacional de agir de maneira coordenada.
O desafio, portanto, não é erradicar o separatismo —uma tarefa impossível e, em muitos casos, indesejável quando responde a injustiças genuínas—, mas gerenciá-lo com inteligência. Fortalecer mecanismos de autonomia real, garantir direitos das minorias, promover diálogos negociados e evitar a lógica de soma zero parecem ser as únicas vias para conter seus efeitos mais destrutivos. Mas a história também ensina que não existem fórmulas mágicas nem soluções permanentes. Em um mundo interconectado, mas cada vez mais fragmentado, a estabilidade dependerá da capacidade dos Estados e das instituições multilaterais para canalizar essas aspirações, sem que, uma vez mais, se tornem o prelúdio de novos conflitos. O separatismo, em suas múltiplas e mutantes formas, continuará sendo uma constante do cenário global. A pergunta é se a comunidade internacional aprenderá a conviver com ele sem que termine por devorá-la.
Adalberto Agozino é Doutor em Ciência Política. Professor do Instituto Universitário da Gendarmaria Nacional e da Faculdade de Defesa Nacional da Argentina. Diretor do Instituto Argentino de Estudos Geoestratégicos. Editor da Alternative Press Agency. Especialista em temas do Magreb.

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