O cenário político
No plano político, vários países estrategicamente chave da região enfrentam eleições muito disputadas e/ou crises que podem definir se mantêm uma orientação favorável aos Estados Unidos ou, ao contrário, evoluem para governos populistas ou disfuncionais.
Peru
O candidato de esquerda Roberto Sánchez obteve inesperadamente o segundo lugar no primeiro turno das eleições de 12 de abril, o que obrigou a realizar uma recontagem de votos e gerou preocupação entre setores da direita por uma possível manipulação eleitoral.
O resultado do segundo turno, realizado em 7 de junho entre Sánchez e a candidata conservadora pró-estadunidense Keiko Fujimori, terá um profundo impacto sobre a direção do país. A China já possui uma presença significativa em setores como portos, mineração, telecomunicações e outras áreas estratégicas, enquanto a governabilidade continua gravemente afetada pelos cultivos de coca, mineração ilegal, extorsão e violência das organizações criminosas.
Colômbia
Em 31 de maio, durante o primeiro turno das eleições presidenciais, os eleitores escolheram o candidato de direita Abelardo de la Espriella para disputar o segundo turno, em 21 de junho, frente a Iván Cepeda, representante do Pacto Histórico, o movimento do líder de esquerda Gustavo Petro.
De la Espriella obteve um resultado melhor do que o previsto pelas pesquisas. Se conseguir se impor sobre Cepeda no segundo turno, a Colômbia provavelmente retomará uma postura mais próxima aos Estados Unidos, acompanhada de uma política mais agressiva contra o crime organizado e de um fortalecimento da cooperação em matéria de segurança com Washington.
Brasil
As eleições de 4 de outubro mostram um empate estatístico entre o presidente de esquerda Luiz Inácio "Lula" da Silva, de 80 anos, e Flávio Bolsonaro, dirigente conservador e pró-estadunidense, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente encarcerado.
Essas eleições são especialmente relevantes para o futuro estratégico da América do Sul, já que o Brasil concentra aproximadamente metade da população e da superfície do continente — limitando com todos os países sul-americanos, exceto dois — e possui Forças Armadas cujo tamanho supera o conjunto das demais forças militares da América do Sul.
Segundo o autor, Lula desempenhou um papel central na atração de cerca de 40% do comércio e do investimento chinês na América Latina, além de impulsionar a cooperação militar e espacial com Pequim e fortalecer a coordenação com a China em fóruns multilaterais como as Nações Unidas e os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, ampliados posteriormente com Egito, Etiópia e Indonésia).
Sob sua liderança, o Brasil também se consolidou como um dos países latino-americanos mais críticos das políticas estadunidenses, aproveitando a margem de autonomia que lhe oferece sua menor dependência do mercado norte-americano.
Equador e Bolívia
Embora nenhum dos dois países celebre eleições presidenciais a curto prazo, ambos atravessam crises que podem colocar em risco a continuidade de seus respectivos governos.
No Equador, os sucessivos estados de exceção decretados pelo presidente Daniel Noboa e seu estreito alinhamento com os Estados Unidos não conseguiram convencer boa parte da população de que sua administração pode romper o círculo vicioso do narcotráfico e da violência das gangues criminosas que afeta o país.
Além disso, o Conselho Nacional Eleitoral antecipou em três meses o calendário das eleições locais, fixando-as para novembro de 2026, uma decisão que pode fortalecer setores opositores críticos aos Estados Unidos e limitar politicamente a capacidade de ação do governo de Noboa.
Na Bolívia, o recentemente eleito presidente Rodrigo Paz parece estar perdendo terreno em seus esforços para romper o ciclo de escassez de dólares, restrições de liquidez, corrupção e conflitos sociais que paralisaram a economia.
Seu próprio vice-presidente, Edmundo Lara, e o partido de orientação conservadora liderado por Jorge "Tuto" Quiroga tornaram-se alguns de seus principais adversários. Paralelamente, denúncias que envolvem ministros de seu gabinete erodem a confiança da população em um governo que se apresentou como uma alternativa transparente, aumentando o risco de que uma administração favorável aos Estados Unidos não consiga completar seu mandato.
México
Embora as próximas eleições ainda estejam relativamente distantes, o México atravessa um momento estratégico decisivo devido à revisão do Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (USMCA).
O futuro econômico e político do país está intimamente ligado a esse acordo, considerando que mais de 80% das exportações mexicanas têm como destino o mercado estadunidense.
Consciente dessa dependência, a presidente Claudia Sheinbaum tem mantido uma estreita cooperação com Washington, aceitando até mesmo medidas politicamente sensíveis, entre elas a recepção de migrantes deportados de terceiros países, o deslocamento da Guarda Nacional para controlar os fluxos migratórios, a extradição de criminosos procurados pela justiça estadunidense e uma política mais firme contra líderes dos cartéis, como "El Mencho", chefe do Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG).
Além disso, seu governo impôs tarifas de até 50% a produtos provenientes da China e de outros países asiáticos, respondendo às denúncias de que empresas chinesas utilizam o México como plataforma para ingressar mercadorias no mercado estadunidense.
Apesar dessa cooperação, os Estados Unidos mantiveram a pressão política, incluindo a acusação apresentada em abril de 2026 contra o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya.
O autor alerta que, se fracassar a revisão do USMCA ou se a cooperação bilateral em matéria de segurança se tornar politicamente insustentável para Sheinbaum, o México pode enfrentar um severo deterioro econômico derivado da perda de acesso privilegiado ao mercado estadunidense e da diminuição dos investimentos, além de enfraquecer os incentivos que sustentaram a colaboração bilateral em matéria de segurança, migração e política em relação à China.
Resistindo à tempestade
A América Latina, uma região fundamental para a segurança e a prosperidade dos Estados Unidos, continua enfrentando uma combinação de pressões informativas, econômicas, criminosas e políticas que se reforçam mutuamente.
Segundo o autor, essas tensões podem reverter a atual orientação majoritariamente favorável a Washington e abrir caminho para uma aproximação muito mais rápida em direção à China do que muitos analistas consideram possível.
Como ocorreu repetidamente ao longo da história, conclui Ellis, a América Latina acaba fazendo sentir seu peso quando Washington ignora — ou não compreende adequadamente — os problemas que afetam seus vizinhos.
Dr. R. Evan Ellis
Professor de Pesquisa sobre América Latina
U.S. Army War College

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