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A disputa pelo relato: o novo poder do século XXI (Juliana Montani)

Por Poder & Dinero

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A operação na qual morreu Nemesio Oseguera, "El Mencho", líder do Cartel Jalisco Nova Geração, foi apresentada como uma vitória estratégica do Estado mexicano em cooperação com a inteligência dos Estados Unidos. Embora seja suficientemente chamativo que tenha sido eliminado um dos criminosos mais procurados da região, sobre cuja captura eram oferecidos 15 milhões de dólares, algo muito interessante ocorreu depois.

Em questão de horas, as redes sociais se encheram de imagens de caos: bloqueios, incêndios, rumores de cidades fora de controle. Muitas cenas eram reais e algumas, falsas ou exageradas. O efeito, no entanto, foi o mesmo: a sensação de medo e de um Estado que havia perdido o controle. O crime organizado não apenas disputa o território, mas também o relato.

O mundo está atravessado por conflitos abertos e guerras de informação. Basta nomear dois casos recentes. O conflito no Oriente Médio é real, mas as imagens falsas abundam. A disputa nos Estados Unidos pelo uso restritivo da Anthropic, escalou até o Secretário de Defesa que designou a empresa como arriscada para a cadeia de suprimentos.

Cada vez fica mais evidente que o poder também se joga no terreno da percepção. Do monopólio da violência ao monopólio da percepção Max Weber definiu o Estado moderno como a instituição que monopoliza o uso legítimo da coação física dentro de um território determinado. Carl Schmitt sublinhou que o Estado se define essencialmente pela sua capacidade de decidir sobre o estado de exceção, ou seja, em momentos de crise.

Se o pensamento em torno do Estado moderno discorreu em torno do monopólio da força, do controle territorial, da capacidade coercitiva e de hierarquias claras, o desafio contemporâneo parece ser outro. Ao longo do SXX, diferentes autores mostraram que o poder não se esgota na força. Michel Foucault vislumbrou, junto à coerção, um poder difuso que molda comportamentos e percepções.

Pierre Bourdieu desenvolveu sua ideia de poder simbólico como a capacidade de impor uma visão legítima do mundo social. E Manuel Castells descreveu o poder sobre a comunicação na era digital. Controle territorial vs interpretação Hoje, muitas organizações criminosas também operam como produtoras de narrativa.

Não precisam controlar cada rua para projetar poder, mas basta instalar a ideia de que poderiam fazê-lo. A reação posterior à operação no México mostrou essa lógica. As redes e a desinformação, misturadas com cenas reais de caos, buscaram amplificar o medo e erodir a capacidade estatal de manter a ordem.

Na era digital, o poder não apenas se ocupa: se comunica, se interpreta e se disputa em tempo real. O crime organizado atual opera em vários planos. Por um lado, age a nível socioeconômico, uma vez que oferece renda, pertencimento, prestígio ou proteção onde o mercado formal ou o Estado não geram oportunidades suficientes.

O plano mais inovador é o plano narrativo, no qual coexistem a naturalização da ilegalidade e a inevitabilidade da violência com a ideia de que o Estado não alcança ou de que a ordem real se decide em outro lugar. E o plano mais visível é o clássico na análise de segurança, o de violência, controle territorial e capacidade de intimidação.

O Estado mede controle em operações, detenções e quilômetros quadrados, por trás dos quais persiste uma concepção de poder meramente coercitiva ao estilo do século XX. O crime organizado, por sua vez, aponta para o controle através da provisão alternativa de bens públicos (segurança, atendimento médico) e privados (trabalho), do medo e da circulação de informação.

O crime organizado não precisa substituir o Estado, apenas precisa coexistir com um percebido como frágil. Argentina e a captura social Olhar o que ocorre no México não implica assumir que a Argentina atravessa a mesma etapa. O crime organizado opera em enclave como Rosario, algumas zonas do conurbano bonaerense ou certas regiões fronteiriças e em redes econômicas onde encontra oportunidades em atividades ancillary: logística e lavagem de ativos.

O país não apresenta, pelo menos por agora, estruturas cartelizadas com controle territorial nem violência da magnitude de Colômbia, México ou Equador. Precisamente por isso a discussão é urgente. A experiência regional mostra que o problema raramente começa com a violência extrema. Primeiro tecem-se as redes econômicas; depois, a captura social através de emprego, pertencimento e proteção, e finalmente chega a disputa aberta pelo território.

O risco hoje é esse estágio intermediário: que o crime organizado avance silenciosamente em legitimidade social. Na Argentina, ainda as decisões institucionais podem definir o rumo. O debate local está concentrado na dicotomia ideológica mão dura vs garantismo. Uma prevenção estrutural exige políticas públicas refinadas que excedem o âmbito punitivo: inteligência financeira, controle portuário e logístico, coordenação federal, rastreabilidade econômica e políticas sociais focalizadas.

Voltando ao plano das ideias, muitos Estados ainda pensam a partir de uma matriz industrial baseada em território, lei, polícia e exército. Em sociedades conectadas, onde o poder circula por redes e narrativas, a disputa central deixa de ser apenas quem controla o território, mas quem controla a sensação de quem controla.

No SXXI deixamos para trás a frase mencionada "a história é escrita pelos que ganham". Em tempos em que as guerras e os conflitos também são travados no plano informativo em tempo real, a disputa pela percepção se torna ainda mais evidente. Ou seja: soberano é quem mantém o monopólio da percepção de controle.

Juliana Montani

Licençada em Ciência Política pela Universidade de Buenos Aires (UBA), especialização em Relações Internacionais, diploma da Escola de Governo INCAP. Analista no Instituto de Segurança Internacional e Assuntos Estratégicos (ISIAE/CARI).

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