Nos últimos anos, o acesso aos recursos naturais deixou de estar vinculado ao crescimento econômico e ao desenvolvimento industrial, passando a ter um valor estratégico para os países. A transformação tecnológica e energética mudou o valor estratégico de determinadas matérias-primas, transformando o lítio, o cobre ou as terras raras em ativos vinculados à segurança nacional e à competição entre as principais potências, deixando de ser apenas recursos econômicos.
A crescente demanda por esses recursos está impulsionando uma nova disputa pelo controle das cadeias de suprimentos. Os Estados Unidos e a China estão no centro dessa competição, enquanto diferentes países buscam garantir o acesso a minerais necessários para a produção de elementos que se tornaram vitais no século XXI, como a fabricação de baterias, semicondutores, sistemas eletrônicos, infraestrutura energética e equipamentos militares.
Uma disputa que vai além da mineração
A importância dessa questão foi mais uma vez exposta no início de agosto, quando a administração de Donald Trump anunciou investimentos em torno de US$ 3 bilhões, destinados a projetos vinculados com materiais críticos e baterias.
Essas medidas foram apresentadas como parte de uma estratégia para fortalecer as cadeias de suprimento americanas, reduzindo sua dependência de fornecedores estrangeiros, particularmente da China. Esse movimento dos Estados Unidos não constitui um fato isolado, mas responde a uma estratégia mais ampla destinada à recuperação de capacidades de extração, processamento e produção.
O conceito de "materiais críticos" refere-se a recursos considerados essenciais para setores estratégicos, cuja interrupção do suprimento poderia gerar consequências econômicas ou até mesmo de segurança. Sua relevância aumentou de maneira exponencial com a expansão das energias renováveis, dos veículos elétricos e seu uso em indústrias vinculadas à defesa, como por exemplo a fabricação de sistemas eletrônicos, radares, sensores, mísseis e veículos militares.
Enquanto o cobre é fundamental para redes elétricas e infraestrutura, o lítio ocupa um lugar central nas baterias utilizadas para armazenamento energético e mobilidade elétrica, e as terras raras são utilizadas em diversos componentes de sistemas de defesa, a competição internacional começa a se concentrar cada vez mais nas cadeias de suprimento. A questão deixa de ser quem possui as maiores reservas, mas sim quem tem capacidade de extrair, processar, refinar e transformar esses minerais.
Neste último ponto, a China possui uma das principais vantagens, já que mantém uma posição dominante em diferentes etapas do processamento de minerais críticos e terras, uma situação que nos últimos anos começou a ser considerada pelos Estados Unidos e seus aliados como uma vulnerabilidade estratégica. Por essa razão, de Washington agora tentam construir cadeias alternativas e reduzir essa dependência, transformando essa luta em uma competição por controlar setores industriais e tecnológicos que serão determinantes para a economia e a segurança internacional nas próximas décadas.
A oportunidade e o risco
Nesse cenário, a Argentina aparece como um dos países com maior potencial para se tornar um fornecedor de minerais críticos. O país possui importantes recursos de lítio e um portfólio crescente de projetos de cobre.
A incorporação da Argentina à Pax Silica, uma iniciativa lançada pelos Estados Unidos que busca fortalecer cadeias de suprimento vinculadas a minerais críticos, constitui um sinal da crescente importância estratégica que a relação bilateral com o país norte-americano começa a ter.
Essa decisão por parte da Argentina ganha uma relevância particular nesse contexto de crescente competição entre Washington e Pequim, e essa disputa já tem expressões concretas na Argentina. A tensão entre ambas potências se tornou visível nos últimos dias a partir de questionamentos do embaixador americano Peter Lamelas à presença da Huawei em projetos de infraestrutura vinculados com Vaca Muerta. Lamelas sustentou que a utilização de tecnologia chinesa poderia comprometer a segurança dos dados e desencorajar investimentos americanos, enquanto da China rejeitaram essas acusações e questionaram as pressões dos Estados Unidos.
O crescimento da mineração argentina pode gerar investimentos, exportações, emprego e maiores receitas fiscais. Mas a dimensão estratégica dos minerais críticos abre uma possibilidade adicional: integrar-se às novas cadeias globais de valor que estão sendo construídas em torno da transição energética, da tecnologia e da defesa.
A verdadeira oportunidade consiste em avançar para maiores níveis de processamento, desenvolver fornecedores nacionais, melhorar a infraestrutura e gerar capacidades industriais vinculadas à atividade mineradora.
Em um contexto em que as principais potências estão buscando fornecedores considerados confiáveis e politicamente alinhados, os recursos naturais podem se tornar uma ferramenta de negociação internacional, ao mesmo tempo em que se tornam um fator de pressão.
A Argentina tem uma vantagem que poucos países podem oferecer: possui recursos estratégicos em um momento em que as principais potências estão competindo para assegurá-los. O verdadeiro desafio está em transformar essa vantagem geológica em uma vantagem geopolítica, uma vez que hoje em dia, ter o recurso não significa necessariamente ter o poder sobre ele.

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